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Emílio Pedrini: um homem à frente do seu tempo

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Em uma pasta polionda azul, Marilene Pedrini Goda, a Tica, 72 anos, guarda recortes de jornal que, entre outros assuntos, traz relatos do avô Emílio Pedrini. Lá também estão os santinhos impressos por ocasião do falecimento em 7 de outubro de 1969, aos 92 anos, e as lembrancinhas das bodas de ouro e de diamante. Mas, infelizmente, não há fotos do avô. O único exemplar perdeu-se em meio às andanças do tempo, quando não retornou de um dos empréstimos para um trabalho escolar.

Mas a neta tem vivos na memória fatos do avô que era considerado um homem à frente do seu tempo. “Pioneiro nato, Emílio revolucionou a velha Moji com suas inovações, seu espírito alegre e com sua coragem”, traz trecho da reportagem publicada no extinto jornal “O Guaçuano”, edição de 12 de outubro de 1969. Na reportagem há relato do que fez Emílio ser considerado um pioneiro. Foi ele quem teve o primeiro rádio, assim como ferro elétrico, a bicicleta, a lancha a motor e, claro, um automóvel. O Ford Bigode era atração por onde passava.

Tica lembra quando o avô saía de bicicleta e levava consigo sempre um exemplar de jornal. O tabloide era enrolado em forma de canudo e acomodado no guidão. “Acredito que era uma mania”, analisa. Mas a marca registrada de Emílio era a boina, o acessório era companheiro de todas as horas. E havia os óculos em lentes verdes escuras que a neta não sabe se tratavam de lentes corretoras ou de sol.

ford bigode modelo identico ao de Emílo PedriniEste mesmo recorte de jornal sobre a morte de Emílio traz a informação de que ainda menino, ele vendia sorvetes percorrendo diariamente as ruas de Mogi Guaçu. Era a forma que o garoto tinha de ajudar a família. Ao contrário dos que muitos pensam, ele não era italiano, e, sim, austríaco. Veio da Áustria aos oito anos de idade com o pai Lummerato e duas irmãs, Pascoalina e Ana que foram casadas com Carlos Zabordi e Domingos Meneguelli. No Brasil, já vivia outro irmão José Pedrini.

Emílio cresceu e aproveitou o espaço da propriedade em que morava para abrir alguns negócios. O amplo terreno fazia frente para a Praça Rui Barbosa e fundos para a atual Praça Padre Armani (à época, inexistente). Na área, atualmente, está uma agência bancária e também uma loja. Ali, ficavam o Bazar Pedrini e o Restaurante Peixada Pedrini. Nos fundos, a casa da família, onde ele também tinha quartos de aluguel. Em um destes cômodos morou por anos Sebastião, funcionário criado como filho.

Tica se recorda mesmo era de um espaço neste terreno onde o avô fazia uma “arte”. “Ele soltava um porquinho pra molecada pegar sobre patins”, relata aos risos. No entanto, ela diz que o avô era sistemático, porém de bom coração. Dono do Cine Pedrini, ele esperava ver se todos os lugares seriam ocupados e, depois de alguns minutos do início da sessão, chamava a meninada que não tinha dinheiro para pagar o ingresso. A felicidade era geral!

 cine_pedrini

NOVAS IDEIAS

Pedrini construiu o cinema em 1914 ainda nas dependências de sua propriedade. Anos depois, adquiriu o Cine República que ficava na esquina das Ruas Apolinário com a Rua Capitão Antonio Gonçalves Teixeira, Centro, sendo o que manteve em funcionamento.

Mas, ao contrário do que todos pensam, Mogi Guaçu havia tido outro cinema, conforme relato de Ricardo Artigiani no livro “Mogi Guaçu Três Séculos de História”. “A vila, por não gozar dos melhoramentos de eletricidade, somente teve seu primeiro cinema no ano de 1912. O primeiro cinema chamava-se Cine Recreio, pertencia à firma Ricci & Ribeiro e estava localizado na rua da Estação, hoje Siqueira Campos….”.

cine pedriniNo intervalo das sessões de cinema, Emílio fazia pastéis para vender e, enquanto não vendesse todos os quitutes, a sessão não recomeçava. (Sim, havia uma parada para rebobinar o filme). E, mais uma vez, ele mostrava seu espírito empreendedor, pois acolhia os bebês dos casais de amigos quando iam ao cinema.

“A dona Emília e seu Luiz gostavam muito de ir ao cinema e os filhos ficavam em cima da cama da minha avó. Os bebês ficavam um ao lado do outro, numa fileirinha”, diz Tica. Ela se refere ao casal Emília Marchi Martini e Luiz Martini, os proprietários da Cerâmica Martini. E foi numa destas ocasiões que houve uma troca temporária de bebês. “Seu Luiz acabou levando um filho do meu avô. E só se deu conta disso quando estava no caminho e olhou para o bebê”, diverte-se a neta. Bebês destrocados, o casal seguiu caminho e os Martini e os Pedrini ficaram com mais esta história para contar.

Apesar de muito pequena, Tica se recorda de quando chegava ao cinema e era “barrada” pelo avô, que fazia de conta que não a conhecia. Ele sempre repetia a mesma brincadeira. Perguntava quem ela era. “Eu respondia, sua neta!”, diz. E, de novo, outra pergunta: – Filha de quem? . Depois que a pequena falava que era filha de Wilson, filho de Emílio, a entrada era franqueada.

Nos anos 60, Emílio construiu um prédio moderno em sua propriedade, onde ficava o restaurante, abrindo outro cinema, surgia o Cine Pedrini. O local acabou também se tornando atração regional. 

emilio pedrini multi

EMPREENDEDOR

Tino comercial aguçado

O Bazar Pedrini era uma espécie de loja de rede daquelas que vendem de tudo um pouco, de aliança de ouro a saco de cimento, passando por linha, vara, serpentina e brinquedos. “O que mais me marcou foi uma boneca que tinha um vestido comprido, mas era duas em uma. De um lado uma boneca branca e, quando era virada, aparecia uma boneca negra”, detalha Tica comentando que o avô não era muito de dar presentes. Só mostrava aos netos as novidades que chegavam ao bazar. E eram muitas!

Tica
Tica

“Em sua loja, casais de noivos compravam desde aliança e depois de casados, na velha e magnífica matriz da Praça Rui Barbosa, davam festas em seu estabelecimento”, traz outro trecho da reportagem de “O Guaçuano”. A festa era realizada no Restaurante e Peixada Pedrini, outro sucesso assinado por Emílio Pedrini. A peixada era tão famosa que atraía visitantes das cidades vizinhas. O enorme fogão à lenha era comandado pela esposa dele, Catarina Armani Pedrini que tinha ajudantes, segundo explica Tica. Um dos funcionários era Sebastião, o inquilino, criado como filho pelo casal. Para Emílio cabia a tarefa de gerenciar. “Ele não parava, ficava de um lado para outro”, pontua a neta.

Como o bazar ficava ao lado do restaurante, a loja nem sempre estava aberta. Os produtos podiam ser observados por uma tela que Emílio havia providenciado. Mas a clientela sabia que bastava ir ao restaurante e pedir para o proprietário abrir a loja e realizar a venda. As novidades eram trazidas diretas da Capital para Mogi Guaçu, por isso, o Bazar Pedrini fazia tanto sucesso. “Imagine, naquela época, ir pra São Paulo fazer compras! Devia ser uma aventura. E ele ia e trazia muita coisa”, observa Tica.

O lazer da época era sentar nas cadeiras das mesinhas do restaurante e apreciar a banda tocar. Afinal, o estabelecimento tinha vista privilegiada para o coreto da Praça Rui Barbosa. E, quando não tinha banda, o passeio era o mesmo para um tradicional bate papo. Foi também ali, em frente ao restaurante, que houve a inauguração do sistema de água encanada da cidade pelo prefeito Altino Martini, filho do amigo Luiz Martini com quem Emílio saía para caçar na Fazenda Campininha.

 bazar pedrini

FAMÍLIA

A mulher de Emílio, Catarina Armani era sobrinha de padre Giuseppe Armani, o pioneiro da indústria cerâmica guaçuana. O casal teve os filhos Albertina, casada com Francisco Alves Pereira; Olga, casada com Waldomiro Caveanha; Osvaldo, solteiro; Wilson, casado com Nair Galhardoni; Guilherme, casado com Luiza Gonçalves; Célia, casada com José Silveira Bueno; Maria, casada com Oscar Chiarelli Filho; Humberto, casado com Lazarina da Costa; Carmela, casada com Luís Marchesi e Armando, solteiro, e Enedine, casada com Manoel F. dos Santos.

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