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Enchente de 70: a força do Rio Mogi Guaçu

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Fevereiro de 1970. O Centro de Mogi Guaçu completamente debaixo d’água. Medo. Susto. Preocupação. Só quem viveu aqueles dias da trágica enchente de 70 sabe contar o sufoco que é ver as águas do Rio Mogi Guaçu tomando conta das ruas, praças, casas e comércios. O Centro da cidade ficou três dias submerso. Mas até que o rio voltasse ao seu nível normal, muitos moradores na região central e seus comerciantes sofreram com a insegurança de não saber ao certo até quando iria perdurar a agonia trazida por aquela enchente.

Quem passou pelo drama não esquece cada detalhe triste da ‘famosa’ enchente de 70. A mais forte que Mogi Guaçu sofreu, mas também a última naquelas proporções. As centenas de fotos tiradas naquele ano comprovam a força das águas que avançaram a Rua Chico de Paula, derrubaram dezenas de muros na Vila Maria e na Rua São José e quase levaram embora a ponte de pedestres. A cidade ficou sem energia elétrica pelo menos por dois dias, e sem abastecimento de água por quase quatro dias. O então prefeito Waldomiro Calmazini decretou estado de calamidade pública e muitos moradores tiveram que deixar suas casas.

Para isso, botes e barcos levavam as pessoas para bairros mais seguros que estavam livres das águas. Com a região central inundada, a Igreja Matriz protagonizou um fato pitoresco que é confirmado por todos que contam suas histórias sobre a enchente de 70: ao transbordar o Rio Mogi Guaçu não invadiu a igreja. Nenhum pouquinho de água que fosse entrou na Matriz e praticamente nenhuma gota atingiu o lado de fora da igreja. Alguns atribuem o fato ao posicionamento geográfico que ela está explicando que o nível do terreno naquela parte é mais alto do que o restante da Praça Rui Barbosa, o Recanto.

multi enchente sententaMas a maioria defende e acredita que a ‘lenda’ é resultado da proteção de Deus e da fé que o povo guaçuano tinha à Imaculada Conceição. Este mês – fevereiro/2018 – completa 48 anos da trágica enchente que comoveu Mogi Guaçu e deixou lembranças que, atualmente, fazem parte da história da cidade.

CARLÃO CALMAZINI
“Fiquei nervoso e senti muito medo”

 Aos 73 anos, Carlos Alberto Calmazini, o Carlão, lembra perfeitamente o nervosismo que sentiu ao ver a padaria “São Pedro” cercada pelas águas que alcançaram uns 3 metros de altura. O comércio ficava à Rua Tristão Ferreira dos Santos, nº 21, no Centro. Os 15 degraus da escada que davam acesso à residência ficaram encobertos. Embora as águas não tenham entrado na padaria, o comércio ficou fechado por três dias, sem condição nenhuma de abrir as portas antes da água baixar. “Ficamos três dias ilhados. Eu e minha família. Meu pai era o prefeito naquela época, e sofreu muito de ver toda aquela situação e não tinha muito que fazer. A Prefeitura doou vários botes para as pessoas saírem de suas casas. Sentiu muito medo, confesso”, conta Carlão.

Carlos lembra que o bueiro na Rua Apolinário era o termômetro que indicava o início das enchentes
Carlos lembra que o bueiro na Rua Apolinário era o termômetro que indicava o início das enchentes

Ele lembra que naqueles dias de fevereiro, em 1970, estava muito chuvoso. Inundações pequenas eram constantes no trecho onde morava e também na Rua Apolinário. Mas estava acostumado com a situação nunca havia transformado a rotina dele e dos demais moradores como fez a enchente de 70. “A Rua Apolinário era a primeira que enchia. Até hoje ela ainda sofre com isso. Mas as águas do rio vinham, inundavam alguns pontos do Centro, mas horas depois já baixavam. Então, em 1970, eu estava certo que seria do mesmo jeito. Não esperava que fosse acontecer todo aquele transtorno”, observou.

Carlão conta que no meio da tarde o Rio Mogi Guaçu estava bufando e a correnteza era muito forte. As notícias que vinham pelo rádio informavam que as chuvas eram intensas em Minas Gerais e isso preocupava demais. “Porque a chuva que descia de Minas acumulava com as chuvas que caíam aqui e o rio está bravo! Era uma barbaridade o tanto que o nível do rio subiu naquele dia. Daí, comecei a ficar preocupado, porque a água começou a subir muito rápido em volta da padaria”.

Na ocasião, o caminhão Mercedes estava na garagem e Carlão, até então, se recusava a tirá-lo de lá acreditando que a inundação seria igual das outras vezes: logo baixaria. “O caminhão estava carregado com o estoque de farinha e quando percebi que a água só subia, não teve jeito. Sai de casa com a água pela cintura e tive que tirar o caminhão no meio da água. Foi uma loucura!”, pontuou.

À época, o forno para assar os pães era à lenha, e a correnteza que tomou conta de algumas ruas centrais arrastaram vários pedaços de lenha. “Era muita lenha boiando. Também tinham várias canoas que percorriam a enchente tentando ajudar de alguma forma, principalmente a tirar as pessoas das casas, móveis, e até por curiosidade mesmo para ver de perto como estava a inundação em algumas ruas”.

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Não houve mortes, durante os dias de enchente, mas Carlão frisa que a correnteza que vinha, principalmente, pela Rua XV de Novembro era muito forte e amedrontava só de olhar. “Graças a Deus, os prejuízos foram só materiais. A padaria que eu tinha ficou sem vender nada durante uns quatro dias, mas ninguém se feriu gravemente e nem houve mortes por causa da enchente”.

Para Carlão, a enchente de 70 foi um aprendizado sobre a força da natureza, que deixou marcas na história de Mogi Guaçu e também na história da família Calmazini. “A rapidez com que a água do rio subiu e transbordou foi impressionante. Ninguém esperava. E ter o meu pai como prefeito daquela época trazia duas preocupações: a enchente em si com todos os transtornos e ainda o fato de ver meu pai sofrendo com tudo aquilo sem ter muito que fazer para amenizar a situação. Mas passou, graças a Deus!”, finalizou Carlão.

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AMAURY COLOMBO

“Tivemos que ficar abrigados na Capela”

O bairro da Capela foi o destino da família de Amaury Colombo, durante os dias que a enchente tomou conta do Centro de Mogi Guaçu. Acompanhado dos pais, Amaury ficou na casa de parentes que residiam na Capela. Ele recorda que relutou muito para deixar sua residência que fica à Rua Sargento Aviador Osvaldo Fernandes. “A gente não queria sair daqui de jeito nenhum. Só fomos ceder quando vimos que a água do rio começou a chegar à nossa porta e entrar. Daí não teve jeito. Inclusive, o Padre Longino era nosso vizinho e foi o último morador a deixar a casa. Ele foi conosco para o bairro da Capela”, contou Amaury.

Ele diz que cerca de 30 pessoas foram transportadas numa perua Kombi – que fez várias viagens– e foi dentro dela que a família de Colombo passou dormindo praticamente duas noites até poderem retornar para casa. “Não tinha onde ficar à noite. Então, nós dormimos dentro da perua. Não foi fácil. Ficamos bastante assustados”, disse Amaury.

Amaury mostra a foto de seu pai ao lado de um amigo no meio da enchente, em 1970
Amaury mostra a foto de seu pai ao lado de um amigo no meio da enchente, em 1970

O comerciante ainda mora na mesma casa onde a enchente tomou conta, em 1970. Nas paredes da residência ainda é possível ver as marcas deixadas pelas águas, que subiram cerca de 1 metro e meio de altura. “Foi um horror! Quando voltamos para casa tivemos a noção da quantidade de barro que tivemos de retirar com a enxada. Tinha muito barro. Sem contar com as cobras, peixes mortos, aranhas, garrafas que encontramos dentro e fora de casa trazidos pela enchente”, contou Amaury ressaltando que demoraram meses para de fato concluir a limpeza da casa.

Ele ressaltou que, naquela época, já havia notícias falsas que assustavam os moradores. Uma delas foi dada no rádio e informava – erroneamente – que a represa de Socorro/SP iria estourar por não suportar o volume de água das chuvas. “Quando a gente ouviu essa notícia, não sabíamos que era falsa. Foi uma correria, porque todos pensavam a mesma coisa: se o Rio Mogi Guaçu já subiu tudo isso, imagine se essa represa transbordasse?”.

O medo que vivenciou naquela ocasião não deixou traumas em Amaury, mas ele confessa que ainda sente certa agonia ao recordar os momentos de tensão que passou ao lado da família vendo de perto as águas do Mogi Guaçu subir rapidamente e ir tomando conta de todo o Centro. “Com exceção da Igreja Matriz. Nela a água não chegou. Cada um diz um motivo para este episódio, mas posso dizer que vi de perto. A água não atingiu a igreja”, pontuou.

Ele conta que a correnteza que descia pela Rua XV de Novembro, vindo da Praça Padre Armani era assustadora porque era tão forte que parecia uma cachoeira. “Desde o barulho que ela fazia até a imagem das águas descendo lembravam perfeitamente uma cachoeira. A gente ouvia os móveis que boiavam nas águas batendo com força nas pilastras da ponte. Também recordo do gado morrendo afogado e boiando nas águas. Uma judiação”, lamenta.

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Além das lembranças do que viveu durante a enchente de 1970, Amaury também guarda poucas fotos registradas naquele episódio. Numa delas, está o senhor Hélio Colombo, pai de Amaury, ao lado do carteiro Écio Martinelli. “Eles vinham ver se as águas estavam baixando para saber se poderíamos voltar logo para casa. Mas demorou alguns dias para que toda a água recuasse para o Rio Mogi Guaçu”, comenta frisando que algumas pessoas chegaram a fazer vigília próxima a ponte de pedestres temendo que ela caísse. “Porque o nível da água subiu tanto que faltou muito pouco para encobrir a passagem na ponte. Todos estavam com medo de ela cair”.

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