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Feirantes: Eles declaram o amor pelo trabalho

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E o que dizer das feiras livres que atraem centenas de pessoas e ainda conseguem sobressair mesmo nestes tempos de tecnologia e modernidade. As barracas enfileiradas lado a lado evidenciam a organização pensada exclusivamente para o bem-estar e praticidade dos fregueses. A venda de frutas, legumes, verduras e dos tradicionais pastéis até roupas e sapatos, além de itens como ervas e grãos, ainda mantém espaço cativo na preferência dos consumidores que não abrem mão de comprar produtos fresquinhos, de boa procedência e com preços baixos.

A troca instantânea de informação entre consumidor e feirante é a condição que mais atrai pessoas para a feira livre. Nela, há aqueles que vão apenas para observar. Outros adoram pechinchar e procuram algo específico, enquanto que outros consumidores criam laços de afetividade que ultrapassam a relação feirante-freguês. Inclusive, este é uma das razões que mais sustentam a tradição de ir à feira toda semana, comer pastel e tomar caldo de cana, além da variedade e qualidade dos produtos ali encontrados.

28 ANOS DE TRABALHO

“Eu sou muito feliz sendo feirante”, diz Vilma

Vilma
Vilma

Além dos fregueses assíduos das feiras livres, os feirantes logicamente também fazem parte desse cenário dinâmico e de muita interação. Trabalhar como feirante não é tarefa fácil. Afinal, a oscilação do clima é o que mais atrapalha. Chuva, frio e vento não são tão bem-vindos assim quando o assunto é feira livre. Principalmente, em Mogi Guaçu onde elas ainda funcionam a céu aberto. Há 28 anos trabalhando como feirante, Vilma Marlene Biazini Goulart sabe bem o que é isso. “Não é fácil acordar às duas horas da manhã para ir montar as barracas e levar todos os nossos produtos para vender na feira. Quando está chovendo, fazendo frio ou ventando é pior ainda. Fica tudo mais difícil. Mas é um desafio que a gente enfrenta com amor. Eu adoro o que faço. Amo ser feirante”, conta Vilma.

Mãe de dois filhos, Mateus e Douglas, Vilma diz que a feira livre representa sua vida. Foi com seu trabalho na feira que conseguiu o sustento para educar os dois filhos e se alegra ao contar que os dois também trabalham como feirantes junto com ela. “É muito gratificante vê-los aqui, felizes, trabalhando. Porque os dois poderiam trabalhar com a profissão que quisessem, mas escolheram permanecer na feira. Um deles até tentou trabalhar em outro setor, mas logo voltou para ser feirante. A feria livre contagia. No meu caso, é uma preferência que passou de geração para geração”, comentou Vilma.

Ela começou a trabalhar como feirante em 1990 ajudando o irmão, Vilson, na feira livre do Parque Cidade Nova, aos domingos. Vilma era funcionária da então Champion Papel e Celulose, mas admite que não resistiu ao charme da feira livre. “Eu chegava lá e me sentia à vontade, super feliz, conversava com todos que vinham até a barraca, achava tudo muito divertido. E não quis mais deixar esse ambiente. Quando fiquei grávida, a empresa me dispensou e fui trabalhar com meu irmão. Hoje tenho minhas três barracas e meus filhos trabalham comigo”, comemora.

Vilma e Mateus
Vilma e Mateus

Vilma ressalta que o segredo que mantém a vivacidade da feira livre é a interação. Feirantes e fregueses interagem um com o outro de forma intensa e espontânea. As conversas vão desde a qualidade e preços das frutas, verduras e legumes até histórias de famílias que tem seus desfechos contados aos feirantes. “São quase capítulos de novelas (risos). Cada freguês que se torna amigo da gente conta uma parte das histórias da família. Os fregueses mesmo viram meus filhos brincarem debaixo das barracas quando ainda eram crianças. Essa relação de amizade é uma parceria que dá muito certo, porque mantém a feira livre com esse ambiente familiar e de descontração que ela tem”, pontuou a feirante.

multi vilma feira livrePara Vilma, trabalhar na feira livre é a realização pessoal que ela sempre buscou, porque não esconde o amor que tem pela sua profissão e o orgulho de ter feito tantas amizades ao longo destes 28 anos atuando em feiras livres. “É o amor que me mantém na feira. Os desgastes são muitos. Principalmente, em madrugadas de muita chuva. Não temos o que fazer. O jeito é enfrentar e seguir em frente. Mas só quem gosta muito e tem respeito pelo freguês se mantém trabalhando na feira livre”, concluiu Vilma.

ENTRE GERAÇÕES
“A feira é a vida da gente. Tenho muito orgulho”, diz Otávio

 Vilma não está sozinha nessa paixão pelo trabalho na feira livre. Quem também não esconde o orgulho por trabalhar vendendo frutas, legumes e verduras é o feirante Otávio Pogi Júnior. Atualmente, ele trabalha em duas feiras. Mas nem sempre foi assim. Otávio lembra que já trabalho muito em várias feiras da cidade e não se arrepende de ter escolhido a profissão de feirante para conseguir o sustento da família. “A feira livre sempre foi meu trabalho e é dela que sai o ganha-pão para criar meus filhos. Comecei sozinho, depois minha esposa veio trabalhar comigo também. A feira é uma riqueza de vida para nós. Não troco esse trabalho por nenhum outro. Já estou aposentado, mas não deixou de ser feirante, não”, conta Otávio.

Ele recorda que começou a trabalhar na feira livre aos oito anos de idade ajudando o tio Paulo, que já tinha uma barraca na feira. Naquela época, a chácara da família era a responsável por oferecer as verduras, frutas e legumes que seriam vendidos na barraca do tio Paulo. A própria família plantava, cuidava e depois vendia. No início eram apenas as verduras. Depois, com o passar do tempo, a família se rendeu às frutas e aos legumes. “Ainda trabalhei com meu pai e com meu avô, que também eram feirantes. É uma profissão que vai passando de geração para geração. É incrível esse interesse que vai surgindo das outras gerações. Lembro que quando eu era criança, a gente ia de carroça para a feira, montar os tabuleiros. Naquela época, não tinham barracas. Eram dois tabuleiros em cima de um cavalete. Antes das 9 horas da manhã, a gente já vendia tudo. Não sobrava nada”, conta Otávio, orgulhoso.

Otávio
Otávio

Ele enfatiza que a rotina do feirante é ‘puxada’. Otávio acorda por volta das 3 horas da manhã e trabalha até às 13h00, nos sábados, e até às 14h00 no domingo. “Porque depois que a feira termina, ainda temos que desmontar as barracas, limpar o espaço que usamos, guardar tudo para depois irmos embora”, pontuou.

Otávio diz que muitos fatos tristes também marcaram estes 50 anos de dedicação ao trabalho como feirante. Um deles foi a morte de um colega – também feirante – que sofreu infarto fulminante enquanto montava a barraca na feira livre que é feita no Parque Guainco. “Foi muito triste e uma correria danada para tentar socorrê-lo. Essas lembranças marcam a vida da gente e nos deixa chateado, mas sabemos que faz parte. Teve muita coisa boa também que aconteceu”, pondera.

Dentre os fatos positivos, Otávio não titubeia ao dizer que a principal é a amizade construída com vários fregueses ao longo de tantos anos de trabalho nas feiras livres de Mogi Guaçu. “Muitos clientes já fazem parte da nossa família. Alguns até compram o dobro para nos ajudar a vender mais e, na verdade, eu só não parei de trabalhar ainda como feirante por causa destas pessoas que tanto gostam da gente e nos querem bem. Elas nos incentivam a continuar e sempre dizem: não vai parar, não”, conta Otávio, entre risos. “A feira livre é a vida da gente. Eu estudei três filhos com este trabalho. Um trabalha em outro setor e me ajuda na feira, aos domingos. Outro filho mora nos EUA e uma filha mora e trabalha em Bauru. Tenho muito orgulho disso tudo”, finalizou Otávio.

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