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Capela: Devoção religiosa começou com escravos

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Há muitos guaçuanos ou moradores de Mogi Guaçu que apreciam a história da cidade. Algumas destas pessoas, vez ou outra, divulgam imagens e fatos pelas redes sociais. Um destes apreciadores da história é o secretário de Cultura, Luiz Carlos Ferreira, que recentemente postou imagens da antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Capela, e outra que se pressupõe assemelhar-se à construção que a antecedeu. Com estas iniciativas, as memórias vão ganhando as redes sociais.

O que muitas pessoas talvez desconheçam é que a devoção a Nossa Senhora do Rosário começou pelos escravos negros que também eram devotos de São Benedito. No entanto, no século 18, os negros não frequentavam a mesma igreja que os brancos. Havia a Irmandade do Rosário dos Homens de Cor. A primeira igreja da Capela, portanto, foi erguida por grupo vinculado a esta irmandade.

Mais tarde, a antiga igreja foi demolida e deu espaço a uma construção menor que também não existe mais, pois foi demolida faz mais de 100 anos.  É no lugar desta igreja, que foi construída o atual Santuário de Nossa Senhora do Rosário.

imagem_rosário3N.S. DO ROSÁRIO

Imagem original está sendo restaurada

Em 1884 epidemias de varíola e febre amarela atingiram Mogi Guaçu, causando muitas mortes. Foi então que um grupo de lavadeiras, numa atitude de fé, fez a promessa de comprar uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, pedindo a Deus que debelasse aquelas enfermidades. As epidemias cessaram e o voto foi cumprido.

Uma imagem de nossa senhora do Rosário veio de Portugal e até hoje se encontra na igreja. Atualmente, está sendo restaurada. No ano de 1977, a igreja da Capela ganhou a denominação de Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. À época, a cidade contava apenas com a igreja de Imaculada Conceição, no Centro. A elevação à paróquia foi concedida pelo bispo Dom Tomas Vaquero.

Outra imagem, a de São Benedito, também fez parte da primeira igreja da Capela, mas não está no Santuário. A peça pertence ao acervo do Museu Histórico Municipal “Hermínio Bueno” e segue exposta na sala de arte sacra do local que, atualmente, funciona no Centro de Convergência Cultural, o antigo prédio da Biblioteca Municipal, à Avenida dos Trabalhadores.

O atual Santuário de Nossa Senhora do Rosário foi inaugurado nos anos 70, sendo a reunião decisiva para a obra realizada em 1967. O encarregado da planta foi o engenheiro Jamil Girard Jacob. E o supervisor da construção padre Longino Vastbinder. Portanto, este ano a paróquia, inaugurada em 1977, completa 41 anos.

Para marcar a data, o padre José Carlos Melchiori mandou confeccionar livreto com a história destas quatro décadas da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário. O texto foi escrito pelo diácono Geraldo Ferreira Gonçalves. Também há algumas imagens que pontuam alguns períodos e mostram alguns personagens, entre eles, o padre Longino e Jamil Girard Jacob.  Assim como fotografias das Comunidades Eclesiais de Base, todas transformadas em capelas: Santa Rita, Sagrada Família, Nossa Senhora das Graças, São Paulo, Santa Maria Goreti, Bom Jesus e São Benedito.

multi igreja capela sao benedito

Diácono há 40 anos, Geraldo conta que vive há 50 anos na comunidade e acompanhou o lançamento da pedra fundamental para construção da atual igreja da Capela. “Condensei para o livreto as histórias que ouvi e também aquelas que eu vivi nesta paróquia, além do que li dos historiadores Augusto Legaspe e Ricardo Artigiani. Fiz ainda alguns desenhos porque não temos imagens da primeira igreja e de como era a Capela naquela época”, comenta. Acredita-se que a primeira igreja foi construída em barro e pedras. Há relatos de que tinha o mesmo tamanho da Igreja de Imaculada Conceição, Centro. “Só não tinha torre porque o trabalho exigia cálculo e os escravos não sabiam como fazer”, pontua Geraldo.

Professor Geraldo
Professor Geraldo

O diácono, além de desenhar, também já restaurou algumas imagens sacras que compõem o acervo do Museu Histórico Municipal “Hermínio Bueno”, entre as quais, a de São Benedito, santo de devoção dos escravos que construíram a primeira igreja da capela e eram devotos também de Nossa Senhora do Rosário. Na imagem de São Benedito, ele conta que fez um pequeno trabalho e colocou um Menino Jesus nas mãos do santo. Por sua vez, a imagem de Nossa Senhora do Rosário está sendo restaurada por Ana Barreiro. A intenção é que a restauradora descubra a pintura original da imagem que passou por outras intervenções.

UM SÉCULO

Primeira igreja foi demolida em 1917

No livro “Mogi Guaçu Três Séculos de História”, Ricardo Artigiani relata um pouco desta história das igrejas da Capela e credita os fatos aos apontamentos históricos de Luiz D’Alencourt, intelectual e pesquisador português, radicado no Brasil. “Foi oficial do Real Corpo de Engenheiros e prestou valiosos serviços através de suas viagens de pesquisa ao interior do Brasil. Quando de sua passagem por Mogi Guaçu com destino a Cuiabá, em 1821, menciona os fundamentos da primeira Igreja. Em seus sinos encontram-se as seguintes inscrições: “Doado por José Franco de Godoy e, João Menezes – 1874””, traz o relato.

Construção da Capela que foi inaugurada em 1929
Construção da Capela que foi inaugurada em 1929

Ainda de acordo com o autor, muitas festas foram realizadas na antiga igreja, aquela construída pelos escravos, porém, com a decadência da freguesia, ficou por muito tempo abandonada. O relato é de que a primeira igreja foi demolida em 1917, por ordem do padre Jaime Nogueira. “Com a demolição da primeira Igreja, cuja data de construção se presume tenha sido em 1820, ficou o bairro da Capela sem igreja até o ano de 1927”, escreve Ricardo Artigianni. O autor, aliás, integrou a comissão que deu iniciativa a construção de uma capela que foi inaugurada em 1929. Depois de 34 anos, esta capela foi demolida e abriu espaço à construção do Santuário de Nossa Senhora do Rosário. A iniciativa partiu do padre Longino Vastbinder.

 

AVÓS

Passeios à Capela fizeram parte da infância do secretário

Passeios à região da Capela fizeram parte da infância e da adolescência do secretário de Cultura, Luiz Carlos Ferreira. Os avós maternos e paternos residiam na região. “A casa da minha avó. Era uma espécie de chácara com laranjeiras e bananeiras, ficava na Avenida Bandeirantes, bem próxima da igreja. Fui crescendo e vendo a paisagem mudar, mas guardando na lembrança estas memórias”, comenta.

Luiz Carlos recorda da casa dos avós que ficava próxima da igreja
Luiz Carlos recorda da casa dos avós que ficava próxima da igreja

Em relação à segunda igreja, Luiz se recorda dos velórios. Isto porque, os corpos vindos dos sítios chegavam acomodados em chapas de zinco e só depois eram colocados nos caixões. “E não colocavam flores. As crianças é que iam batendo nas casas e pedindo flores. Lembro que fiz isso quando morreu a minha avó materna. Os corpos sempre passavam pela igreja para serem encomendados, como diziam à época”, detalha.

Estas memórias já se referem à segunda igreja da Capela, pois a primeira foi demolida em 1917.

capela

SEMENTES

Escravos montavam terços para rezar

 Da Redação

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é uma confraria de culto católico, criada para abrigar a religiosidade do povo negro, que na época da escravidão era impedido de frequentar as mesmas igrejas dos senhores. Mantém em seu calendário uma devoção secular a Nossa Senhora do Rosário. Os negros vindos da África, mesmo com suas próprias crenças, se tornaram devotos quando chegaram ao Brasil.

A devoção a Nossa Senhora do Rosário tem sua origem entre os dominicanos, por volta de 1200. A primeira irmandade do rosário foi instituída pelos dominicanos em Colônia (Alemanha), em 1408. Logo a devoção se propagou, sendo levada também por missionários portugueses ao Reino do Congo.

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário chegou ao Brasil em meados do século XVI, sendo a Irmandade dos Homens Pretos de Olinda a mais antiga do país. A partir do fim do período colonial, as irmandades do Rosário passam a ser constituídas pelos “homens pretos”.

No Brasil, ela foi adotada por senhores e escravos, sendo que no caso dos negros ela tinha o objetivo de aliviar-lhes os sofrimentos infligidos pelos brancos. Os escravos recolhiam as sementes de um capim, cujas contas são grossas, denominadas “lágrimas de Nossa Senhora”, e montavam terços para rezar.

 

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