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Técnicas samurais no combate à violência

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A violência está em todo lugar – em casa, nas ruas, em um local público ou de lazer. E, por isso, muitas pessoas decidem aprender técnicas de legítima defesa. E foi justamente para aprender a se defender que foi realizado um seminário sobre defesa pessoal, em Mogi Guaçu, que atraiu não apenas praticantes das artes marciais ou profissionais da área de segurança pública, mas também pessoas sem qualquer tipo de habilidade em lutas.

O organizador do evento foi o professor de jiu-jítsu Rodrigo Canale. “O maior motivo para organizar o seminário  é a violência urbana que vem crescendo absurdamente no Brasil, como furtos, roubos, agressões, estupros”.

Na avaliação de Canale, o Brasil vive, praticamente, uma guerra civil, “na qual o número de homicídios é assustador, pois morreram mais pessoas aqui, no ano passado, do que na guerra civil da Síria, por exemplo”, comparou.

O assunto é tão sério que existe um programa na Rede de Academias Gracie Barra, a qual Canale pertence, que combina aulas de jiu-jítsu com defesa pessoal. “O aluno que se matricula em nossa equipe para treinar jiu-jítsu vai treinar Defesa Pessoal no currículo fundamental, durante quatro meses, e após iniciar o currículo avançado treinará oito meses, uma vez por semana”, explica o professor.

Esse é um programa fornecido nas mais de 100 escolas do grupo no país.

O programa simula ataques reais tornando-se atrativo, principalmente, para as mulheres.

Multi Defesa Pessoal Gisele
Gisele diz que intenção é aprender a se defender, e não a bater
Multi Defesa Pessoal Rosana
Rosana admite que teve dificuldades em certos movimentos

Força feminina

A bancária Gisele Vilela de Freitas, 33 anos, deixou os oito anos de balé e há sete meses pratica o jiu-jítsu. “Meu namorado começou a fazer jiu-jítsu, conheci a galera, fui me entrosando e me interessei. Não estou aqui para aprender a bater, mas a me defender”. Ela conta que até o momento não viveu situações nas quais precisasse usar seus conhecimentos técnicos de luta.

Gisele garante que os movimentos e a frequência aos treinos também lhe dá qualidade de vida. “Caso eu tivesse mais tempo e fosse mais nova eu me engajaria na carreira no esporte”, brincou a bancária ao lembrar as diferenças dos movimentos entre o balé e as técnicas de defesa pessoal.

A agente técnica Rosana Machado da Silva, 49 anos, pisou pela primeira vez em um tatame. Ela mora em Estiva Gerbi e foi convidada pelo filho Jonathan que treina jiu-jítsu há um ano e meio. “Ele me convidou e gostei da proposta de aprender a me defender com segurança e como me portar em uma situação de perigo. Afinal, a violência está em todos os lugares”, disse ela.

No entanto, Rosana comentou com o filho que, embora tenha gostado do treino, admitiu que encontrou dificuldades em acertar alguns movimentos pelo fato de não fazer nenhum tipo de atividade física.

 

Paulo Pedro frisa que, em caso de assalto, o ideal é não reagir
Paulo Pedro frisa que, em caso de assalto, o ideal é não reagir

CONFIANÇA COM SABEDORIA

A distinção entre defender e reagir

O gerente Paulo Pedro Stringuetti, 32 anos, confessou que tinha receio de entrar em academias, mas de tanto um amigo insistir acabou gostando dos treinos e há dois anos é instrutor. Ele ressalta que o aprimoramento das técnicas sempre é importante. “Nunca precisei usar meus conhecimentos, mas sei o que fazer se um dia for necessário. Mas em última instância, quando o risco for iminente. Em caso de assalto, por exemplo, eu já sei o que fazer: entregar a carteira e não reagir”, pontuou, ressaltando que esse foi, inclusive, a ênfase do treinamento.

O esportista Carlos Alberto Líberi contou que, recentemente, um amigo lutador morreu ao reagir a um assalto. Ele até conseguiu dominar o ladrão, mas o bandido que dava a cobertura foi quem atirou.

O seminarista e professor deixou bem claro que a defesa pessoal não é para situações de assalto, uma vez que em 99% dos casos o agressor está armado e não está sozinho. “Não se recomenda reagir. A chance da pessoa ser morta é grande. E quem mata é aquele que está de longe, que protege o agressor que está com a vítima”, frisou.

Líberi faz questão de ressaltar que a confiança adquirida com as aulas deve ser acompanhada da sabedoria. Caso contrário, a pessoa se torna arrogante e vira vítima. “A melhor defesa é a que te tira do confronto e não a que te coloca nele. É ter a sabedoria de evitar uma encrenca e sair do local e nunca subjugar o agressor. Ele pode voltar acompanhado e armado. A prevenção sempre é a melhor defesa”, orienta.

Líberi é professor faixa preta desde 1990 e 6º Grau no jiu-jítsu desde o ano passado. Oficial do Exército Brasileiro, ele continua a ministrar cursos para integrantes do Exército e para a Polícia Militar.

O professor lamenta que no Brasil a modalidade tenha perdido espaço na mídia após a década de 50, quando o futebol passou a ser popularizado. Embora recorde que, no fim da década de 70, o jiu-jítsu passou a reaparecer na mídia como artes marciais e modalidade esportiva por meio dos campeonatos.

No entanto, o que traz satisfação a Líberi é saber que o Brasil ainda é encarado como o guardião da tradição do jiu-jítsu. Muitos professores estrangeiros, inclusive do Japão, desembarcam no Brasil em busca de aprimoramento. O exército americano e da França, por exemplo, buscam professores brasileiros. No Oriente Médio, a defesa pessoal faz parte do currículo de muitas escolas e, por lá, o professor, principalmente brasileiro, recebe um salário muito bom.

Multi Defesa Pessoal
Canale orienta movimentos de defesa pessoal

PROTEÇÃO IDEAL

Público feminino adere ao jiu-jítsu

Por que usar as técnicas do jiu-jítsu como defesa pessoal?

Como explicou o esportista Carlos Alberto Líberi é porque, na realidade, o jiu-jítsu é uma defesa pessoal. Diferentemente do jiu-jítsu esportivo, ensinado em muitas academias para as competições, a essência da modalidade é mesmo a autodefesa.

Desenvolvido pelos samurais, no Japão medieval, o jiu-jítsu lhes dava a confiança de que poderiam enfrentar um inimigo mais forte fisicamente, desde que treinassem a força do próprio corpo.

Organizador de seminários desde 1987, Líberi tem observado a busca crescente pelas academias que ensinam jiu-jítsu. “Com o aumento da violência e a proibição do porte de arma, as pessoas estão mais interessadas a se defender”. O público é eclético, com pessoas de 17 a 50 anos, e residentes em metrópoles ou em cidades do interior.

Para Líberi, precisamos enxergar que o Brasil é um país extremamente violento – são 60 mil homicídios por ano e menos de 5% são esclarecidos. É um estado de guerra. Além disso, são 527 mil estupros por ano. “Vivemos uma barbárie, é assustador quando vemos os números”, comenta.

Quando Líberi começou a ministrar os seminários e os cursos de defesa pessoal eram mais homens que procuravam as academias, porém, atualmente, há uma procura exponencial pelas mulheres.

Tempos atrás, em uma turma de 200 alunos, havia uma ou duas mulheres, hoje elas já somam 40.

Como no jiu-jítsu a base da técnica é usar a força do agressor contra ele mesmo acaba sendo algo que chama a atenção do público feminino. Como os agressores geralmente são homens e muitas vezes isso significa desvantagem física, muitas delas enxergam no jiu-jítsu a proteção ideal.

E vale tudo. Usar a cabeça, o cotovelo, braços, pernas, o quadril como alavanca, usar os dentes (mordida) e, principalmente, a mente. Isso porque, é preciso avaliar a situação e se vale a defesa física ou psicológica com uma postura confiante. Afinal, muitas vezes, essa postura por si só já intimida o agressor.

Durante cinco anos, Líberi ministrou cursos de defesa pessoal para mulheres na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), em Campinas. O curso era voltado para a prevenção de estupros. Ele lembrou que pesquisas apontam que em 80% dos casos de estupros o agressor é conhecido.

“Tivemos um feedback e seis das nossas alunas conseguiram nocautear os agressores (estupradores). Além de outras alunas que conseguiram se defender de agressões corriqueiras, como brigas com namorados, assédios em casas noturnas, como tapas e agarro, por exemplo”

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