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Futebol: Um mundo de renúncias e superações

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Antigamente, e principalmente nos tempos modernos, o nascimento de um menino na maioria das famílias brasileiras já remetia ao desejo e a esperança dos pais e familiares: nasceu um jogador de futebol.

A ideia de sucesso e de uma vida financeira confortável faz com que o candidato a jogador enfrente renúncias e superações inimagináveis durante sua trajetória: distância da família, viver em alojamentos, mudar de cidade e de times constantemente e decepções, além de ter que vencer dentro e fora dos gramados. Poucos conseguem alcançar as metas traçadas pelos familiares e até por eles próprios.

SONHO ADIADO

Após desistir várias vezes, Bruno quer emplacar no Mogi Mirim 

Morador da Zona Rural de Conchal, Bruno de Azevedo Silva, o Bruno Conchal, iniciou sua carreira de atleta aos 10 anos de idade em um projeto da Prefeitura de sua cidade.

Jogador com bom vigor físico dentro das quatro linhas, Bruno chamou a atenção logo aos 12 anos e foi levado por Cláudio Roberto Lopes, o Todinho, que está sempre atento aos jogadores de base, para realizar um teste no Guarani, em Campinas.

Bruno defende a camisa 5 e Guilherme a 10
Bruno defende a camisa 5 e Guilherme a 10

Bruno agradou aos dirigentes do Bugre campineiro e foi aprovado para vestir a camisa do time de Campinas. Mas ele não tinha o apoio da família, que tirava o sustento da roça. “Não tinha apoio da minha família e, por isso, ficou complicado continuar no Guarani. Tinha que viajar todos os dias e não dava muito certo. Às vezes, chegava atrasado ao treino. Então, desisti e voltei para a escolinha da Prefeitura de Conchal”, comenta Bruno.

Mas, aos 13 anos, o atleta retornou aos gramados. Na ocasião, ele estava no Independente de Limeira, cidade próxima a Conchal. “Disputei um campeonato e abandonei de novo por causa das dificuldades”, enfatiza o atleta.

O novo abandono aproximou Bruno da lavoura de laranja. Ele precisava ajudar a família no sustento da casa e carregava sacos de 30 quilos de laranjas para lotar o caminhão que transportava o produto para os galpões de armazenamento. “Mesmo trabalhando na roça, eu sempre mantinha uma esperança de retornar aos gramados. A vida na colheita de laranja não é fácil e não queria aquilo para mim, não”, frisa o jogador.

Até que uma oportunidade mudou novamente o caminho de Bruno. Na disputa de uma Copa de Futebol, em Conchal, o atleta teve destaque e atraiu olhares de um empresário que o levou para fazer testes na Ponte Preta, em Campinas, em 2014.

Bruno, então, foi aprovado e conquistou dois títulos com a camisa da Macaca: da Copa Ouro e do pré-campeonato organizado pelo clube. Na Ponte Preta ficou no alojamento, mas a falta de alguns documentos dificultou sua permanência no clube. Até que com a preparação do Mogi Mirim para a disputa da Copa São Paulo, os dirigentes do clube mogimiriano tiveram a informação de que o atleta tinha abandonado as quatro linhas por dificuldades financeiras. Diante disso, os diretores do Grupo Brasil Top Skills, gestor das categorias de base do Mogi Mirim, fizeram uma proposta para Bruno defender as cores do Sapo, na Copa São Paulo de Juniores. O volante Bruno, agora, carrega a responsabilidade de ser o capitão da equipe mogimiriana. “Quero ser um vencedor. Minha vida sempre foi de dificuldades e abandonos. Agora, quero dar uma vida melhor para meus pais e familiares”, encerrou o capitão Bruno.

Bruno III

DE OLHO NA EUROPA

“A periferia sempre foi meu lugar. Mas, agora, quero o mundo!”

De infância humilde e de vivência na periferia de Osasco, na Grande São Paulo, Guilherme Nicolas de Souza, 19 anos, sempre sonhou em ser um grande jogador de futebol. Nas “peladas de rua”, ele já se destacava em relação aos outros colegas. “Sempre gostei de ser um jogador ousado. De partir para cima e fazer firulas. Essa é minha maior característica”, destaca Guilherme.

Com condições financeiras restritas, ele sempre participou de projetos esportivos na periferia de Osasco, atuando em escolinhas do bairro Jardim Roberto. “Minha educação em casa sempre foi muito boa. Mas meus pais não tinham condições de bancar meu transporte para tentar algo longe do meu bairro”, comenta.

Aos 10 anos, ele começou a ser monitorado pelo São Paulo Futebol Clube. O monitoramento não progrediu, porque o atleta não teve suporte financeiro para participar dos treinamentos no Centro de Treinamento, em Cotia.

GuilhermeAos 14 anos, com o esforço de seu pai, Guilherme teve a oportunidade de realizar um teste no Guarani, em Campinas. Agradou e foi aprovado, mas as dificuldades continuaram.

Ainda criança, ele conta que sempre usou chuteiras menores do que seu número, porque não tinha condições de comprar chuteiras novas. “Acho que meus dedos dos pés são um pouco atrofiados devido a isso. Meu pai não tinha condições de comprar outra para mim. Tinha que usar aquelas que eu ganhava”, recorda Guilherme.

Mesmo consciente das dificuldades que iria enfrentar, ele decidiu partir em busca de seu sonho. E, sozinho, se aventurou. Trabalhava à noite de garçom para ganhar R$ 30 com o objetivo de pagar o transporte para chegar aos treinos.

Depois do São Paulo e Guarani, Guilherme teve peregrinação por alguns clubes do Brasil: Audax, Flamengo de Guarulhos, Mineiros-GO, Desportivo Brasil-SP, Novo Hamburgo e Aymoré, do Rio Grande do Sul.

“Passei por muitos clubes antes de chegar ao Mogi Mirim. E aqui estou tendo a oportunidade de disputar a Copa São Paulo, que é o sonho de todo atleta de base. Tenho certeza que vou me dar bem. Quero ir para a Europa. Jogar nos grandes clubes de lá”, encerrou o atual camisa 10 do Mogi Mirim.

INFÂNCIA DIFÍCIL

Da vida humilde no Ceará para os campos de futebol

A maioria das histórias de jogadores de futebol retrata uma infância humilde e cheia de dificuldades. E a regra não foi quebrada com o atleta Paulo Sérgio Freitas da Silva, o Ceará, 17 anos.

Canhotinha habilidoso, ele nasceu no Rio de Janeiro, mas teve sua infância na cidade de Tamboril, no Estado do Ceará, local que lhe rendeu o apelido. Tamboril é uma cidade com menos de 30 mil habitantes.

A mudança do Rio de Janeiro para o Ceará ocorreu quando o lateral-esquerdo do Mogi Mirim tinha apenas 1 ano e 6 meses de vida. Os pais tinham se separado e o pequeno Paulo Sérgio foi viver com seu pai no Nordeste do Brasil.

Lavrador, o pai de Ceará começava na lida da roça de feijão logo nas primeiras horas do dia. Ainda muito menino e sem conhecer a mãe – que o abandou depois da separação – Ceará acompanhava o pai e ajudava na colheita e no transporte das sacas de feijão.

CearáMas o desejo do menino franzino era muito maior: ele queria ser jogador de futebol. “Ajudava meu pai na roça para ter o sustento de casa, mas sempre tive no meu coração o desejo de ser jogador de futebol”, reforça Ceará.

Ceará descreve que a vida ao lado do pai, durante a infância, não foi fácil. Como o pai teve vários relacionamentos, o atleta recorda que foi muito maltratado por suas madrastas. “Apanhava sempre. Tomava muita ‘pisa’ das minhas madrastas. Tenho marcas pelo corpo até hoje”, lamenta o atleta.

E a vontade de vencer na vida e alcançar o sonho foi ficando cada vez maior. Nas “peladas” da escola, onde tinha seu sustento através de pão e suco, Ceará chamou a atenção de um professor de Educação Física que o levou para participar de um teste no Grêmio/RS. O menino humilde de Tamboril teve êxito e iniciou sua peregrinação no futebol ainda muito cedo.

Depois do Grêmio, Ceará foi para o Paraná defender as cores do Atlético Paranaense. “Sempre sofri muito na minha infância. Não era fácil levantar cedo e carregar sacas de feijão pesadas na bicicleta. Caso eu cometesse algum erro, apanhava de pau do meu pai”, conta Ceará.

Atlético Mineiro, América Mineiro, Náutico-PE e Coritiba foram outros clubes nos quais Ceará jogou seu futebol. Até que, em 2017, o jovem atleta – hoje com 17 anos – chegou ao Mogi Mirim e disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior pela primeira vez. “Sigo as Leis da Bíblia e nela diz que precisamos ter misericórdia das pessoas. E eu sou assim. Por mais que tenha sofrido na infância, meu sonho ainda é dar uma vida melhor para meu pai e dar uma casa para ele morar. Tenho certeza que Deus me ajudará nesta minha vontade”.

 

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