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Febem: “Era um campo de concentração”, conta ex-agente

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O ex-agente de proteção Osório* (nome fictício para proteger a identidade do entrevistado) não está acompanhando o seriado “Carcereiros” e nem quer. Ele diz que prefere assistir ao jogo e ver qualquer esporte a ter de lidar novamente com as lembranças. Osório conta que sempre recebeu apoio dos familiares por causa de tudo o que presenciava lá. Não conseguia guardar só para si. Era preciso desabafar. “Para eles saberem onde eu pisava e falavam: sai, vai trabalhar em outro lugar, fazer outra coisa, melhor do que arriscar a vida”.

O primeiro trabalho foi na unidade da Febem, em Mogi Mirim, onde eram 300 internos. Surgiu um emprego melhor e que permitia ter os fins de semana livres com a família e ele, então, pediu a conta. Anos depois, ao ver o pequeno negócio falir decidiu prestar concurso novamente e lá estava Osório de volta a função, mas, desta vez, na unidade da Fundação Casa, em Campinas.

Agora, ele está aposentado e longe da vida carcerária, porém ele ainda teme. Não pelos jovens infratores que cuidou, mas, sim, pelos antigos colegas de trabalho. “Não que eu queira justificar, mas eu conversava com os meninos, eles tinham pai preso, mãe prostituta, irmão ladrão. Aí você espera o quê de um moleque desse, sem nenhuma noção do que é família? E eu achava que a solução não era dar ‘porrada’, castigá-los”, observou Osório.

Antiga Febem, em Mogi
Antiga Febem, em Mogi

Foi com essa postura que ele disse ter enfrentado as inimizades com os colegas de trabalho durante anos. Osório se negava a participar das sessões do que chama de tortura. “Não sei por que tanto ódio, eles (funcionários) gostavam do que faziam. E os mais violentos eram os que se tornavam os chefes. Não me lembro de quantas vezes teve rebeliões. Aquilo era um campo de batalha, um caos total”.

Osório conta que, certa vez, de madrugada, os agentes de proteção (carcereiros) acordaram todos os internos, os tiraram das celas e os levaram para o pátio. Era inverno e ele se lembra de que os internos foram torturados com uma surra. “Era um campo de concentração”.

Ele conta que procurava conversar com os meninos e, por isso, nunca ficou refém durante as diversas rebeliões que presenciou. “Os moleques pediam, às vezes, para eu ficar junto achando que não apanhariam. E eles (funcionários) não aceitavam isso. Eu não bati nem nos meus filhos e ia bater nos filhos dos outros. Não é essa a solução. Eram raríssimos os funcionários que tratavam bem”, lamenta Osório.

Por históricos de violência como esse que ele não acredita na recuperação desses jovens. E ainda relata que na unidade campineira foi onde presenciou o maior índice de violência tanto por parte dos internos quanto dos agentes.

predio antiga febem

Mas Osório diz que também tem boas lembranças, além da consciência tranquila. Principalmente dos momentos em que tinha de cruzar por favelas ou periferias e nunca foi hostilizado. “Porque o que se fazia lá dentro com eles, todos ficavam sabendo. Eu era daqueles que eles chamam ‘sangue bom’”.

Daquela época, Osório disse que chegou a reencontrar cinco jovens que constituíram família, estudaram e tem uma profissão. “Mas é um futuro triste. Acredito que 90% deles já morreram. Para recuperá-los tem que mudar a estrutura, porque ali se tornou um depósito de internos”, conclui o ex-agente.

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