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Maurinho Adorno: Tudo passa. Até a uva passa

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Apenas de bermuda e sem camisa, deito no tapete da sala, barriga para cima. Meu filho mais velho, o Maurinho, me dá suas pequenas mãozinhas, coloco meus pés em sua barriga e o levanto, fazendo movimentos dos mais diversos, murmurando com os lábios uma imitação de som de avião. Matheus, ao lado, assiste excitado, esperando sua vez. Essa cena é recorrente em minha memória, quando volto ao passado. Na semana passada, ao relembrar esse período de nossas vidas, eu me dei conta que já se passaram três décadas, mas parece que foi ontem: o tempo passou rápido e, com velocidade incomum, continua passando.

Ao sairmos pelas estradas aos fins de semana, entrávamos em uma disputa acirrada para ver quem localizava o próximo telefone amarelo, desses instalados no acostamento, a cada dois quilômetros. É óbvio que eu me fazia de distraído, deixando a um ou outro a descoberta, e consequentemente ganhasse a aposta. Era singular o fato do mais velho, o Maurinho, denominar os tratores rurais de “Dô”. Não sei de onde ele tirou isso e nem ele mesmo sabe até hoje. Nessa idade em que estão aprendendo a falar, as crianças criam palavras e frases inexplicáveis. Inúmeras delas, às vezes, me vem à mente e parece que eles as disseram ontem.

Os adultos também têm essas tiradas. Um dia, não sei por que cargas d’água, resolvi chamar o Matheus de Chiquinho, de forma carinhosa. Poderia ser qualquer outro nome ou apelido, mas saiu esse sem querer. Essa nomenclatura caiu como uma bomba nos ouvidos de meu pequeno filho. Ele reclamava toda a vez que eu o chamava dessa forma. Um dia, ele já com seus 8 anos, em lágrimas, disse que eu não gostava dele. Motivo: “você me chama de Chiquinho”. Eu me senti mal e abortei a denominação. Na verdade, o apelido não colou – eu só falava em casa – e, nos dias, atuais às vezes nos lembramos dessas passagens de um tempo de outrora.

O famoso e inesquecível Fiori Gigliotti, em suas memoráveis narrações de futebol, se eternizou por usar alguns jargões durante as transmissões, como “abrem-se as cortinas do gramado” e “o tempo passa”, quando informava o tempo corrido e os minutos faltantes para o encerramento da partida. Nessas horas, o tempo passava, especialmente quando nossa equipe estava em desvantagem no marcador. Esse tempo passou: na verdade, ao me remeter ao passado, digo que o tempo voou.

O tempo passa, deixando recordações, alegres, tristes ou hilárias. Em meu primeiro casamento, resolvi convidar alguns amigos de meu pai para a cerimônia; eram colegas de trabalho dele no Instituto de Menores. Ao receber os cumprimentos, cada um deles que se aproximava comentava uma passagem com meu herói. E, eu chorava. De longe, os convidados viam a cena sem saber o que realmente estava acontecendo; alguns chegaram a pensar que eu havia arrependido de dizer o “sim” no altar. Imagens nítidas de meu passado.

“Parece que foi ontem” é a frase corriqueira quando nos remetemos ao nosso passado. Lembrar-me dos primeiros números de “O Impacto” e da “Gazeta” é como se o ontem fosse hoje. Cada um de nós teve o seu passado, suas lembranças, e elas estão gravadas em nossa memória. Desse passado, conquistamos experiência para viver os nossos dias e apostar num futuro mundo melhor. Sou emotivo e saudosista, mas acredito que todos vão concordar com essa minha criação filosófica: “o tempo passa, até a uva passa”. E, muito rápido.

Mauro de Campos Adorno Filho é ex-diretor dos jornais Gazeta Guaçuana e O Impacto

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