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Como gerações diferentes usaram a argila

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Historiador por acaso. Foi assim que começou a trajetória de pesquisa na vida de José Edson Franco de Godoy, descendente de uma das famílias mais antigas de Mogi Guaçu. Embora guarde muitas lembranças em fotos e documentos da sua família e da família da esposa Vera Martini Franco de Godoy, tudo começou com o barro que transformou não só a vida dele, mas também de Mogi Guaçu.

Certo dia, o amigo Mauro Travaglia o chamou para ver alguns pedaços de cerâmica que achou no terreno do rancho, às margens do Rio Mogi Guaçu, no bairro Cachoeira de Cima. “Eram peças diferentes, pintadas. Procurei saber o que representavam e descobri que eram peças indígenas. Peças corrugadas (amassadas com o dedo) e onguladas (desenhadas com unhas). Comprei o terreno e meti a mão no enxadão”, brinca ao se lembrar daquela época, em 1979.

Sem conhecimento técnico, mas com muita vontade de encontrar tesouros históricos, José Edson foi vasculhando os 4 mil metros de área. Um dos achados foi marcante. Ele conta que iria construir um imóvel e pediu para os pedreiros terem atenção e o chamarem caso encontrassem algo. Ainda era de manhãzinha quando um dos operários, esbaforido, chegou de bicicleta dizendo que ele precisava ir ver o que parecia ser algo grande e fundo.

José Edson mantém em sua casa uma das Igaçabas encontradas em seu terreno
José Edson mantém em sua casa uma das Igaçabas encontradas em seu terreno

José Edson, então, foi escavando em volta. Começou cedo e só terminou à noite. Era uma igaçaba, usada também como urna funerária pelos primeiros habitantes de Mogi Guaçu. Os mortos eram colocados de cócoras dentro da cerâmica que era fechada e enterrada. Somente no terreno do senhor José Edson foram desenterradas cinco igaçabas. Duas, inclusive, foram doadas ao Museu Municipal.

Atualmente, na região onde hoje está localizado o terreno de José Edson fica também a Faculdade Municipal “Professor Franco Montoro”. O local foi demarcado por pesquisadores como sítio arqueológico “Franco de Godoy” ou Barragem, em pesquisas arqueológicas associadas ao licenciamento ambiental para a construção da PCH (Pequena Central Hidrelétrica).

Na década de 80, pesquisadores do setor de Arqueologia do Museu Paulista da Universidade de São Paulo e de outras universidades, assim como outros arqueólogos, estiveram em Mogi Guaçu para identificar o que eram aquelas peças cerâmicas na linha do tempo e da história.

Foram identificados, em Mogi Guaçu, mais quatro sítios arqueológicos. No Distrito de Martinho Prado Júnior, o sítio foi denominado “Ponte Preta”. Há ainda o Sítio Ipê e o Sítio Jardim Igaçaba. Este último, infelizmente, não pode ser escavado como deveria. “Quando os arqueólogos chegaram estava tudo destruído, resgatamos poucas coisas. Estava tudo quebrado”, relembra José Edson com tristeza.

Ele também conta que na época da formação do bairro Jardim Igaçaba, que levou o nome das Igaçabas, os operários receberam ordens para continuar os trabalhos com maquinários pesados, e não esperar a chegada dos arqueólogos. Ainda houve pressão para que os pesquisadores fossem embora logo, a fim de que a obra de formação do bairro não fosse atrasada ou embargada. Até tembetás foram encontrados por lá, que são ornamentos labiais confeccionados com madeira ou rocha usados até hoje por diferentes etnias indígenas.

José Edson e a esposa Vera
José Edson e a esposa Vera

RUMO ÀS CERÂMICAS

Terra dos índios

 Foram encontrados mais de 400 fragmentos cerâmicos, como pratos e vasilhas, além das igaçabas. Estas descobertas mudaram a vida de José Edson, hoje com 78 anos. À época, ele teve a ideia de criar um museu próprio. “Para que todos soubessem que aqui, em Mogi Guaçu, tínhamos índios”.

Parte da residência dele e da esposa foi transformada em museu. Nele há uma igaçaba e parte dos fragmentos encontrados nas escavações, inclusive, ossos e dentes que restaram dentro de algumas igaçabas.

A descoberta despertou o desejo por aprender cada vez mais e José Edson buscou estudar Arqueologia. As pesquisas definiram que o local foi ocupado por uma aldeia de tradição tupi-guarani.

multi especial jose edson franco godoyO uso indígena do Taguá (uma espécie de argila) fez com que José Edson fizesse a ligação no tempo com a formação das empresas cerâmicas que existiram em Mogi Guaçu e deram à cidade o título de “Capital Cerâmica”, uma vez que há grandes reservas desse material no solo. Até mesmo, segundo José Edson, na região rural da Roseira, Cachoeira de Cima e Urutuba, próximo a Estiva Gerbi.

José Edson foi, então, criando na sua casa outra parte do museu, no qual é mostrado esse passado mais recente. Ele tem alguns tijolos fabricados pelo padre José Armani, que foi o precursor nesse ramo. “Ele viu que o barro era bom, que seria ideal para fazer telhas e tijolos”.

Depois vieram outras famílias de italianos que o padre, também italiano, convidou para vir morar em Mogi Guaçu. José Edson lembra que as telhas fabricadas na cidade cobriram os telhados das 120 estações de trem da Companhia Mogiana em todo o Estado de São Paulo.

José Edson guarda, reproduzido num banner, uma propaganda da Cerâmica Martini na qual algumas índias estão confeccionando manilhas. À época, a fábrica queria comprovar a tradição natural guaçuana na produção de artefatos cerâmicos, como tijolos, telhas e até formas de madeira daquela época áurea. “Queria entender o porquê do barro? Isso depois que achei a primeira Igaçaba”.

multi especial jose edson franco godoy

José Edson lamenta que a história de Mogi Guaçu seja pouco tratada e valorizada pelo Poder Público. “Porque a história que tenho dentro da minha mente sumiu quase tudo. Penso que quando a gente se for, quem vai continuar e cuidar deste acervo tão rico da nossa história?”, questionou.  

Para quem quiser conhecer o museu “Franco de Godoy”, ele fica aberto à visitação de estudantes e as visitas podem ser agendadas pelo telefone (19) 3861-0222.

 

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