Home»Cidade»Especial: Mães suspeitam que crianças foram dopadas

Especial: Mães suspeitam que crianças foram dopadas

Exames feitos em Campinas apontaram a existência de clonazepam no organismo das meninas de três anos

0
Shares
Pinterest WhatsApp

A atenção de um neuropediatra associada à desconfiança de uma mãe levou ao desfecho de uma situação que poderia ter passado despercebida. O fato é que duas crianças, ambas de três anos, que estudam na mesma sala de aula de uma creche, passaram mal no mesmo dia, com sintomas semelhantes, precisaram de atendimento médico e foram levadas à UPA (Unidade de Pronto Atendimento), no Jardim Novo II. Uma delas seguiu para Santa Casa e permaneceu internada. A outra foi liberada. Mas a semelhança dos casos levou o médico do hospital a solicitar à mãe da criança não hospitalizada que a levasse para coleta de material. Os exames constataram a desconfiança: as duas crianças haviam ingerido clonazepam. O medicamento é indicado para controle de ansiedade, depressão e crises epiléticas.

Com os dois exames em mãos, na última quarta-feira (22), as mães registraram Boletim de Ocorrência na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), foram ao Conselho Tutelar e também à Secretaria Municipal de Educação. Ambas desconfiam que o medicamento tenha sido dado às crianças no CEI (Centro de Educação Infantil) “Maestro Geraldo Vedovello”, no Jardim Novo I. Uma das crianças frequenta a unidade de educação desde os seis meses e nunca teve qualquer problema.

Tainara e Jessica
Tainara e Jessica

Para as mães, o desejo principal é o de justiça. “Quero que a pessoa que fez isso seja presa”, desabafa Tainara Aparecida Tristão dos Santos, mãe da menina que ficou internada de sexta-feira (17) até segunda-feira (20). Neste período, até obter o resultado do exame, a criança passou por uma série de outras avaliações, incluindo tomografia e análise do liquor da espinha. Ambas afirmam não possuir este tipo de medicamento em suas casas. 

O desejo de Jéssica Aparecida Lira Pereira, mãe da outra criança, não é diferente. “Quero que a pessoa seja punida”, frisa. Mãe de outros seis filhos e grávida de sete meses, ela relata que há três anos, quando um filho faleceu, fez uso de clonazepam. Todavia, atesta que não possui mais o medicamento em casa. Relata que já esteve internada no Instituto Américo Bairral, em Itapira, com depressão. “Faz um mês que tive alta, fiquei três meses lá, mas não tomei nada porque estou grávida”, afirma. A filha de Jéssica frequenta a creche faz quatro meses.

 

B.O.

O caso também foi registrado em B.O. (Boletim de Ocorrência) pela GCM (Guarda Civil Municipal), quando a equipe foi acionada para averiguação sobre ingestão de medicamentos. Isto após a confirmação da existência da substância clonazepam no organismo de uma das crianças e o relato do segundo caso com os mesmos sintomas.

jessica e tainara denuncia crianca creche rivotril

Conforme o relatado no descritivo da ocorrência, o neuropediatra Renato Sardinha Mantovani constatou no diagnóstico médico que a criança, filha de Tainara, estava com “quedas frequentes na marcha ebriosa, fala lentificada e sonolência”.

Foram feitas as coletas e enviadas para o laboratório do Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas. Através do exame da amostra de sangue foi constatada a presença do clonazepam e 7-aminoclona, que é indicado para o controle de ansiedade, e tem entre os nomes comerciais o Rivotril. A outra criança passou por exame na segunda-feira (20), quando foi coletado urina e sangue e constatado o mesmo: clonazepam e 7-aminoclona.  

Paulo
Paulo

EDUCAÇÃO

Todas as profissionais que trabalhavam diretamente com as alunas são afastadas

Após ouvir as mães das crianças envolvidas no caso de ingestão de clonazepam e estar de posse de laudos e B.Os. (Boletins de Ocorrência), a Secretaria Municipal de Educação abriu procedimento para apurar as responsabilidades visando preservar integridade das funcionárias que supostamente possam estar envolvidas. Foi decidido ainda o afastamento das profissionais que trabalham diretamente com as alunas: uma professora e duas auxiliares de educação.

O supervisor de ensino da Pasta, Paulo Alexandre Paliari, atenta que a medida visa preservar também a integridade das crianças e das funcionárias. “Este é o procedimento interno da Prefeitura, que é formar a Comissão de Sindicância. O externo é com a polícia”, disse esclarecendo que a Pasta adota postura de imparcialidade. Com isto, tomam as providências previstas dentro da legalidade, entre elas, os encaminhamentos para os órgãos competentes.

A Pasta optou pelo afastamento das três profissionais porque são as que estão diretamente ligadas aos cuidados com as crianças. Isto porque, as mães afirmam que a ingestão do medicamento não aconteceu na casa destas crianças, mas no CEI (Centro de Educação Infantil) “Maestro Geraldo Vedovello”, no Jardim Novo I. Com o afastamento das três funcionárias, a Secretaria de Educação contratará igual número para suprir a ausência das profissionais. A publicação sairá neste sábado (25) no jornal que traz os atos oficiais da Prefeitura.

A administração da creche também foi orientada a fazer o contato com os demais pais de alunos para explicar o procedimento adotado pela Pasta. “Os principais interessados em preservar a qualidade do atendimento da creche somos nós. Temos um padrão de qualidade que faz com que a comunidade procure – e muito – pelo atendimento”, conclui Paliari.

SANTA CASA

Médico suspeitou de intoxicação e pediu exames

Laudo_1 Laudo_2A Gazeta manteve contato como neuropediatra Renato Sardinha Mantovani, que reiterou o que estava escrito em B.O. (Boletim de Ocorrência). Disse ainda que como a criança não melhorava pediu vários exames, entre os quais, a tomografia e a análise do liquor, porque havia necessidade de investigar o quadro clínico.

O médico esclarece que o medicamento clonazepam/7 -aminoclona permanece por muito tempo no organismo, o que possibilitou a detecção através dos exames também na segunda criança. Ele acredita que, por se tratar de crianças, tenham provavelmente ingerido o remédio em gotas. E, afirma que, de fato, uma dosagem maior ofereceria risco de morte.

Sardinha fez questão de frisar que não aponta os suspeitos nem culpados, pois compete a ele, enquanto médico, investigar o que estava acontecendo do ponto de vista clínico.

HÁ UMA SEMANA

Primeiros atendimentos foram prestados na UPA

Desde sexta-feira (17), a Gazeta acompanha o caso da criança que foi internada na Santa Casa e, depois de exames, confirmada a ingestão de clonazepam. Isto porque, nesta data, a motogirl Tainara Aparecida Tristão dos Santos reclamou da falta de médicos na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), no Jardim Novo II, para atender a filha que não estava conseguindo andar, após ter caído na creche.

reclamacao atendimento ppaA reportagem foi publicada no sábado (18), na qual a mãe relata que, depois de muita queixa, a criança foi atendida e encaminhada para exame de raio-X no Hospital Municipal “Dr. Tabajara Ramos”, que não apontou qualquer problema. Como a filha não melhorava foi dado encaminhamento para internação na Santa Casa, onde a criança passou por uma série de exames.

Tainara acredita, aliás, que isto não seja recente, pois tem observado alteração no comportamento da filha, que está mais agitada, batendo nos amiguinhos da creche e mordendo a si mesma. “Já pode ser sintomas do uso deste remédio”, disse. Ela conta que chegou a ser chamada na creche por conta deste comportamento da filha.

Mãe da outra criança, a dona de casa Jéssica Aparecida Lira Pereira diz não ter observado estas mudanças, mas relata que depois do atendimento na UPA a criança também não parava em pé e levou três horas para melhorar, mas ainda assim dormiu muito. “Ela dormiu às duas horas da tarde, acordou às seis horas, comeu, dormiu às sete da noite e só acordou às seis da manhã”, detalha.          

Desde o ocorrido, as mães não mandaram as filhas para a creche.

 OUTRAS

O caso teve grande repercussão nas redes sociais e algumas pessoas chegaram a mencionar o envolvimento de uma terceira criança. Todavia, vale ressaltar que as autoridades têm conhecimento destes dois casos.

Adilson
Adilson

CONSELHO TUTELAR

Órgão também acompanha o caso

O presidente do Conselho Tutelar, o conselheiro Adilson Cândido de Almeida, explicou que por tratar-se de um caso delicado, oficiou pessoalmente a Secretaria Municipal de Educação, na tarde de quinta-feira (23). O procedimento foi tomado após ter todas as informações pertinentes, entre as quais, laudo médico, explanação das mães e B.Os. (Boletins de Ocorrência).

Segundo o conselheiro, o órgão recebeu a denúncia através da área médica da Santa Casa e cobrou o envio de relatório médico e notificou as famílias a comparecerem ao Conselho Tutelar. “Solicitamos com urgência os esclarecimentos sobre esta grave denúncia que envolve estas duas crianças”, atenta. O caso também será encaminhado ao Creas (Centro de Referência em Assistência Social).

Não oficialmente porque o documento foi entregue na quinta-feira (25), a Secretaria Municipal de Educação informou ao Conselho Tutelar que já havia tomado ações necessárias. “E estamos esperando oficialmente receber as medidas tomadas”, adianta Adilson.

O conselheiro pede que a população fique tranquila e, caso por ventura, tenha algum outro caso que a denúncia seja feita pelo Disque 100 ou pessoalmente na sede do Conselho Tutelar, à Rua Santa Julia, 214, ou ainda pelo telefone 3831.1100.

INQUÉRITO

DDM dará prioridade ao à investigação

A delegada responsável pela DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), Juliana Belinatti Menardo, explicou que irá instaurar inquérito sobre o caso envolvendo as duas alunas da creche cujos exames apontaram o uso de clonazepam.  

Juliana
Juliana

Já no dia em que registraram os B.Os. (Boletins de Ocorrência), ambas as mães saíram da delegacia com o pedido de requisição para levarem as crianças para exames no IML (Instituto Médico Legal). A delegada explica que trata-se de um procedimento que precisa ser adotado, apesar da existência dos exames do Hospital das Clínicas da Unicamp.

Caso o exame do IML não constate a substância no organismo da criança pelo fato de terem passado vários dias da ingestão, o médico perito do IML analisará o documento da Unicamp. “É um procedimento necessário para que tenhamos a materialidade do crime”, explica.

A delegada ressaltou que o caso será tratado com prioridade para dar uma resposta rápida à população.

 

 

Previous post

Funcionário perde o braço ao limpar máquina

Next post

Duas pessoas foram golpeadas com faca durante a semana