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Pescador relata amor e preocupação com o rio

Paulo tem 64 anos e ainda pesca no Rio Mogi Guaçu

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As primeiras lembranças da forte ligação que o aposentado Paulo Aparecido Teixeira, 64, tem com o Rio Mogi Guaçu são de quando ele tinha três anos de idade. Na época ele morava na roça, na Roseira, com os pais e mais dois irmãos. “Foi ali que tive meu primeiro contato com as águas do Rio Mogi Guaçu. Eu lembro que meu pai me colocava nos ombros para ir pescar”. Quando seu Paulo tinha 10 anos, a família se mudou para o Bertioga, onde ele mora há 54 anos e tem o rio como vizinho.

Na infância, sua maior diversão era brincar no rio com os amigos. “Eu chegava da escola e já ia para o rio, onde a gente brincava na água, pulava dos barrancos e dos balanços”. Já na juventude, antes de identificar no rio a profissão de pescador profissional que leva até hoje, seu Paulo chegou a trabalhar de encarregado na indústria. “Fui mandado embora e não conseguia arrumar outro serviço. Foi quando em 1982 comecei a pescar para ganhar meu sustento”.

Hoje, seu Paulo é aposentado e o pescado que vende sob encomenda serve para complementar a renda da família. “Eu costumo dizer que se eu como ou se eu faço um passeio é graças ao dinheiro que vem do rio, devo muito a ele”, diz ao recordar-se de um dia inesquecível: quando ele e mais um amigo conseguiram pescar 196 quilos de mandi, a estrela principal do Rio Mogi Guaçu. “Isso aconteceu em 1978, bons tempos”, relembrou o pescador que atualmente consegue pescar de quatro a sete quilos por dia.

Tantos anos de convivência nas águas do Rio Mogi Guaçu também geraram recordações tristes. “Eu já ajudei a resgatar muito corpo do rio”. Seu Paulo conta que antigamente, antes de ter Corpo de Bombeiros na cidade, as famílias de pessoas desaparecidas o procuravam pedindo ajuda. “Isso porque, eu conheço muito esse rio. Do Rio Manso, em Itapira, até Marinho Prado Júnior eu sei onde tem cada pau, barranco, pedra”.

pesca_rioSeu Paulo relata que nunca irá se esquecer de quando salvou uma moça próximo a cachoeira. “Eu pulei na água e salvei ela e quando passou uns dois meses ela bateu no meu portão para agradecer. A gente se abraçou e chorou muito”. O acontecimento mais marcante em sua história com o rio aconteceu há quatro anos, quando uma mortandade de peixe foi registrada. “Era muito peixe morto e tudo por conta de rejeitos das indústrias, eu passava com o barco e via uma infinidade de peixes mortos. Esse dia eu nunca vou me esquecer, eu cheguei até a chorar”. O pescador lamenta dizer, mas, para ele, a cada ano que passa o rio morre mais. “É uma judiação falar, mas é a realidade. Cada ano a gente pega menos peixe nas águas. É muita poluição. Quando solta água da represa, o que mais se vê é saco de lixo boiando”.

O aposentado nunca se queixou das enchentes que aconteciam nas décadas de 70 e 80. “Jamais me chateou. Eu erguia tudo, colocava o que dava no telhado e a família ficava em cima do fogão de lenha, é coisa da natureza”. Hoje em dia, seu Paulo tem um rancho em uma ilha no meio do rio e todos os dias, mesmo quando não pega o barco para sair, vai até o ponto da rua conferir como anda o vizinho de longa data. “A primeira coisa que faço quando acordo é sair para ver como ele (rio) está”. E quando está navegando nas águas do Rio Mogi Guaçu aproveita cada detalhe da natureza. “Observo as árvores, os pássaros, e toda a minha família curte momentos assim comigo, inclusive o meu cachorro que ama andar de barco”.

Convicto, garantiu que não troca o bairro onde mora por nenhuma mansão do mundo. “Daqui não saio por nada. Tenho preocupação com o rio, brigo por ele que é minha vida e espero que as futuras gerações aprendam que ele deve ser respeitado”.

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