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No Facebook: brincadeira revira baú de memórias

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Nostalgia aliada à brincadeira. Esse é o clima que tomou conta do Facebook, nesta semana. “Diz que mora em Mogi Guaçu, mas nunca…” A frase tem de ser preenchida por lembranças antigas da cidade vivenciadas pelas pessoas. Claro, os mais velhos trouxeram à tona inúmeras recordações de lugares, pessoas, comércios e pontos de encontro que não existem mais.

A brincadeira na rede social facilmente arranca risos dos mais jovens que se deparam com expressões como “Cu do Zico”. Sem saber do que se trata, a moçada ri buscando desvendar o que é, até que encontram a resposta, geralmente dada pelos pais e parentes: “Cu do Zico” é o apelido dado à praça que fica em frente ao Banco do Brasil, no Centro, chamada Praça dos Expedicionários. Enquanto os mais novos riem de algumas expressões, os mais velhos aproveitam para recordar momentos que marcaram toda uma geração. Ouvir todas as sirenes das cerâmicas tocando juntas na virada do ano é uma das muitas lembranças contadas no Facebook, nesta semana. Cada postagem sobre o assunto tem um tom de ironia, já que para se dizer morador da cidade tem, sim, de ter passado por situações tradicionais de Mogi Guaçu e conhecido lugares que marcaram época. E as postagens rendem dezenas de comentários de amigos que se identificam com a recordação citada e, juntos, acrescentam detalhes que enriquecem as lembranças.

Diz que é de Mogi Guaçu_8Em algumas regiões do país, o Facebook traz a frase “Diz que é cria de (tal lugar), mas nunca…”. Alguns internautas defendem que o termo “cria” é o original da frase, mas isso se tornou um mero detalhe diante de uma verdadeira batalha nostálgica para saber quem traz para a rede social a memória mais esquecida ou aquela que mais representa os costumes ou tradições da cidade. Inclusive, no caso de Mogi Guaçu, já é possível encontrar postagens no Facebook que remetem às situações políticas, religiosas e até de casos inusitados, como o falso Conde que morou alguns meses em Mogi Guaçu e somente quem é da cidade, sabe de fato sobre essa lenda.

ANÁLISE POSITIVA
Mogi Guaçu tem sua história contada a partir da reconstrução popular

 A brincadeira que está tomando conta do Facebook parece boba, mas de boba não tem nada. Ao buscar uma identificação com a cidade onde nasceu ou reside, o cidadão está dando significado à sua existência e também dando voz aos anônimos que fizeram parte da história de Mogi Guaçu. Para o cientista social, Leandro Longo, o Facebook quebrou a tradição de ter a História narrada apenas por profissionais historiadores. “É a reconstrução popular da História. As pessoas estão reconstruindo sua própria história a partir de um fato, de um lugar, de um personagem com o qual ela se identifica. As pessoas não estão preocupadas em errar. Elas contam sua história com base no que elas viveram de fato na cidade”, observou.

Leandro
Leandro

Leandro avalia a experiência na rede social como positiva e vê o resgaste das raízes do município. “Estou vendo essa brincadeira como muita alegria. Estou achando fantástico. Pode até ser que seja apenas uma febre passageira, mas está tendo muita serventia, sobretudo nessa questão de trazer significado aos fatos”, comentou.

Um dos objetivos das redes sociais é agregar as pessoas, criar laços e ao viralizar “Diz que é de Mogi Guaçu, mas nunca…”, a adesão dos internautas foi tão grande – se comparada com outras correntes lançadas pelo Facebook – que se arrisca dizer que a brincadeira está cumprindo com essa função de agregar pessoas. Isso porque, segundo Leandro Longo, as pessoas se uniram a partir de Mogi Guaçu para contar, recordar, reviver, se divertir. “Estou acompanhando várias postagens dessa brincadeira e vejo o engajamento das pessoas comentando as frases. É fácil encontrar pessoas comentando na postagem de outras que sequer conhecem, mas a recordação trazida naquela frase da brincadeira mexe tanto com quem lê que os comentários são feitos de imediato, mesmo sem conhecer o dono da postagem. Isso é a interação saudável e que está fazendo a diferença nessa corrente”, pontuou.

O cientista social também chama a atenção para os mais jovens que estão sendo envolvidos pela brincadeira. De acordo com Leandro, muitos destes jovens não conhecem determinados lugares citados, não sabem onde ficavam alguns comércios, nem sabiam que em Mogi Guaçu já tiveram várias discotecas, por exemplo. “Está despertando a curiosidade dos jovens. Eles querem saber quem era aquela pessoa que foi citada na brincadeira? Onde ficava aquele lugar? Quem frequentava? Porque tinha esse nome, esse apelido? Isso – do ponto de vista da Sociologia – é fundamental, porque o jovem vê que as pessoas têm uma identidade com a cidade e ele também busca uma para ele”.

Para Leandro, o mais triste dessa brincadeira é quando a pessoa não consegue escrever nada, porque não se idêntica com a cidade, não se vê naquele lugar. “É o que chamamos de crise de identidade. A pessoa não estabeleceu nenhuma relação com o lugar onde mora. Ela não pertence aquele local”, concluiu.

POVO FALA

 

liliane multi mogi guacu facebook

“Eu amei essa brincadeira. Ri demais. Foi muito divertido. O que mais me chamou a atenção foi o saudosismo das pessoas misturado com um excelente bom humor. Uma brincadeira saudável que noz fez recordar de momentos muito bons e alegres que marcaram a cidade, marcaram nossas vidas. Eu, por exemplo, escrevi: ‘Diz que mora em Mogi Guaçu, mas não conhece o Bar do Congada’. Mesmo que a pessoa não frequente o lugar, temos de admitir que é um local que se tornou um marco na cidade”.

Liliane Borges da Silva, a Lili, é fisioterapeuta

 

 

marcelo multi mogi guacu facebook

“Eu participei muito dessa brincadeira. Meu pai era um ótimo contador de histórias e muitas frases que li no Facebook me fez recordar dessas histórias que ele me contava. Algumas até pitorescas. Serviu para fazer com que nós recordássemos de casos que marcaram a cidade. Mogi Guaçu ainda é uma cidade de interior, embora tenha crescido muito. Por isso, ainda guarda excelentes personagens e casos no decorrer de sua história. Vale muito à pena essas brincadeiras nas redes sociais, porque elas agregam valor, são saudáveis e nos divertem”.

Marcelo Samuel da Costa é pedagogo

 

 

rita morelli multi mogi guacu

“Para quem nasceu em Mogi Guaçu e vivenciou outras circunstâncias de uma cidade mais segura, mais acolhedora, essa brincadeira no Facebook trouxe uma nostalgia danada. Essa nostalgia me atraiu para também participar. Eu, por exemplo, escrevi sobre o Bazar do Emílio Pedrini. Ele foi um homem à frente do seu tempo: o primeiro carro, o primeiro restaurante. O bazar dele era onde, atualmente, está a agência do Bradesco, no Centro. São lembranças saudáveis de uma época onde todos se conheciam quando saiam às ruas. Mogi Guaçu tem muitas histórias para serem recordadas”.

Rita Moreira Moreli é professora aposentada

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