Home»Caderno Multi»Consciência Negra: Mogi Guaçu engatinha rumo à igualdade

Consciência Negra: Mogi Guaçu engatinha rumo à igualdade

0
Shares
Pinterest WhatsApp

O título acima pode soar exagerado, mas Mogi Guaçu é uma cidade preconceituosa, conforme afirmam as integrantes da Acag (Associação  Cultural Afro Guaçuana) Valéria Maria de Abreu, 49, e Wilmara Santos 64. E depois de um bate-papo com estas mulheres sobre as histórias que levam a esta afirmação só resta torcer para que as ações da entidade ecoem e, desta forma, caminhem rumo à igualdade.

E não há outro caminho para superar o preconceito senão a educação. Embasadas em fatos e com sede de ações é que caminha a Acag que já completa 30 anos. Sob a liderança do fundados da Acag, Agenor de Abreu, falecido este ano, as amigas Valéria e Wilmara foram à busca de informações e de formação.

Agora, caminham pela estrada aberta pelo fundador com o propósito de escrever novos capítulos desta história.

ACAG

Através da informação, entidade busca acabar com o preconceito

Ser discriminado pela cor da pele ou pelo tipo de cabelo. Pode parecer situações surreais em pleno século 21, mas são mais corriqueiras do que pensamos. Imagine como se sentiria ao saber que foi preterido numa seleção de emprego por ser negro ou ainda ter sido aprovado numa seleção e ver outro sendo chamado para assumir seu posto. Estas duas histórias foram vividas por familiares da vice-presidente da Acag, Valéria Maria de Abreu (professora) e a secretária Wilmara Santos (funcionária pública aposentada). Como ensinaram às vítimas do preconceito a lidarem com a situação? Segundo elas, conversando, destacando que não podem baixar a cabeça e que ninguém pode ser diminuído pelo outro seja qual for situação a ser enfrentada.

Como mulheres negras e vencedoras nas profissões que abraçaram, elas já se veem colhendo os frutos que plantaram, mas não podem desistir de semear. Para Valéria, a luta dos negros ainda é longa e passa por várias esferas, inclusive a saúde. “Somos mais resistentes, temos um organismo forte e muitas doenças podem demorar a ser diagnosticas, mas os médicos ainda não têm esse olhar”, exemplifica.

Wilmara diz que Mogi Guaçu sempre foi uma cidade preconceituosa. E é enfática ao afirmar que o preconceito é velado, ao contrário do racismo. Assim, o preconceito se faz quando não há justificativa para esclarecer o porquê de não dar a vaga de emprego para a candidata negra. O racismo se faz presente quando se afirma à candidata que o perfil buscado para loja é de mulheres brancas e com os cabelos lisos. “Isso existe. Sempre existiu”, afirma.

Sobrinha de Agenor de Abreu, Valéria analisa que o tio foi abrindo o caminho ao qual estão caminhando e, agora, cabe à nova diretoria – e às próximas – intensificar as ações, trazendo novo fôlego à Acag. Como vice- presidente, ao lado do presidente, o advogado Emerson Adagoberto Pinheiro – que reside em Americana – e dos demais membros, ela diz que a proposta é lutar para que os negros guaçuanos não precisem sair da cidade para serem reconhecidos.  “São muitos os que foram embora porque não tinham vez aqui”, afirma.

Wilmara reforça a colocação e conta orgulhosa dos eventos que tem participado, ampliando seus conhecimentos e possibilitando fazer com que ajude também à Acag. “É maravilhoso podem compartilhar. E só a educação pode nos ajudar a mudar este cenário de preconceito”, acentua adiantando estar certa de que as gerações podem, sim, ter outro comportamento.

Em busca deste novo posicionamento, ou seja, da extinção do preconceito e do racismo é que caminha a Acag. Este ano, o Dia da Consciência Negra, por exemplo, está sendo lembrado com uma série de atividades que começaram no início deste mês e se estendem até o dia 22, passando por palestras, apresentações culturais, bate-papo e o Baile Pérola Negra.

 

SEDE PRÓPRIA

Outra meta da Acag é buscar pela sede própria. Afinal, depois de 30 anos ainda não conta com espaço para a realização de reuniões, eventos ou até mesmo cursos. A diretoria pretende pleitear este espaço contando com o apoio da sociedade em geral.

SÉCULO 18

Negros não frequentavam a mesma igreja dos brancos

No século 18, os negros não frequentavam a mesma igreja que os brancos. O cenário se repetia em todo o país e, em Mogi Guaçu, não era diferente. Havia a Irmandade do Rosário dos Homens de Cor. A primeira igreja da Capela, portanto, foi erguida por grupo vinculado a esta irmandade. Aliás, a devoção a Nossa Senhora do Rosário começou com os escravos que também eram devotos de São Benedito.

De acordo com o relatado no livro “Mogi Guaçu – Três Séculos de História”, escrito por Ricardo Artigiani, a igreja erguida pela Irmandade do Rosário dos Homens de Cor era de taipa e no estilo barroco português. E calcula-se que tenha sido construída por volta do ano de 1820. Foi demolida em 1917. Com isto, o bairro da Capela ficou sem igreja até 1927, sendo outra inaugurada em 1929. Em 1963, a estrutura foi mais uma vez demolida e começou a construção do atual Santuário de Nossa Senhora do Rosário.

Artigiani relata ainda que em 1922, por ordem municipal foi proibido o samba ou batuque que se realizava todos os anos, sempre no dia 13 de maio, em comemoração à libertação dos escravos, datada de 1889. A festa acontecia atrás da Igreja Matriz de Imaculada Conceição. Os negros acendiam fogueira e o batuque se estendia pela madrugada. Não há relatos detalhados dos motivos desta medida tomada pela Administração Municipal. À época, a cidade era administrada por Agenor de Carvalho.

ZUMBI

Grande símbolo nacional da resistência dos negros

Da Redação

O Dia Nacional da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro, a data faz alusão à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, morto em 1695 durante o período colonial (1500 a 1822). .

Zumbi nasceu no Quilombo e lutou pela libertação dos escravos, tendo sido responsável por diversas rebeliões. A abolição oficial da escravatura só se deu aproximadamente 193 anos após a sua morte, em 13 de maio de 1888.

O dia de sua morte foi relembrado por ativistas do movimento negro por mais de 30 anos, sendo um tema muito debatido durante a década de 1970 e 1980. Porém, a data só foi oficializada em 2011, quando passou a ser celebrada em mais de mil cidades brasileiras.

 

Previous post

Projetos ‘empacam’ e cobrança aumenta na Câmara

Next post

Tome Nota da edição de sábado, dia 16