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Santa Dulce: “É o Evangelho vivo”, diz cientista social

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Muito antes de ser canonizada, Irmã Dulce era considerada santa pelos baianos. Afinal, são muitas as testemunhas oculares do trabalho que a freira desenvolveu junto aos pobres. A primeira santa brasileira é mais do que um símbolo da caridade é um exemplo a ser seguido, como pontua o cientista social Leandro Longo.

O guaçuano é devoto do “Anjo Bom da Bahia”, esteve na cerimônia de beatificação em Salvador, ocorrida em 2011, e desde então começou a pesquisar sobre a vida da freira. Ficou radiante com a beatificação que veio a ratificar o que os baianos já sabiam: Irmã Dulce é santa.

E para Leandro, a história de Irmã Dulce não poderia ter melhor homenagem, pois a freira viveu plenamente o Evangelho.

NASCEU MARIA RITA

Irmã Dulce começou a atender os carentes ainda na adolescência

Da Redação

Em 13 de março de 1992, o Brasil se despedia do seu “Anjo Bom”. Irmã Dulce faleceu aos 77 anos, após uma vida inteira dedicada a cuidar dos pobres e enfermos. Ela nasceu em 26 de maio de 1914, em Salvador (BA), tendo recebido como nome de batismo Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes.

Na adolescência já demonstrava interesse pela vida religiosa e, aos 13 anos, começou a atender os doentes e carentes na porta de sua casa, a qual passou a ser conhecida como “A Portaria de São Francisco”.

Em fevereiro de 1933, ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe, e recebeu o hábito em agosto do mesmo ano. Foi, então, que adotou o nome Irmã Dulce, em homenagem à sua mãe, que faleceu quando ela tinha apenas 7 anos.

De volta à sua terra natal Salvador, iniciou em 1935 um trabalho assistencial junto às comunidades carentes, sobretudo nos Alagados, conjunto de palafitas que se consolidara na parte interna do bairro de Itapagipe.

Em 1939, depois de muito lutar para cuidar de seus doentes, ocupou um galinheiro ao lado do convento, depois da autorização da sua superiora, com os primeiros 70 doentes. A iniciativa deu início à criação das Obras Sociais Irmã Dulce, instituição considerada hoje um dos maiores complexos de saúde pública do país.

ANJO BOM DA BAHIA

Cientista social é devoto de Irmã Dulce

Muito antes de Irmã Dulce ser beatificada, o cientista social Leandro Longo era um estudioso da vida da freira. Participou da cerimônia de beatificação, realizada em Salvador (BA), mas antes disso havia feito a mesma viagem com a proposta não apenas de passear pelos pontos turísticos, mas de conhecer as obras sociais da beata. Ficou encantado e afirma ter vivido uma das experiências mais bonitas de sua vida.

Leandro Longo esteve na cerimônia de beatificação

Leandro justifica que acompanhar a cerimônia de beatificação foi tocante porque o chamado “espetáculo de amor” foi feito pelas crianças assistidas pelas obras sociais da freira. “Foi um momento marcante. Às vezes temos ideia do santo como alguém distante, longe, e não do nosso tempo. E muita gente que estava ali conviveu com ela. E os baianos já tinham a certeza da santidade de Irmã Dulce”, detalha.

Outra característica da primeira santa brasileira para Leandro é o fato de voltar os olhos para aqueles que ninguém via como, por exemplo, acolher um homem que estava sendo comido pelos ratos. “São situações que a gente nem imagina. Os últimos mesmos da sociedade, aqueles que ninguém toca. Como a figura do leproso no Evangelho. E ela vai atrás desses. E eu fico sempre me perguntando onde uma mulher tão pequenininha e franzina arrumava força para fazer o que fez”, exemplifica.

Com o passar dos anos, Leandro foi conhecendo a vida da freira e menciona momentos que considera os mais tocantes, entre os quais, o fato de ter começado tudo em um galinheiro. Isto depois de ser “convidada” a retirar os assistidos de alguns lugares. “É quando vai ao convento e pede para montar obras sociais ali, no galinheiro. A madre fala que pode, mas com a condição de cuidar das galinhas. Ela organiza tudo e chama a madre para ver o lugar. A superiora pergunta pelas galinhas e Dulce explica que havia feito bom uso, estavam todas nas barrigas dos pobres”, diz sobre uma das passagens.

A outra história que para o cientista social “fala” muito sobre irmã Dulce é quando ela vai à feira estende a mão e o feirante cospe. “Ela olha para ele, recolhe a mão e diz: esse foi pra mim. Estende a outra mão e fala que agora quer levar algo para os pobres”, relata sobre tantos fatos que leu sobre a vida da freira. Para Leandro, é preciso lembrar que estamos falando de uma mulher que não se limitava a ficar no convento e era muito questionada por suas ações, inclusive pela própria Igreja. “Ela rompe paradigmas. A Irmã Dulce é o Evangelho encarnado. Ela viveu o mandamento máximo do amor, reconhecendo no outro o Cristo”, atenta.

EXEMPLO

Na avaliação do cientista social, a canonização, neste momento do Brasil, pontuado pela desunião, é um grande sinal, uma grande manifestação de Deus para o brasileiro. E enfatiza que o apreço por Irmã Dulce ultrapassa a religião católica porque pessoas de todas as religiões admiram o trabalho que ela realiza. “Ela foi uma luz do bem, por isso, foi chamada de “Anjo Bom da Bahia”. Está acima das diferenças. Isso é Evangelho puro, é amar ao outro, é a expressão máxima do Lava-pés”, conclui.

Na vida de Leandro, Santa Irmã Dulce está ao lado de São Francisco de Assis, outro santo de sua devoção, sendo que ambos voltaram suas vidas ao próximo. “Irmã Dulce é um sinal de que é possível ser santo nos nossos dias, viver a espiritualidade e riqueza dos valores cristãos sem deixar de viver o cotidiano”, reforça.

IRMÃ DULCE

Fica em Jaguariúna a 1ª paróquia do Brasil a ter a santa como padroeira

Em 12 fevereiro de 2012, pouco tempo depois da beatificação de Irmã Dulce, ela tornou-se a padroeira da terceira paróquia de Jaguariúna, a primeira do Brasil que levou o nome do “Anjo Bom da Bahia”. Mês passado, dia 20, uma semana após a beatificação, a Paróquia passa a denomina-se Santa Dulce dos Pobres. A meta é construir a matriz e, posteriormente, transformá-la em santuário.

Padre Carlos Roberto

Jaguariúna tinha apenas duas outras paróquias: Santa Maria e Sagrado Coração de Jesus. Era pouco para atender a todo o município. Foi quando surgiu a necessidade da terceira paróquia. À época era recente a beatificação de Irmã Dulce. E foi daí a ideia de tê-la como padroeira da nova paróquia.

Com a canonização e divulgação pela mídia de que fica em Jaguariúna a primeira paróquia do Brasil que tem a santa brasileira como padroeira, o pároco Carlos Roberto de Oliveira comenta que muitas pessoas da região começaram a telefonar para pedir informações sobre horário de missas. Atualmente, ainda não há uma igreja da padroeira, sendo as celebrações realizadas na Igreja de São Judas. A paróquia de Santa Dulce dos Pobres tem oito comunidades.

Com a construção da igreja matriz, ele conta que a ideia é começar a receber peregrinações e, posteriormente, transformar o local em santuário. “Esperamos sim esta movimentação dos devotos”, acrescenta. Até lá, as missas são celebradas na igreja de São Judas Tadeu.

O dia 13 de outubro, dia da canonização, foi de festa na paróquia. E o padre Carlos, juntamente com seis fiéis de Jaguariúna, foi a Roma acompanhar a cerimônia. E não esconde o quanto ficou emocionado. Para ele, Santa Dulce dos Pobres é um exemplo de que é possível imitar a Jesus Cristo. “Indo ao encontro dos ensinamentos cristãos”, pontua.  

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