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Leiteiro: venda de porta em porta resiste ao tempo

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Há 25 anos, Antonio Paiva Filho, 77, trabalha na venda de leite de porta em porta. Sul é o apelido de infância. Assim, o leiteiro é conhecido pela freguesia que o chama de Sul Leiteiro ou Sul da Carroça. A entrega de leite é feita nas segundas, quartas e sextas-feiras. O produto segue na carroça que é impecavelmente cuidada pelo leiteiro.

E quem consome o leite in natura ou leite cru não consegue abrir mão do produto. É o caso da dona de casa Maria José Gandini, 80, freguesa de Sul há mais de 20 anos. Para ela, o produto ganha em sabor de todos os demais das embalagens longa vida.

Ah! Sim, o leite in natura é fervido antes do consumo e Maria José aproveita a nata para fazer bolachas e manteiga.

SUSTENTO DA FAMÍLIA

Sul Leiteiro se orgulha da função

 

multi leiteiro carroca antonComo grande parte dos mineiros que se mudaram para Mogi Guaçu, na  década de 70, Antonio Paiva Filho, o Sul Leiteiro, veio para o trabalho nas cerâmicas. Passou por praticamente todas as empresas do setor, acompanhando do apogeu à queda de muitas delas. Desempregado, no início da década de 90, exatamente em 1993, ele começou a vender leite para sustentar a família.

Mas conta que não foi fácil pensar em um novo ofício depois de tantos anos de trabalho na indústria cerâmica. Por outro lado, foi tranquilo se adaptar ao novo instrumento de trabalho: a carroça. Nascido em Borda da Mata (MG), ele conta que sempre viveu na roça. “Sempre, sempre gostei de cavalo, desde criança”, conta o leiteiro frisando que este sentimento o ajudou a pensar no novo ofício.

À época, Sul chegou a vender de 130 a 150 litros de leite por dia, o que o fazia com que ficasse na lida das 6 às 13 horas. “E sempre acordando às 5 horas para buscar o cavalo”, conta sobre a rotina, hoje, trissemanal. Como não tem sítio, ele revende o produto, mas, atualmente, a quantidade é bem menor: 50 litros por dia. “Depois destas embalagens novas, as vendas diminuíram muito”, conta. As vendas são sustentadas pelas famílias que não abrem mão do leite in natura. Tanto que nestes anos de ofício, o leiteiro viu muitas crianças crescerem consumindo o produto que entrega em domicílio. É um hábito que passa de geração para geração, apesar da facilidade e da variedade de leite em embalagens longa vida.

Já aposentado, a família pede que o leiteiro deixe o ofício, mas ele não quer ficar parado. “Hoje, isto pra mim é uma forma de manter a saúde”, diz sobre o fato de acordar cedo e sair para trabalhar. Sul conta que o lucro também não é o mesmo de antigamente. Existe a despesa com o aluguel do local para deixar os cavalos e o trato para os animais. Para ele, a venda de leite de porta em porta é um compromisso assumido com a freguesia e, portanto, faça chuva ou sol, o produto é entregue. “Deus é bom demais! Mais do que trabalhei até aqui.Agora é para manter a saúde”, comemora demonstrando gratidão.

multi leiteiro carroca antonPara o leiteiro, o leite é um alimento sagrado e, por isso, encara com tanta seriedade ofício. Admite ter levado alguns calotes ao longo destes 25 anos no ofício, assim como se recorda dos litros de leite que deu para famílias carentes. “É muito duro ouvir uma mãe falar que não vai comprar o leite porque não tem dinheiro”, lembra. Com chapéu de boiadeiro e botina, Sul sai para o ofício pelas ruas dos bairros da Zona Sul.

TRADIÇÃO

Maria José não abre mão do leite que compra do leiteiro

 

Na casa de Maria José Gandini, 80, não entra outro tipo de leite que não seja o comprado do leiteiro. Há mais de 20 anos, ela e a família são fregueses de Sul. O sabor incomparável e o uso da nata para fazer bolachas e manteiga são os argumentos de quem não abre mão do leite vendido de porta em porta.

“O sabor é muito diferente. Eu fervo porque a gente sabe que não se deve beber antes da fervura, espero esfriar, retiro toda a nata e guardo em potinhos. Faço as bolachinhas que derretem na boca. E a manteiga fica uma delícia também”, detalha a falante Maria José. Ela se orgulha das delicias que faz com o leite “direto da vaquinha”, como gosta de falar.

Maria José é uma das freguesas que marca a compra do mês no caderninho e paga mensalmente o leiteiro. “Nestes anos todos nunca tivemos nenhum problema. Ele sempre confiou na gente e nós nele”, comenta reforçando sobre a limpeza do tambor que transporta o leite na carroça. A família compra seis litros de leite por semana.

Na família de Maria José, ela conta que todos gostam apenas deste leite. “Eu mesma desde criança já tomava o leite que era tirado na hora”, recorda pontuando que para ela se trata de um alimento abençoado e indispensável. Dona de casa primorosa, ela conta que o bolo e a vitamina também ganham sabor diferente com o leite vendido de porta em porta.

maria multi leiteiro carroca anton

Curiosidades sobre o leite

 Da Redação

– A sigla UHT presente nas embalagens de leite longa vida significa ultra high temperature (temperatura ultra alta, em português). Isso por que, durante a produção, o leite escorre por dois segundo em chapas de metal aquecidas para matar os micro-organismos e, assim, manter o produto fresco nas prateleiras dos supermercados.

 

– Em 1925, a Oliva da Fonseca e Cia. Ltda., que fabricava leite em pó para fábricas de chocolate, maisena e glicose, passou a distribuir leite na cidade de São Paulo. Dois anos depois, tornou-se Sociedade Anônima Fábrica de Produtos Alimentícios Vigor e inaugurou uma moderna usina em São Paulo, com capacidade para processar 20 mil litros de leite por dia.

 

– A Cooperativa Central de Laticínios do Estado de São Paulo, conhecida como Leite Paulista, foi fundada em 17 de setembro de 1933, com a união de produtores de leite em cooperativas regionais associadas. Seu primeiro produto foi o leite integral.

 

– Em 1945, a Leco iniciou suas atividades com a Laticínios Campinas. Somente três anos depois adotou o novo nome. Foi a Leco que lançou o leite tipo B, na década de 1950. Até 1954, a distribuição ficou restrita às cidades de São Paulo e Campinas.

 

– Até 1961, o leite era distribuído em garrafas de vidro. Em 1968, a Laticínios Poços de Caldas passou a embalar o leite tipo C em sacos plásticos de polietileno, a solução dos problemas de transporte e quebra das garrafas. Nos anos 70, a embalagem de plástico se disseminou pelos principais mercados do país.

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