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Reeducandas pintam sem preconceito

Tarefa era parte prática do curso oferecido pelo Via Rápida Expresso e foi realizada em escola da rede estadual

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As paredes internas e externas da escola estadual “Zenaide Franco de Faria Melo”, no Jardim Santo André, ganharam novas cores. A mudança será percebida pela comunidade escolar com o retorno às aulas previsto para o próximo dia 31. O trabalho iniciado no último dia 3 e concluído ontem (21) foi realizado por um grupo de 20 reeducandas da penitenciária feminina, localizada no acesso ao distrito de Martinho Prado Júnior. 

A pintura das paredes é a parte prática do curso oferecido pelo Via Rápida Expresso, programa de qualificação profissional. A parte teórica é realizada na penitenciária feminina e abrange as reeducandas do sistema semiaberto. A ação é uma parceria entre as Secretarias estaduais de Educação, Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação e a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária).

abre presas pintura escola zenaide franco faria meloA Gazeta esteve na escola estadual e acompanhou por quase duas horas esta rotina de trabalho. As reeducandas trabalhavam com EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), como capacetes, óculos e luvas, ouviam música e caprichavam na tarefa de conclusão do curso. Aliás, a equipe de gestores da escola estadual elogiou o serviço, pontuando o capricho com a proteção do piso e a limpeza.

Sem saber o motivo que levou cada uma daquelas mulheres à prisão, a equipe gestora não demonstrou nenhum tipo de preconceito ou receio. Pelo contrário, após a entrevista com quatro das reeducandas, e que foi acompanhada pela equipe gestora da escola estadual, todos mostrarem-se confiantes de que uma nova história pode ser traçada. E a surpresa geral foi descobrir durante a entrevista que uma das reeducandas teve filhos que estudaram na “Zenaide Franco de Faria Melo”.

Esta é a história de Benedita de Fátima Dias de Sá, 51, a mais velha do quarteto entrevistado e também a mais falante. Ela contou à reportagem que era de Mogi Guaçu quando surgiu o questionamento se a pintura da escola as reportava à infância. “No meu caso sim, e muito porque meus filhos estudaram nesta escola”, disse para surpresa da equipe escolar. Ou seja, ela conhecia o ambiente, apesar de já ter passado 30 anos do período escolar dos filhos.

 

REEDUCANDO-SE

Benedita
Benedita

Benedita cumpria pena em Campinas, tendo sido transferida para Mogi Guaçu, mas foi presa quando residia aqui. Despachada, Benedita conta que é sempre de grande valia aprender e que o curso de pintura em parede a ensinou até mesmo a economizar, pois agora sabe calcular a quantia de tinta a ser utilizada por metro quadrado. “Descobri que me pediram tinta a mais quando foram pintar minha casa”, exemplifica revelando que nunca havia pintado uma parede. No entanto, havia feito outros cursos dentro da penitenciária e concluído o ensino médio pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Assim como ela, Michele Conceição da Cunha, 33, aproveita as oportunidades de curso, concluiu hidráulica e também completou os estudos na penitenciária. “Conhecimento nunca é demais”, arremata. Para Claudia Andreia Jacinto, 39, e Ana Claudia Amaral, 43, a pintura de uma escola remete à infância. Do quarteto, apenas Claudia não concluiu estudos na penitenciária porque possuía ensino médio. “Conhecimento ninguém tira de você”, pontua.

Para as reeducandas a parte prática do curso traz ainda a oportunidade de  ver outras pessoas. Disseram que, claro, pretendem reescrever suas histórias e que estar qualificadas da penitenciária é uma forma de terem mais ferramentas para buscar um trabalho ou atuarem como autônomas.

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MAIS BENEFÍCIOS

Diretora da penitenciária não descarta possibilidade de ampliação das ações

 

Na tarde de terça-feira (18), a diretora e o supervisor da penitenciária feminina, Daniele de Freitas Melo e Érico Rosoaldo da Silva, respectivamente, estiveram na escola estadual “Zenaide Franco de Faria Melo”, no Jardim Santo André. Eles acompanharam a parte prática do trabalho das reeducandas que ficam sob a supervisão do instrutor Willian Fonseca.

O curso é frequentado pelas reeducandas do sistema semi-aberto. São ofertadas 25 vagas. Daniele explica que é feita uma triagem considerando bom comportamento, manifestação de interesse e disponibilidade, ou seja, aquelas que não estão em outro trabalho ou empresa terceirizada.

Daniele
Daniele

O Via Rápida Expresso começou a ser implantado em Mogi Guaçu este ano, beneficiando em janeiro a escola estadual “Ângela Maria da Paixão Costa”, no Jardim Boa Esperança. “Foi um sucesso tanto por parte da direção da escola como por parte das reeducandas. Tanto que uma nova edição é iniciada e a proposta é a realização do trabalho duas vezes ao ano, nas férias de janeiro e julho”, pontua Daniele sem descartar a possibilidade de a atividade estender-se a outros prédios públicos.

Daniele diz que o curso é a possibilidade de oferecer qualificação profissional e de as reeducandas terem a oportunidade de um emprego formal, por exemplo, na construção civil, e consequentemente uma renda fixa. “Elas também trabalham na manutenção da unidade”, acrescenta. A saída para o estágio é vista como a oportunidade de se sentirem valorizadas e receberem um olhar mais humano.

A diretora da “Zenaide Franco de faria Melo”, Gilmara Cristina Costa, elogiou o trabalho das reeducandas e o respeito com que trataram a todos. “Percebi que não gostam de ficar paradas, querem acabar o trabalho e já começar a fazer outra coisa”, comenta. O capricho das reeducandas em não sujar o chão e dutos externos de fiação elétrica foi observado pelo vice-diretor e a supervisora da escola, Robson Garutti e Rosemary Mattos.

 

ESTADUAL

Em todo o Estado, o Via Rápida Expresso abrange 1.720 reeducandos do regime semiaberto. Nesta etapa foram contemplados 40 municípios. 

Os cursos possuem dois módulos, divididos em 25/horas de aulas teóricas e 75/horas de práticas. As cidades foram escolhidas de acordo com a demanda de reeducandos na região.

O projeto, iniciado no ano passado, profissionalizou 1.550 presos e contemplou 48 escolas em todo o Estado. Este ano já foram qualificados 2.720 reeducandos e beneficiadas 115 escolas.

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