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Umbanda: religião prega o amor e luta contra o preconceito

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No Brasil, é muito comum falar em religião e logo pensar nas Igrejas Católicas ou Evangélicas. Difícil deve ser encontrar quem logo de cara pense na Umbanda como uma religião para depositar sua fé em momentos difíceis e agradecer em momentos bons, não é mesmo? Isso acontece porque, apesar de ter mais de um século de reconhecimento como religião, a Umbanda ainda é muito mal interpretada por falta de conhecimento.

São 111 anos de história, sendo que o amor, a paz e a caridade são pregados sem muitas divulgações. Com isso, o grande desafio de líderes religiosos da Umbanda é vencer o preconceito que ainda existe e quebrar as mentiras que são associadas de forma equivocada à religião que tem a missão de fazer o bem, seja a quem for.

 

111 ANOS

Umbanda demorou a ser reconhecida como religião

No último dia 15, a Umbanda completou 111 anos de história, ou 111 anos de reconhecimento. Isso porque, a Umbanda já existe há muito tempo, mas só foi reconhecida como sendo uma religião no início do século XX. Com suas origens na África, a religião que prega a caridade e o amor chegou ao Brasil junto com os negros escravos. Assim como nada era fácil para os escravos, eles também sofreram para cultuar seus Orixás, que são divindades. No entanto, souberam sincretizar, ou seja, integrar influências do catolicismo, do espiritismo e até mesmo de bruxas, que eram as benzedeiras que faziam remédios com plantas na Umbanda.

No Brasil, o reconhecimento da religião está ligado ao médium Zélio Fernandino de Morais que é considerado o anunciador da Umbanda no país. O pai de santo Renan Lamanna de Oxalá e a mãe pequena Stella Aquino de Iemanjá explicaram que o reconhecimento da religião aconteceu em 1908, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, quando o médium Zélio aos 17 anos se levantou após sofrer uma inexplicável paralisia. Um dia antes, o garoto chegou a dizer que iria estar curado, e de fato, um dia depois se levantou e caminhou como se nada tivesse acontecido. Ninguém encontrou uma explicação para seu caso e, certa vez, Zélio foi até a Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, em Niterói. Na ocasião, ele recebeu uma entidade que se denominou Caboclo das Sete Encruzilhadas que disse que fazia parte da Umbanda e que a partir daquele momento Zélio iria levar a mensagem de uma nova religião, na qual a caridade e o amor seriam prioridades.

Com isso, nasceu em São Gonçalo o Templo Espirita Nossa Senhora da Piedade que tinha Zélio como médium. Com isso, o pai de santo disse que a Umbanda, que até então era coisa de pobre, negro e favelado, começou a existir. “Pessoas brancas e ricas também passaram a ter acesso a Umbanda”, completou. Renan explicou como a Umbanda enxerga Jesus Cristo e Nossa Senhora da Aparecida. “No Congá, que é um centro de força, Jesus é o mais respeitado, ele está sincretizado com Oxalá que o homem da paz, o ser da humanidade. Já Nossa Senhora é Oxum que representa a força da fertilidade, é o amor”.

MISSÃO

Uma questão de espiritualidade

Renan Lamanna de Oxalá e Stella Aquino de Iemanjá são líderes religiosos dentro da Umbanda. Em Mogi Guaçu, o pai de santo é dirigente da casa Tenda de Umbanda Pai Mané de Angola, que fica na Rua Serra Negra, na Vila São Carlos. A casa nasceu há quatro anos com o objetivo de levar uma missão de paz, amor e caridade, por isso, é também uma instituição filantrópica que ajuda pessoas carentes, como famílias e moradores de rua. Todas as terças-feiras, às 20h00, acontecem na tenda as giras que equivalem aos cultos dos evangélicos e as missas dos católicos. Ao contrário do que se possa imaginar, os dois não nasceram em famílias nas quais o berço da fé era a Umbanda. Ao contrário, Renan veio de uma família evangélica. “Quando conheci a religião me senti abraçado. A Umbanda é acolhedora. Foi a única religião que eu entendi de fato sua fundação”.

O pai de santo resolveu abrir uma tenda em Mogi Guaçu por conta da distância dos lugares onde frequentava, que ficavam em Andradas e São João da Boa Vista. Já Stella, que chegou a ser coroinha em uma igreja católica, chegou na tenda de Umbanda Pai Mané de Angola há três anos e meio. “Meu pais era umbandista e na casa da minha vó sempre tinha gira, aí, aos poucos, eu deixei de ser católica”.

Stella contou que antes foi mesa branca e também espírita e que chegou a Umbanda por meio de um anúncio que viu na internet. “Eu vi que ia ter uma gira de preto velho, fui conhecer e nunca mais sai”. Com relação a serem um pai de santo e uma mãe pequena, eles explicaram que não trata-se de postos que se alcançam, mas, sim, de espiritualidade. “Isso nasce dentro de você”, afirmou Renan.

Eles também explicaram que cada terça-feira é dedicada a uma entidade diferente como preto velho, caboclo, baiano, cosme e damião, e que as giras são compostas de preces, atabaques e palmas e atendimentos individuais, onde cada pessoa vai poder ser atendida de acordo com a sua necessidade. Na tenda, ainda é realizado a distribuição de cestas básicas para pessoas carentes que preenchem um cadastro. “Ajudamos quem precisa, independente de religião, aliás, nem perguntamos de qual religião a pessoa necessita é”, relatou Renan que relatou que se puder tirar um prato da mesa e dar ao próximo eles estarão fazendo a diferença no mundo. Renan e Stella contam com doações, tanto para as cestas quanto para as sopas que também distribuem aos moradores de rua. “Somos pequenos, não temos grandes doadores, vamos distribuindo conforme dá”.

Quem tiver interesse em fazer doações pode entrar em contato pelo telefone 9 9917-7655.

PRECONCEITOS

Falta de conhecimento é o grande desafio da Umbanda

Apesar de ter mais de um século de reconhecimento e de ter se expandido, a Umbanda ainda é vista de maneira errada por muitas pessoas que não conhecem a religião e tiram suas próprias conclusões com seus pré-conceitos equivocados. Para o pai de santo Renan e para a mãe pequena Stella, o grande desafio que a religião ainda tem pela frente é a falta de conhecimento das pessoas. “Muita gente acha que nós cultuamos o diabo, mas não temos ligação alguma com ele”, afirmou Stella que enfatizou que a Umbanda prega o amor e a caridade. Para se ter uma ideia do preconceito que os umbandistas sofrem, o pai de santo confidenciou que muitas pessoas recebem deles cestas básicas de forma anônima. “Porque se souberem que somos nós que doamos, eles não vão aceitar por achar que o demônio vai ir junto com os alimentos”.

Outro triste exemplo da luta que a Umbanda tem contra o preconceito é com relação a uma festa muito conhecida no país: a festa de Cosme e Damião. Renan informou que a data correta de comemorar os santos é dia 27 de setembro. No entanto, a festa sempre acontece no dia 12 de outubro, no Dia das Crianças e por um motivo lamentável. “Se a gente comemorar no dia certo e distribuir os doces, a maioria das pessoas não vai deixar as crianças aceitar por exatamente achar que ali tem coisa ruim, já no Dia das Crianças, as pessoas aceitam por conta da data”. Com isso, Stella lembra que é exatamente ao contrário. “Levamos amor, só coisa boa, nada de ruim”.

Os líderes religiosos acreditam que sofrem o preconceito e não a intolerância e que tudo é uma questão de ignorância pela falta de conhecimento. “Se as pessoas assistirem um único culto dentro da Umbanda eu tenho certeza que não vão embora nunca mais”, afirmou o pai de santo ao acreditar que ainda tem muitas barreiras a serem quebradas. “Temos um documento de reconhecimento de religião, mas ainda não somos conhecidos”. Ainda falando de preconceito, o pai de santo disse que toda sexta-feira, os umbandistas usam roupas brancas, mas que não podem fazer isso dentro das empresas que trabalham, por exemplo. “Mas um adventista não é mandado embora por não poder trabalhar de sábado, entende?” indagou.

Mas eles não perdem a fé e a esperança de que avanços serão conquistados ao longos dos anos. “As pessoas precisam abrir seus corações, ter mais humanidade. Nós não fazemos macumba, não desmanchamos o casamento de ninguém nem trazemos de volta nenhum marido”.

Em cima disso, os líderes também esclareceram que macumba nada mais é do que um instrumento musical e o que existem são oferendas ou simpatias feitas da maneira correta. “Temos consideração à natureza, então, aqueles objetos que são colocados em encruzilhadas, que vira lixo e pode virar até criadouro de dengue, para nós é simples falta de respeito”.

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