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Método Braille: leitura na ponta dos dedos

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De repente a vida muda. E há um novo caminho a seguir. Desta vez, sem um dos cinco sentidos: a visão. É preciso reaprender. E, literalmente, a enxergar de outra forma. A bengala auxilia na locomoção – e mais do que isso – é uma forma de identificar o deficiente visual. E como fica a leitura e a escrita? Neste ponto é que entra um novo aprendizado para quem perdeu a visão: escrever e ler pelo Método Braille. Ter a leitura na ponta dos dedos é a oportunidade de retomar os estudos.

No último dia 8 de abril foi comemorado o Dia Nacional do Braille. E a data não passou em branco no Centro de Reabilitação da Pessoa com Deficiência Visual/Projeto Vida Iluminada, que é mantido pela AMU (Associação Mulher Unimed) da Unimed Regional da Baixa Mogiana. Um grupo de alunos fez uma publicação em braille em que explica sobre o método.

No local, não há apenas curso do Método Braille, mas todo um conjunto de ações desenvolvidas com o apoio de equipe multiprofissional. E quem chega à associação se depara com o professor de braille e informática, Paulo Sérgio Machado, 47 anos, também deficiente visual. Com isto, o professor não só compreende as dificuldades dos alunos, mas acaba sendo um exemplo a todos.

DETERMINADA

Elenita sonha com o curso superior

Com a história sobre o Método Braille na ponta da língua, Elenita Pereira de Santana é uma das organizadoras da publicação em braille ao lado dos alunos Renan Luiz Roberto, Clodoaldo Prado e Elza Maria Marciano. Aos 47 anos, Elenita mora sozinha em Estiva Gerbi e conta que deixou Betim (MG) em busca de um sonho em terras paulistas, que era o de fazer o curso técnico em Segurança do Trabalho. Com o passar dos tempos sofreu três deslocamentos de retina e a baixa visão progrediu comprometendo totalmente o olho direito, enquanto o esquerdo conserva um mínimo da visão.

Elenita e Renan
Elenita e Renan

Comunicativa, Elenita relata que chegou ao centro de reabilitação, literalmente, pela dor. Isto porque, com a visão comprometida, estava se machucando muito ao locomover-se. “Resolvi procurar ajuda e aprendi muito. Assumi a bengala porque sem ela a gente não passa a informação para o vidente de que somos deficientes visuais”, comenta  acrescentando que também é uma importante forma de auxílio na locomoção.

O encontro com o braile também se deu no local. Depois de quase um ano de aulas, ela escreve, mas pontua que ler é mais difícil, pois tem a dificuldade do tato. “Exige muito treinamento e dedicação”, resume. Elenita diz ainda que pensa rápido e, por isso, ainda se embaralha na hora de digitar. O objetivo dela é de voltar a estudar, porém admite que não poderá fazer o curso de Segurança do Trabalho, pois não conseguiria desempenhar a função sem a visão. Todavia, traçou um novo projeto e se propôs a escolher entre três alternativas: Filosofia, Sociologia ou História. “Mais do ver, o importante é o saber”, atesta.

Elenita conta que, muitas vezes, se diverte com a leitura e o vidente sequer imagina o porquê daquela expressão, afinal não há figuras no livro.

multi braille

GUERREIRO

Renan venceu seus medos

Há apenas dois anos, Renan Luiz Roberto, 26 anos, perdeu a visão. Teve rompimento no nervo ótico. Com isto, precisou reaprender a fazer atividades diárias, entre as quais, caminhar sozinho pela rua e, claro, ler e escrever. Entre a perda da visão e a chegada ao “Vida Iluminada” passou-se um ano. Antes de recorrer aos serviços, Renan acreditava que eram restritos àqueles que tinham plano de saúde, o que não procede. “Cheguei muito nervoso”, conta sobre toda a reviravolta que teve de enfrentar.

multi professor paulo brailleAtualmente, ele já se locomove sozinho pela rua com o uso de bengala. Aliás, o apoio da família, segundo ele, foi fundamental para superar os desafios desta nova empreitada e reviver. “Minha mãe sempre esteve do meu lado, me trazia e dizia que faria isso até quando eu precisasse”, conta. Há oito meses cursando o Método Braille, Renan já é conhecido na turma pela facilidade em digitar. Usa com destreza a máquina em braille. Além disso, usa o computador e está até mesmo fazendo formatação. A meta de Renan é aprender, desenvolver e ter um futuro melhor e seguir em busca do sonho de tornar-se enfermeiro.

A leitura em braille ainda é uma dificuldade, mas é preciso considerar o curto período que começou os estudos. E, como relata o professor do Projeto Vida Iluminada, Paulo Sérgio Machado, 47 anos, cada aluno tem seu tempo, sendo que, no geral, a leitura é mais difícil. Ele conta que tem 18 alunos no Método Braille com idades que variam entre 11 e 60 anos. O professor começou a perder a visão aos 10 anos e aprendeu a ler e escrever em braile, em Campinas. Paulo foi entrevistado pela Gazeta há três anos, sendo o enfoque da reportagem as aulas de informática e formatação, das quais ele também é o professor.

Professor Paulo
Professor Paulo

ABERTO E GRATUITO

“Vida Iluminada”: reabilitar é o foco

No Centro de Reabilitação da Pessoa com Deficiência Visual/Projeto Vida Iluminada, há assistente social, psicóloga e pedagoga. O espaço é aberto a todos, ou seja, não é preciso ter plano médico para frequentá-lo. A iniciativa do trabalho é da AMU (Associação da Mulher Unimed) da região da Unimed da Baixa Mogiana. A presidência da AMU está a cargo de Maria Inês Nohra e tem como coordenadora Liliana Carvalho de Araújo, a Lica. “Aqui, eles têm aulas de informática, braille, orientação sobre mobilidade e também o coral ‘Vida Iluminada’”, elenca Lica sobre as ações. Ela atenta que o trabalho é gratuito e conta com todo o suporte da Unimed Regional da Baixa Mogiana. Ela relata que esta reabilitação do deficiente visual acontece em todos os sentidos, seja como utilizar a cozinha, usar o banheiro, enfim, a fazer as atividades da vida diária. “A maioria chega deprimida e, aqui, com a ajuda dos profissionais ganha um norte”, frisa. Há ainda um aprendizado sobre os direitos e deveres.

multi brailleE todos os frequentadores do “Vida Iluminada” são unânimes em afirmar que há muito o que conquistar, especialmente quando se trata de mobilidade urbana. Afinal, as calçadas não têm piso tátil, pelo contrário, há buracos e muitas “armadilhas”, como lixeiras, banners e placas. As principais reivindicações do grupo são: piso tátil da calçada do “Vida Iluminada” até ao Terminal Rodoviário Urbano do Parque dos Ingás.

A ponte de pedestre é vista por eles como um desafio, pois têm grande dificuldade de orientação neste trecho, porque há desníveis. E o sinal sonoro nos semáforos e faixas de pedestres também seria de grande importância porque nem sempre há alguém por perto para auxiliar na travessia.

CRIATIVO

Louis Braille adaptou método

O criador do Método Braille foi Louis Braille, que ficou cego aos cinco anos em decorrência de infecção nos olhos após perfuração. O jovem ganhou uma bolsa de estudos no Instituto Nacional para Jovens Cegos, em Paris. Aos 12 anos, conheceu um método inventado pouco antes por Charles Barbier de La Serre, oficial do Exército francês.
O método era um código de pontos e traços em relevo impressos em papelão. Destinava-se a enviar ordens cifradas a sentinelas em postos avançados. Estes decodificariam a mensagem até no escuro. Mas a ideia não vingou no front e Barbier adaptou o método para a leitura de cegos, com o nome de grafia sonora.

multi braille

Braille percebeu algumas limitações da grafia sonora e começou a aperfeiçoá-la. Eliminou os traços e, em seguida, criou uma célula de seis pontos, divididos em duas colunas de três pontos cada, que podem ser combinados de 63 maneiras diferentes.

O braille é lido passando-se a ponta dos dedos sobre os sinais de relevo. Habitualmente, usa-se a mão direita, enquanto a mão esquerda procura o início da outra linha.

 

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