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Penitenciária: reeducandas contam suas histórias

Direção conseguiu a reinserção das reeducandas após parceria entre empresas, projetos sociais e religiosos

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A feira de exposições dos trabalhos feitos pelas reeducandas da penitenciária feminina de Mogi Guaçu marcou os dois anos de atividade da unidade prisional. O evento reuniu, além de funcionários, líderes religiosos, voluntários e empresários que atuam diretamente com as presas dos regimes semiaberto e fechado. Um ato ecumênico marcou a celebração. A reportagem da Gazeta acompanhou o evento e conseguiu autorização do Estado e da Justiça para entrevistar as detentas e quatro delas contaram suas histórias pela primeira vez a um órgão de imprensa da cidade.

Ozério Tadeu Pereira, da Coordenadoria das Unidades Prisionais, destacou a importâncias dos servidores e dos voluntários na ressocialização das reeducandas. Para ele, três pilares são essenciais para a melhora no cumprimento da pena – educação, religião e trabalho. “Mas se a comunidade não ajudar na melhora delas, elas voltam a praticar crimes contra nós mesmos. Nossa função é acreditar na recuperação. Tenho experiência de pessoas que conseguiram se recuperar. É responsabilidade de cada um de nós e não só do Estado, porque o Estado somos nós”.

Penitenciaria FemininaEm dois anos de atividade, a direção da unidade prisional conseguiu manter as reeducandas estudando por meio do convênio com a escola estadual “Ângela Maria da Paixão Costa”, do Jardim Boa Esperança. Professores vão até a unidade prisional e em retribuição as reeducandas fizeram a pintura do prédio da escola após o curso profissionalizante.

Atualmente, a penitenciária feminina está com 1.045 mulheres, sendo 914 no regime fechado (capacidade é de 741) e 131 na ala de progressão (capacidade 108). Mas a diretora da unidade prisional, Daniele de Freitas Melo, afirma que como o fluxo de inclusão, transferência e remissão de pena é constante, os números não indicam superlotação.

Segundo ela, o número está dentro da capacidade física e administrativa da unidade. Tanto que a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) divulgou dados da saída temporária das unidades da região em que apenas três presas não retornaram após o benefício do Dia das Mães.

MARIDOS PRESOS

Amanda e Josilaine se preparam para uma difícil e dolorosa despedida

A ala de amamentação tem capacidade para 16 mães e seus bebês. Hoje há oito reeducandas ocupando as celas adaptadas com berços. Amanda Morato Fernandes, 20 anos, e Josilaine Aparecida Gonçalves de Oliveira, 24 anos, têm histórias semelhantes. Elas foram presas junto com os maridos, respondem por tráfico de drogas, estavam grávidas e nunca estiveram presas antes. Agora, separados, cumprem pena longe um do outro e o relacionamento se mantém com as cartas. Josilaine foi presa em dezembro de 2016 e Amanda em junho de 2016.

O que dói ainda mais nelas é a saudade dos filhos pequenos que ficaram com a família e a separação que se aproxima dos bebês assim que completarem seis meses. Quando os filhos deixam a unidade, eles voltam para a família e as presas para o pavilhão, onde terão a oportunidade de trabalhar ou estudar. Durante os seis meses, o tempo é dedicado exclusivamente aos bebês.

Amanda
Amanda

No próximo dia 19, Amanda, que é de Capivari/SP, se despede do filho Thales. Ela se emociona só de lembrar. “Eu descobri que estava grávida um dia depois da prisão. Sozinha eu me viro, mas com uma criança e presa? Fiquei com muito medo. E quando ele nasceu eu digo que me sinto ao mesmo tempo feliz e triste porque eu olho pra ele e lembro-me do meu outro filho”. Ela e o marido foram sentenciados a oito anos de prisão pelo artigo 33- tráfico de drogas. O filho de três anos é criado pela avó. “Só damos valor a família quando estamos distante, mas temos que ter força e pensar adiante e que seja aprendizado para nunca mais na vida porque eles sofrem mais que a gente. O mundo das drogas só tem dois caminhos – cadeia ou caixão – e graças a Deus que estamos aqui pra ter uma próxima oportunidade na vida. Quero trabalhar e cuidar ainda melhor dos meus filhos”.

Já Josilaine, que é de Atibaia/SP, ainda tem um tempo a mais para ficar com Sophia, de quatro meses. Ela chegou a ser agredida no momento da prisão e como estava de oito meses achou que perderia o bebê. Mas quando foi para a ala de amamentação e pode dedicar todo o tempo para a filha ficou mais tranquila. “E aqui são só as mães com seus bebês e o dia passa rapidinho”.  

O medo de Josilaine é que o outro filho a esqueça. “Mas minha mãe disse que ele pergunta de mim e esses tempos ele foi visitar meu marido e ele pedia para me chamar, perguntava onde eu estava porque fomos presos juntos e ele achava que estávamos juntos. De repente a mãe e o pai somem e ele teve de ficar com outras pessoas. Mas pedi para trazer ele para ver que estou bem”, lamenta Josilaine pelo trauma causado ao filho.

Josilaine
Josilaine

Ela e o marido também respondem pelo crime de tráfico de drogas. Para manter o vínculo afetivo com os filhos elas escrevem cartas que são lidas pelos familiares e também fazem desenhos. Elas fazem planos para quando saírem. Querem ser diferentes, mais presentes na vida dos filhos.

Penitenciaria FemininaSemanalmente, a enfermeira Luciana de Lione Melo, docente da Unicamp, ajuda essas mães. Ela auxilia as presas em atividades de educação em saúde para elas e seus bebês. Ela ajuda as reeducandas a construir móbiles para os bebês, a contar histórias, como estimular a visão e a audição. Além disso, auxilia essas mulheres nas últimas semanas antes da partida das crianças e após a partida com atividades de suporte emocional que incluem jogos de palavras e produção escrita dos sentimentos.

“Uma aluna do doutorado me convidou a participar do evento de Cidadania no ano passado. Era para ser uma vez. Vim para ensiná-las a fazer Shantala e, agora, estou aqui toda semana”, contou Luciana que já tem intimidade com os bebês.

Outro trabalho feito por Luciana e a aluna com as mães é o registro fotográfico mês a mês das mães e seus bebês. É uma recordação para elas e para as crianças, uma forma de não perder o vínculo de afeto.

CONTANDO OS DIAS

“Primeira e última vez”, garante Marisa

 É assim que Marisa Pereira da Paixão, 43 anos, define sua vida dentro do cárcere. Sem entrar em detalhes do que a levou à prisão em novembro de 2015, ela apenas planeja como será o futuro. A detenta responde pelo artigo 250 que é causar incêndio expondo a vida, a integridade física ou patrimônio de outros. Ela parou com o curso de Direito e aguarda o despacho do juiz no seu processo para ganhar a liberdade. Falta pouco. Talvez, alguns dias. Ela quer retomar os estudos, mas o sonho mesmo é ter sua própria confeitaria.

Marisa
Marisa

Marisa está no regime semiaberto e todos os dias a van de uma empresa mogimiriana pega ela e algumas colegas de cela para o trabalho de oito horas. A cada três dias trabalhados ganha um de remissão da pena. Ela trabalha em uma empresa de reciclagem e com o salário que recebe destina parte para auxiliar a mãe. “É minha obrigação de filha ajudar com esse dinheiro. Eu nunca tinha dado trabalho para meus pais e tinha muito medo de como seria aqui”. A família está longe, em Campo Limpo Paulista/SP.

Marisa conta que em três dias de trabalho já pegou o jeito e ajuda na separação do material e na operação de maquinários como prensa. “Meus pais trabalhavam de dia e à noite iam para a rua catar reciclagem e eu ia com eles e, por isso, tenho noção de separação. Na minha primeira saída temporária levei minha mãe lá para conhecer meu local de trabalho”.

Fora da penitenciária ela tem dois filhos – uma casada que lhe deu duas netas e outro adolescente que vive com a avó e está sob os cuidados do tio materno. “A primeira vez que minha mãe veio me ver ela disse que se não me conhecesse bem me abandonaria aqui. Mas minha família foi acolhedora com meu filho e não tive problemas com eles e meu irmão ajuda muito com meu filho. Mas como minha mãe é idosa pedi para ela vir me visitar uma vez por mês”, contou Marisa.

Para passar os dias dentro da penitenciária, Marisa sempre procurou colaborar. Primeiro trabalhou internamente na conservação do prédio da unidade, na cozinha e na copa. “O que me deu muito prazer. Mas quando surgiu essa oportunidade de trabalho agarrei com as duas mãos”, contou animada.

A leitura ajuda muito não só a passar o tempo. “À noite e aos finais de semana sempre arrumo tempo para ler. Assim não damos trabalho”, brinca Marisa.

Marisa no trabalho
Marisa no trabalho

NOVA CHANCE

Patrícia se encontrou como bibliotecária

A paulistana Patrícia Rodrigues, 41 anos, morava em São João da Boa Vista quando foi presa. Ela chegou à penitenciária de Mogi Guaçu dias depois da inauguração. Essa é a segunda vez que foi presa. Mas foi na unidade prisional guaçuana que viu que tem potencial para nunca mais voltar. “Na escola em Santana (primeira penitenciária) eram as presas que tinham estudo que eram monitoras e davam aulas. Aqui, são professoras mesmo. Foi bem legal, um pontapé inicial para melhorar. Aqui terminei o ensino médio e fiz o Enem”, conta a reeducanda.

 

Patrícia
Patrícia

A primeira oportunidade de emprego foi com a produção de cigarros de palha. Mas o que ela mais gosta mesmo é do trabalho do PET (Programa de Educação para o Trabalho), financiado pela FUNAP. Patrícia recebeu capacitação em educação e é multiplicadora no seu pavilhão. Familiares levaram para ela os 16 livros que tinha em casa. Começou a emprestar para as demais presas. Com o curso ela foi treinada a organizar a biblioteca do pavilhão.

“Ajudei a montar, catalogar e documentar os livros e incentivo à leitura. Toda sexta passo a relação dos livros e na segunda levo para elas lerem. E estão gostando, até as que não gostavam muito de ler. A leitura vai abrindo a mente porque onde há educação se vive melhor”. Na função de bibliotecária ela recebe uma bolsa remunerada.

Patrícia também quer mostrar para os pais e para os filhos que ainda dá tempo para tentar mudar e fazer a diferença. “Antigamente eu queria ser psicóloga e vi que gosto de ensinar, então, agora penso em fazer Pedagogia ou Serviço Social”, sonha a reeducanda.

Ela ainda tem dois anos de pena para cumprir por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Mas ela acredita que com as previsões legais e fé deve sair antes. Patrícia foi presa em junho de 2015.

Penitenciaria Feminina

“Pretendo ficar em casa e cumprir meu papel de mãe, porque minha prisão mexeu com o psicológico deles (filhos). O objetivo é ajeitar a vida deles para que não caiam na mesma, porque a decepção e a saudade são o pior. O erro foi meu e a carga tem que ser minha e não deles. Por isso, escrevo muito aconselhando”.

O filho mais velho tem uma lanchonete e abriu uma segunda para os dois irmãos mais novos. O caçula ainda é criança. Patrícia recentemente se tornou avó.

CONVÊNIOS E PARCERIAS

Reinserção é principal meta da direção

 

A diretora da unidade prisional, Daniele de Freitas Melo, está em busca de novos parceiros e pede para que a sociedade guaçuana ajude na reinserção. “É uma mobilização que toca a todos, funcionários e reeducandas e estamos abertos a novos projetos e cursos”, pediu Daniele ao prestar contas do que tem sido feito.

Na área de educação há também o convênio com a FUNAP (Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” de Amparo ao Preso) – planeja, desenvolve e avalia programas sociais para os presos e egressos- com o Programa de Educação para o Trabalho (PET). Pelo Programa Via Rápida do Estado há cursos profissionalizantes de pintura e hidráulica. Voluntários da Igreja Batista de Campinas ministram cursos de elétrica e artesanato. Alunas da Facamp (Faculdades de Campinas) dão curso de sabonete artesanal.

Daniela
Daniela

Cinco empresas, a maioria de Mogi Guaçu, oferecem trabalho para as reeducandas do regime fechado e semiaberto. Elas confeccionam cigarro de palha, calça jeans, sacolas e bolsa para uma gráfica, e trabalham em uma empresa de reciclagem e de pallet.

Na área da saúde e reinserção, a direção conta com estagiários de Enfermagem da FAJ (Faculdade de Jaguariúna) que uma vez por semana atendem as gestantes. Duas psicólogas de Mogi Guaçu fazem um trabalho voluntário de atendimento individual e em grupo.

Um dentista de Mogi Guaçu, também voluntário, procurou a direção da penitenciária e semanalmente faz o atendimento clínico e dá orientação de higiene bucal. Uma estagiária do curso de Serviço Social da Faculdade Santa Lúcia, Mogi Mirim, atua junto com a equipe técnica da penitenciária em projeto de reinserção social da própria unidade. E aos sábados, sete entidades religiosas dão atendimento individual às reeducandas.

Além disso, a penitenciária desenvolve um projeto com as detentas da horta orgânica em parceria com a Saama (Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente) e Casa da Agricultura.

 

Apoio

A Secretária Municipal de Segurança, Judite de Oliveira, lembrou da apreensão e os movimentos contra a construção da unidade, quando o governo do Estado anunciou a obra. “Mas alguém tem que acolher e fomos nós. O que temos de fazer é colaborar para que elas possam ser inseridas na sociedade e isso aqui não se transforme em um depósito de presas. Lembro-me de quando eu era delegada e as mulheres ficavam na cadeia em Santo Antônio da Posse e lá foi desativado e a penitenciária acabou sendo importante para a região”.

Judite disse que vai se empenhar junto ao Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) para que possam ser desenvolvidos projetos para contrapartidas que atenuem os gastos sociais que a penitenciária também trouxe, como desvio de finalidade das viaturas da PM na escolta de presas e aumento no fluxo dos atendimentos de saúde nos prontos-socorros da Santa Casa, Hospital Municipal e PPA/UPA. “Também sou docente na Faculdade Santa Lúcia, no curso de Direito, e já solicitei autorização para que os alunos possam estagiar aqui”.

 

 

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