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Libras ganha destaque com primeira-dama

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A posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi marcada pela atitude da primeira-dama Michele Bolsonaro de quebrar os protocolos da solenidade e realizar um discurso no parlatório do Palácio do Planalto. No entanto, o que chamou a atenção não foi o simples fato de Michele discursar e, sim, o fato dela ter usado a libras (Língua Brasileira de Sinais).

Antes mesmo de o marido se dirigir ao público, a primeira-dama agradeceu a solidariedade dos brasileiros e disse que vai trabalhar para ajudar os deficientes, deixando bem claro o carinho especial que tem pelos surdos.

E antes mesmo do então candidato a presidência vencer as eleições, o país passou a conhecer a bandeira levantada por Michele que sempre fez questão de implantar nas transmissões do marido a presença de um intérprete de libras. Além disso, em outubro do ano passado, Jair Bolsonaro firmou compromisso com a comunidade surda, sendo que um deles é incluir libras como disciplina obrigatória na educação básica e nos cursos de saúde. Para conseguir cumprir com a promessa, o presidente terá grandes desafios, já que a estrutura da educação nacional não está preparada para isso.  Será necessário implantar escolas bilíngues por todo o país, aumentar a oferta para a formação de professores e melhorar o nível dos cursos de intérpretes.

A libras é reconhecida como língua brasileira de sinais desde 2002 com a Lei de número 10.436 que reconhece a língua como meio legal de comunicação e expressão. De acordo com a lei, deve ser garantido por parte do Poder Público em geral e empresas concessionárias de serviços públicos formas institucionalizadas de apoiar o uso e difusão da Língua Brasileira de Sinais como meio de comunicação objetiva e de utilização corrente das comunidades surdas do Brasil.

No entanto, ao que tudo indica o tema nunca foi uma preocupação e ficou esquecido pelo próprio governo, vindo à tona apenas agora com os discursos da primeira-dama.

Eline
Eline

Mas afinal, qual a realidade atual dos quase 10 milhões de surdos brasileiros? Quais são as principais dificuldades enfrentadas pela comunidade no país, principalmente com relação a libras?

ALFABETIZAÇÃO

Escassez de profissionais dificulta estudo de surdos

A intérprete tradutora da Língua Brasileira de Sinais, Eline Pires André Belgara,37, sabe muito bem quais são os desafios enfrentados diariamente pelos deficientes auditivos, principalmente quando o assunto é a educação, que é o ponto de partida para qualquer pessoa conseguir evoluir na vida. De acordo com a profissional, a escassez de professores que trabalham com surdos faz com que muitos deles abandonem os estudos, os impedindo de chegar a uma faculdade e de ganhar espaço no mercado de trabalho. “É comum pessoas surdas não irem à escola ou quando vão não terminam nem mesmo o ensino médio devido à dificuldade que enfrentam na alfabetização. Muitos chegam há ficar quatro anos na mesma série e desanimam, e tudo isso porque as escolas não oferecem professores e intérpretes para trabalhar com eles, incluindo as instituições particulares”.

A tradutora esclareceu que a primeira alfabetização de um surdo deve ser feita com a libras e que profissionais, como professores e fonoaudiólogos, sabem muito bem disso. “Primeiro a língua deles para depois, na escola, eles conseguirem com a ajuda de um intérprete se alfabetizar na língua portuguesa, que é um grande desafio, já que as línguas são bem diferentes”.   

No entanto, Eline enfatizou que muitas famílias ainda não entendem isso e insistem em colocar seus filhos apenas na escola sem antes serem alfabetizados na Língua Brasileira de Sinais. “Para se ter uma idéia, na libras não existe conjugação verbal. Isso significa que qualquer verbo se torna um obstáculo para o surdo. Agora, imagina ele sozinho em uma sala de aula comum, sem intérprete ou, então, sem conhecer sua própria forma de se comunicar?”, indagou.

Com isso, ela defende que as escolas devem ter libras em sua educação básica, que a língua não seja guardada a sete chaves. “Todos devem ter acesso, assim como um idioma, afinal de contas libras é a segunda língua oficial do Brasil”.  

multi libras elineAlém disso, para a tradutora é essencial que a educação tenha além de professores, coordenadores e diretores também capacitados em libras. “A escola tem que ter uma sala de apoio com jogos, imagens e outras interações que contribuem para o ensino especial, isso não apenas para o surdo, mas para quem tem síndrome de down, autista e hiperativo.”

Eline explicou que quando um surdo é colocado em uma sala de aula sem um intérprete ele fica totalmente perdido. “As pessoas acham que um surdo vai conseguir aprender alguma coisa fazendo leitura labial nos professores, mas não é bem assim. O surdo na aula sem intérprete não vai entender muita coisa. Outra grande diferença é que para ele cada palavra é um sinal e quando ele não conhece uma palavra, o intérprete tem a missão de passar para ele sinônimos ou letra por letra para ele construir a palavra desconhecida. É preciso sinalizar até que ele consiga definir o que está sendo falado e isso demanda tempo, tranquilidade e profissionalismo”.

DIAS ATUAIS

Comunidade surda ainda lida com preconceito

Mas as dificuldades não param apenas na falta de profissionais para alfabetizar os deficientes auditivos. O preconceito também ronda a rotina tanto dos surdos quanto dos profissionais. “Nos casos em que conseguimos estar presente em sala de aula para interpretar as matérias, a gente ainda sofre preconceito de alguns professores titulares que acham que nós intérpretes estamos passando as respostas para o aluno surdo ou que nós não deveríamos ganhar o mesmo salário por termos apenas um ou dois alunos. No entanto, se esquecem que um intérprete precisa estudar muito porque ele passa todas as disciplinas para o seu aluno”, lamentou Eline Pires André Belgara.

Diante de situações como essas, a profissional alerta que o fato de a língua estar em evidência pode ocasionar um aparecimento repentino de pessoas que se intitulam intérprete. “Tem que ter cuidado para a dificuldade do aluno não passar batido. Um intérprete precisa ter muito estudo, um vocabulário muito rico para suprir a necessidade do surdo, precisa também ter uma boa expressão corporal porque a língua é bem visual. Se o intérprete tiver apenas uma formação básica pode prejudicar na alfabetização de seu aluno”.

E para quem acredita que quando estão dentro de casa os surdos estão imunes do preconceito, a intérprete garante que o maior desafio está na família. “Às vezes existe o comodismo de não lutar pela necessidade que o deficiente auditivo tem de falar a Língua Brasileira de Sinais. Muitas famílias cobram que seus filhos consigam aprender simplesmente o português e no meio de uma turma sem deficiência, sem intérprete. A família deve ser a primeira a procurar conhecer a libras para se comunicar com o surdo e a lutar pela educação dele, não se ver vencida porque a gente sabe que é uma guerra”.

multi libras elineDiante da bandeira levantada pela primeira dama, Eline tem esperança de que a lei seja cumprida e que os dias sejam melhores para a comunidade surda. “A minha esperança é que eles sejam vistos e valorizados como as pessoas capacitadas que eles são. Os surdos são pessoas inteligentes. Espero que o mercado de trabalho, que as empresas vejam essa capacidade de crescimento neles e não apenas o coloquem em vagas de ajudante e de auxílio como acontece hoje em dia. As empresas também devem ter intérpretes para investir no crescimento profissional do deficiente auditivo. Mas para isso é preciso deixar de lado as preocupações com custos, tempo e preenchimento de cotas”.

Na defesa dos surdos, a tradutora ainda pede que as famílias não proteja o deficiente auditivo. “Diante de tudo o que é necessário fazer o mais importante é sempre ouvir o que o surdo quer e não impor a ele condições, o deixar opinar sobre suas condições, como se quer ou não usar aparelho auditivo, fazer um implante, ou seja, dar a ele autonomia da própria vida porque uma superproteção pode soar como limitações impostas”.

Eline ainda pontuou que um exemplo simples que mostra o quão ignorado é a comunidade surda é o fato da maioria das pessoas acharem que todo surdo é mudo. “Um surdo não é mudo. Ele não fala pelo simples fato de não ouvir. Tanto que tem surdo que consegue falar, então, é bom esclarecer esse ponto que é bem ofensivo para eles que são pessoas capazes de muitas atividades como dirigir, por exemplo, a maioria tira sua carteira nacional de habilitação e dirige muito bem”.

Para finalizar, a intérprete, que iniciou seus trabalhos com os surdos em 2012, explanou o sentimento que sente pelos deficientes auditivos. “Eu não me vejo longe desse mundo deles, vivo com eles. Meus dois filhos nasceram na comunidade surda. Eles são muito especiais em minha vida. Eu cresci muito profissionalmente e como ser humano e tenho aprendido a cada dia, por isso, eu digo sempre que eles são capazes e importantes”.

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