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Melhor idade: socialização e longevidade são o segredo

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A expectativa de vida dos brasileiros aumentou. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que em 2018 a média de idade dos brasileiros chegou a 76,2 anos. Os dados também revelam que nos últimos seis anos, a parcela dos habitantes com 65 anos ou mais cresceu em 26%. O que significa que a população de idosos no país está cada vez maior.

Com isso, surgem algumas questões como: Porque os brasileiros estão vivendo mais e como é possível manter uma boa condição física e mental na terceira idade? Para muitas pessoas o grande segredo está em se alimentar bem e praticar atividades físicas, o que de fato contribui e muito para uma longevidade.

No entanto, o médico geriatra Rafael Rondineli Ceregatti afirma que a socialização na vida dos idosos tem o poder de aumentar os anos de vida. A experiência de três idosos que ganharam qualidade de vida e até mesmo venceram doenças ao se ocuparem reafirma a importância das relações afetivas na vida.

 

FUNDAMENTAL

Cultivar relações faz bem para saúde física e mental

Se manter ocupado na terceira idade. Este é o grande desafio de muitos idosos. Isso porque, não são apenas os movimentos e o ritmo de vida que diminuem com os passar dos anos, mas também os afazeres do dia a dia e a frequência com que as pessoas passam a se relacionar umas com as outras. Com isso, muitas pessoas que alcançam e ultrapassam os 60 anos passam a viver uma rotina de isolamento social, o que pode gerar problemas como depressão e ansiedade, diagnósticos muitos comuns na velhice, etapa em que muitos se sentem abandonados por ficarem viúvos ou perder amigos. Apesar disso, é possível manter hábitos que mudam essa realidade e proporcionam uma passagem feliz pela terceira idade.

De acordo com o médico geriatra Rafael Rondineli Ceregatti é muito importante esclarecer que os relacionamentos ativos são fundamentais para a manutenção da saúde física e mental, principalmente para os idosos. Isso porque, quando um idoso se relaciona ele desenvolve toda a sua parte cognitiva que é o conjunto de capacidades do cérebro que envolve a memória, a linguagem, a atenção e a capacidade de cálculo e de projeção. Com isso, o médico explica que realizar atividades que ocupam a mente como leitura, assistir televisão, fazer palavras cruzadas, fazer um serviço doméstico ou uma atividade física é, sim, muito válido, mas não tão eficaz quanto o ato de se relacionar. “Tudo isso pode ser feito para ocupar a mente, mas geralmente são atividades que fazemos sozinhos e o grande segredo é sempre estar acompanhado”.

Sendo tão importante para a longevidade manter as relações afetivas, Ceregatti orienta que os idosos devem procurar executar tarefas em grupos. “Fazer um artesanato é muito bom, mas fazer com amigos é ainda melhor”, reforçou. O médico ainda pontua que o idoso não deve apenas manter contato e laços com seus familiares, é preciso pertencer a grupos diferentes, sendo necessário se portar de maneiras diferentes, o que estimula ainda mais o cérebro, seja um grupo de oração, de trabalho voluntário ou de atividades físicas, por exemplo. “Quanto mais tipos de relação social tiver melhor será para o físico e o emocional”.

Na contramão, o médico ressalta que o isolamento social faz o idoso perder a cognição e muitas das vezes entrar em um quadro depressivo e de ansiedade. A dependência que uma pessoa idosa passa a ter para fazer muitas coisas também deixa a pessoa deprimida, o que não é nada favorável para sua saúde. Por essa razão, Ceregatti enfatiza que tudo isso pode ser evitado quando a pessoa escolhe ser ativa nas atividades físicas que é fundamental para manter a capacidade do corpo e da mente e em suas relações que a tornará mais alegre por estar exercitando o cérebro. Para dar um exemplo do quão importante é manter os relacionamentos ativos, o médico diz que uma pesquisa aponta três grupos de pessoas que menos terão chance de desenvolver o Alzheimer, uma doença neurodegenerativa progressiva que assusta muita gente e atinge em peso os idosos. No primeiro grupo estão os que convivem socialmente, no segundo os que praticam atividades físicas e no terceiro os que praticam atividades mentais.

Em cima de tudo isso, a grande receita para viver mais, mas com qualidade de vida é se relacionar, não perder a capacidade de sair para bater um papo e de interagir com as pessoas. “Assim se vive mais e com qualidade, já que uma pessoa feliz fica mais animada e motivada e isso minimiza os problemas da vida”. E nos dias de hoje, a tecnologia pode somar ainda mais nas relações. O idoso pode usar o aplicativo de mensagens WhatsApp para se comunicar ou o Skype para ver alguém querido que esteja longe. “Já vi essas ferramentas contribuírem e muito para os relacionamentos de idosos”. Porém, o médico frisa que ver alguém pessoalmente e dar um abraço é insubstituível.

MAIS FELIZES

Idosos venceram a tristeza com novas amizades e atividades

Iraides Moreno Andrade, 73, Tereza Oboli Vieira, 68, e João Menezes de Arruda, 82, são a prova viva de que deixar para trás uma rotina estagnada em troca de um dia a dia com atividades e na companhia de amigos faz toda a diferença. Os três são alunos do Centro Dia do Idoso de Mogi Guaçu. O local é como uma ‘creche’ para pessoas da terceira idade, onde os frequentadores estão de segunda a sexta-feira, das 07h30 às 17h00.

A coordenadora Maria Solange de Lima Bortolin informou que, neste período, os idosos usufruem de um cronograma de atividades como artesanato, atividades físicas, pintura, musicoterapia e rodas de conversa. Atualmente, o Centro Dia do Idoso tem 34 alunos, sendo que a idade mínima para entrar no local é de 60 anos. Todas as atividades desenvolvidas são acompanhadas por uma equipe técnica que possui enfermeira, assistente social e psicóloga. Além de tudo isso, como passam o dia no Centro os idosos têm o café da manhã, almoço e café da tarde, além de um período de descanso. Vale ressaltar que um dos requisitos para conseguir uma vaga no Centro Dia do Idoso é ter um filho ou filha como responsável, o que caracteriza o espaço como uma creche, já que os idosos atendidos têm suas casas e famílias para voltar ao final de cada dia.

A experiência contada por dona Tereza comprova tudo o que o médico geriatra Rafael Rondinelli Ceregatti explicou quanto a importância da socialização na terceira idade. Ela diz que está no Centro Dia do Idoso há dois anos e que o local para ela significa simplesmente tudo. “Aqui é um lugar abençoado”. Tamanha consideração é porque dona Tereza venceu 100% a depressão devido ao fato de ter inserido em sua vida amizades e atividades. “Antes eu ficava em casa o dia todo no sofá”.  Ela ainda lembrou que os remédios que tomava a deixavam dopada, sendo que agora ela toma apenas um medicamento controlado, mas diz se sentir muito feliz. “Minha vida mudou, tenho atividades, recebo uma boa alimentação e gosto muito dos meus amigos e de toda a equipe que é atenciosa”.

Tereza

Já dona Iraides está a mais tempo no local, já são 10 anos desde que iniciou no Centro Dia do Idoso. Ela contou que procurou ocupar a mente assim que ficou viúva. “Uma amiga viu que eu estava triste e me falou daqui”. Depois que conseguiu a vaga e iniciou as atividades, ela soube lidar de forma mais leve com a dor do luto e hoje em dia se sente muito animada com cada tarefa que tem que fazer, principalmente quando o assunto é pintura, sua atividade favorita. Assim como dona Tereza, Iraides responde que o mais importante de tudo são as amizades conquistadas e cultivadas. “A gente conversa, distrai a cabeça”.

Iraides

Seu João chegou depois das duas amigas. De tanto a esposa, que também é aluna da creche, insistir ele finalmente aceitou frequentar o Centro. “Se eu soubesse que era tão bom tinha vindo antes”, afirmou o idoso que relatou que antes ficava em casa sem ter muito o que fazer, além de cuidar do cultivo das minhocas que vende para pesca. Questionado sobre o que mudou depois que passou a ser mais ativo, seu João disse que tudo. “Eu me sentia deprimido antes”. Ele ainda afirmou que sua parte preferida é a cozinha. “A alimentação é excelente, eles nos oferecem uma comida sem gordura, sem muito sal, de acordo com nossa idade”.

Os três acreditam que ficar parado envelhece a pessoa mais rápido, até por conta da tristeza que a inutilidade causa. Aos finais de semana, todos ocupam a mente com as tarefas domésticas, mas de uma forma bem diferente de quando isso era apenas o que se tinha para fazer, e também aproveitam os momentos com a família. E questionados se têm o hábito de faltar no Centro Dia do Idoso, os três afirmaram que isso só acontece quando precisam ir a uma consulta médica, caso contrário estão todos os dias a postos para suas atividades e interações interpessoais.

João
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