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Eles entram em cena quando a luz vermelha acende

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Os semáforos de Mogi Guaçu já não são mais os mesmos. Os artistas de rua e de circo têm mudado o cenário dos principais pontos de parada de veículos da cidade, principalmente na área central.

O que antes era apenas observado em grandes cidades e capitais brasileiras, agora já é uma realidade na rotina dos guaçuanos que hora ou outra assistem às apresentações feitas quando o semáforo está vermelho.

Inclusive, você já deve, certamente, ter prestigiado um pouco da arte dos artistas de rua. E as habilidades são inúmeras.

Eles fazem malabarismos com claves, sem e com fogo, com bolinhas e até mesmo com facões. Além disso, se equilibram em monociclos e interagem com o público. E quando a manobra não dá certo, eles pedem desculpas e já revelam no semblante que nem merecem receber aquela contribuição que buscam dos motoristas e até mesmo dos pedestres.

pedro paulo artista de ruaE não importa o dia. Faça sol, chuva ou frio, eles estão lá, nos semáforos onde escolheram para usá-los como palco e com muita criatividade atingir os próprios objetivos levando um pouco de alegria num curto momento de espera.

Mas, afinal de contas, será que é apenas o dinheiro que motiva um artista de rua? O que mais pode levá-lo a exercer uma atividade no meio da rua? E quais histórias de vida podem ter escondidas atrás do rosto de um palhaço? A Gazeta conversou com um artista circense que se apresenta no Centro de Mogi Guaçu e ele revela uma história, no mínimo, curiosa.

“PALHAÇO ESQUILO”

Quando o semáforo se torna o picadeiro

Um motociclista para no sinal fechado e com um sorriso no rosto faz um pedido especial para o Palhaço Esquilo, que se apresenta no semáforo da Rua XV de Novembro, no Centro de Mogi Guaçu. Atendendo ao pedido de seu público, o artista exibe com alegria todo seu equilíbrio em cima de um monociclo e assim os trinta segundos de espera pelo sinal verde ganham uma pitada de magia.

Faz um ano que o artista circense Pedro Paulo Pereira de Paula, 30 anos, faz da faixa de pedestre das ruas o seu próprio picadeiro. Quem por ali passa já está familiarizado com o palhaço que demonstra suas habilidades no malabarismo em troca de qualquer valor em dinheiro ou simplesmente em troca de um aplauso.

O jovem conta que o dia a dia no ponto onde escolheu para se transformar no Palhaço Esquilo é bem tranquilo, apesar de alguns desafios. “Como eu sou daqui, de Mogi Guaçu mesmo, as pessoas me tratam muito bem. Mas, às vezes, é claro, eu sou alvo de pessoas preconceituosas que mandam, por exemplo, eu ir trabalhar. Já me apresentei em outras cidades também, onde eu era totalmente rejeitado e mal pago”.

pedro paulo artista de rua

Não se importando com o pensamento da minoria, Pedro Paulo acredita que o maior desafio que ele tem é com relação aos treinos que precisa fazer para não perder a precisão dos movimentos que faz com as claves no malabarismo. “A dificuldade maior é porque o que eu faço é muito repetitivo. Em cada parada do semáforo eu faço oito jogos diferentes com as claves, ou seja, eu faço a mesma coisa mais de 5 mil vezes a cada hora e não posso fazer feio. Isto requer muito treino!”.   

Mas ele garantiu que todo o esforço vale à pena. “No mínimo, eu ganho R$ 20 por hora. Essa última semana cheguei a ganhar R$ 72 em três horas de trabalho e quando não me pagam vale pelos aplausos que recebo”.

pedro paulo artista de ruaPedro Paulo explicou que o dinheiro que ganha é para uso próprio. “Eu moro com meus avós, que são aposentados, e graças a Deus dentro de casa não nos falta nada. Eu uso o meu dinheiro comigo e com os meus equipamentos. Uma clave custa, em média, R$ 150 e ela dura anos. Porém, às vezes, estraga. O monociclo que eu tenho custou R$ 550 e eu também tenho gastos com os produtos de maquiagem, que me transformam no Palhaço Esquilo”.

Além de se apresentar no semáforo da Rua XV de Novembro, o artista também faz animações e recepções em festas. “Se eu for contratado e ganhar transporte e alimentação, eu cobro cerca de R$ 50 por hora”, contou

POR TRÁS DO ESPETÁCULO  

Criado pelos avós, Pedro Paulo ficou longe da mãe por 26 anos

Mas qual história de vida esconde um artista que se expõe todos os dias entre um sinal fechado e outro? Uma trajetória incrível que assim como o seu trabalho foge de tudo aquilo que nós, meros seres humanos, estamos acostumados a viver.

Pedro Paulo nasceu em 1989, em Brasília, na capital federal. Quando tinha apenas três anos de idade, os avós paternos, responsáveis por sua criação, resolveram se mudar para Mogi Guaçu, cidade onde ele foi criado e vive até hoje, no Jardim Itamaraty, na Zona Sul. “Aqui eu fui criança, adolescente, fui para a escola, joguei bola, depois trabalhei em uma empresa de calhas, enfim, vivi minha vida”, recorda.

O jovem, que até hoje mora com os avós, explicou porque não foi criado pela mãe, em Brasília. “Ela bebia muito. Tinha vários problemas com o álcool. Minha avó ficou preocupada e quando decidiu vir embora para cá me trouxe junto”.

pedro paulo artista de rua

Mas o que vem por aí é surpreendente! Pedro Paulo revelou que faz apenas cinco anos que conhece a mãe. “Uma rede de televisão me achou aqui, em Mogi Guaçu, e disse que a minha mãe estava me procurando há 26 anos. Eu fiquei impressionado e muito feliz ao mesmo tempo, porque eu não guardava nenhum rancor dela. Muito pelo contrário, eu também tinha este sonho de conhecer minha mãe”, admitiu o artista com toda sua sensibilidade.

Por incrível que pareça, o rapaz ficou com vergonha de gravar a reportagem mostrando o encontro dele com a mãe, mas não dispensou a oportunidade e foi, sim, encontrar e conhecer a mulher que o gerou. “Eu agradeci todo o contato que a televisão fez comigo. Conheci primeiro a minha mãe pelo telefone, ela é igualzinha a mim, trocamos mensagens e depois por conta própria eu fui conhecê-la, em Goiânia. Foi fantástico!”, revelou o artista.

Pedro Paulo, então, morou com a mãe e mais duas irmãs na capital goiana por oito meses e, em seguida, voltou para Mogi Guaçu, quando pouco tempo depois soube de um novo fato que mudaria de vez sua vida. “Depois soube que minha mãe encontrou outra filha que ela também procurava já fazia 14 anos, aí eu voltei para Goiânia para conhecer essa minha nova irmã”.

pedro paulo artista de ruaDona Deuzirene, mãe de Pedro Paulo, teve mais uma alegria ao encontrar a filha Dalila, que na infância foi adotada por um casal. Os pais adotivos da menina são donos do circo Laheto, de Goiânia. O circo trabalha com projetos sociais para crianças carentes desenvolvendo um trabalho tão reconhecido que já foi selecionado para participar do projeto “Criança Esperança”, da Rede Globo.

E, assim, de uma forma improvável, o circo entrou na vida de Pedro Paulo. “Minha irmã Dalila me fez a proposta de morar no circo e fiquei por lá durante quatro anos até me formar”, contou.

Já formado na escola de circo Laheto, em janeiro de 2018, Pedro Paulo com saudades dos avós resolveu voltar para Mogi Guaçu, mas, dessa vez, para ficar definitivamente. “Eu já cheguei aqui com esta ideia de me apresentar nos semáforos, já que no Guaçu não era muito comum essa prática. Então, seria uma novidade e eu estaria fazendo aquilo que mudou a minha vida”.

Pedro Paulo ainda relatou que, graças ao circo, também conseguiu vencer o vício que tinha em drogas. “Quando eu fui conhecer minha irmã eu estava pesando 50 quilos. O circo é tudo para mim! Com ele aprendi a ter disciplina, respeito, concentração e voltei para cá sendo o Palhaço Esquilo. Este personagem me dá muita alegria, além disso, eu queria estar perto da minha avó. Afinal, devo toda obrigação a ela”, reconhece o artista.

Questionado sobre os planos que tem para o futuro, Pedro Paulo garantiu que a única pretensão é exercer as artes do circo para o resto de sua vida.

 

pedro paulo artista de rua

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