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Brasileiro cria nova fase para a velhice

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Provavelmente você já se deparou com aquele idoso que gosta de se vestir jovialmente, que posa para fotos, cuida mais da aparência e do corpo. Geralmente vem àquela frase preconceituosa à cabeça: quer ficar jovem de novo? E é exatamente isso. A longevidade do brasileiro é que vem mudando o perfil do que é ser idoso.

Antigamente, a pessoa idosa era grisalha, com bengala, tomando sol na praça, vendo TV ou em casa tricotando e fazendo doces para os netos. Como diziam muitos: esperando a morte chegar.

Mas como aumentou a expectativa de vida dos brasileiros, essa imagem mudou. O médico geriatra Rafael Rondineli Ceregatti lembra que nas décadas passadas, a expectativa de vida da pessoa era entre 60 e 70 anos. “Hoje, na nossa região, a expectativa subiu para mais de 80 anos. Os indicadores de saúde da nossa região são diferentes e são maiores que a média de expectativa de vida do brasileiro. Hoje temos idosos em nossa cidade e na região com mais de 80 e 90 anos”, observa o geriatra.

Por isso, muitos ‘sessentões’ ou ‘setentonas’ não se sentem tão velhos assim. Eles clamam por uma nova classificação das fases do envelhecimento. Um termo recentemente divulgado pela grande imprensa foi ‘gerontolescência’.

Mas, em geriatria, o que se tem estudado são os termos – Young Elderly (Idoso Jovem) e Old Elderly (Idoso Velho). O médico conta que essa mudança já vivida em países desenvolvidos está agora provocando mudanças nos países em desenvolvimento como o Brasil. Como exemplo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definia idoso em países desenvolvidos só a partir dos 65 anos, enquanto que em países em desenvolvimento era a partir dos 60. Rafael Ceregatti explica essa diferença porque nesses países, o envelhecimento se dava mais rápido porque a população tinha menos acesso à saúde e promoção social.

 

Idoso Jovem

É aquele que está bem de saúde, na faixa dos 60-70 anos, é independente financeiramente e fisicamente e já criaram os filhos. “É aquele que já se aposentou e pode curtir a vida. Esse é o lado bom em comparação com a adolescência. Algo que a geração de idosos anteriormente não tinha. Vivia sem um hobby, não gostavam de viajar. Hoje, eles não só viajam em grupo, como participam de grupo de exercícios. Aproveitam mais a vida porque tem convívio social. Alguns pela primeira vez têm oportunidade de conhecer o mar ou fazer uma viagem de avião, internacional”, pontua Ceregatti.

Mas o médico também é realista quando observa que só aproveita bem essa nova fase da vida aquele idoso que tem consciência das novas oportunidades que a idade lhe traz. “Mas há também uma relação com classe social. Aquele que a família usa sua renda, não terá essa oportunidade. Outros ficam ‘amarrados’ cuidando dos netos, ao invés de curtir a vida”, pontua o geriatra sobre o idoso que se torna arrimo da família.

AVÓ DE SEIS

Aos 70 anos, mas vive como se tivesse 30

 

Helóisa ainda trabalha e gosta de se vestir bem; seu maior legado é a família que construiu
Helóisa gosta de se vestir bem

Ao olhar as fotos antigas, a funcionária pública Heloísa Helena Bonelli, 70 anos, acredita estar melhor agora porque vive a sua própria vida. Antes, ocupava-se em cuidar do marido, das quatro filhas, além da casa. Aprendeu com as avós, com a mãe e com a sogra a tricotar, bordar, costurar e a cozinhar. Depois da separação e das filhas casadas, ela tem mais tempo para curtir os seis netos. Helô não abre mão de ser a avó que paparica.

Ao pensar na idade, ela ri muito e se lembra de como enxergava a avó materna que aos 50 anos já era considerada velha. “Tínhamos dó da vovó, muito magrinha, usava meias escuras, vestido de mangas compridas”, lembra a funcionária pública. Hêlo nem pensava em como estaria ao chegar à terceira idade. Mas vive hoje como se tivesse 30 anos. “A vida foi passando e sou a mais velha das minhas irmãs, mas uma delas diz que tenho a cabeça mais jovem. Gosto mesmo de me maquiar e escovar os cabelos todos os dias e me arrumo como uma pessoa moderna”, frisa Helô.

A dica para viver bem essa nova fase da vida, Helô sabe de cor. Ela preferiu não parar de trabalhar quando a aposentadoria chegou. Ela viaja muito, aproveita as férias e feriados para ficar com a mãe de 98 anos. E toda semana, há mais de 20 anos, participa dos ensaios e integra o Coral Santa Teresa. “Para ocupar meu tempo, porque me acho ainda nova para parar de trabalhar e tenho disposição e porque um salário só não dá. Amo conhecer lugares, pessoas, gosto de dançar. Vivo a minha vida, sou independente financeiramente, tenho meu carro, meu apartamento”, comenta Helô sobre a mudança que fez na vida a partir dos 50 anos.

A maturidade trouxe também uma nova percepção da feminilidade. “O que eu não aceitava muito era essa liberdade sexual de hoje. Não entrava na minha cabeça. Na minha época os pais não conversavam sobre sexo e a gente casava sem conhecer nada da vida. Hoje entendo que é por isso que o relacionamento sexual de muito casal não dava certo. Era muito difícil conversar sobre isso no casamento”, brinca Helô.

multi terceira idade esporte heloisa

GERAÇÃO SAÚDE

A vitalidade encontrada por meio do esporte

 

A tendência é chegar aos 80 anos como portador de doenças crônicas, polimedicado e já consumindo recursos próprios, da família e da sociedade, principalmente com a saúde pública com a realização de exames e internações. Para evitar isso, o geriatra sugere uma reserva de saúde, o chamado Capital de Saúde. É algo que se acumula enquanto é jovem. É a prática do esporte, boa alimentação, dormir bem, fazer exames periódicos de controle de glicemia, colesterol, por exemplo, não fumar e não beber. “Hábitos saudáveis que não precisam de dinheiro. O dinheiro nessa idade será usado para presentear, viajar, adquirir bens que antes não podia ter e não para gastar com doença”, ressalta o médico geriatra Rafael Rondineli Ceregatti.

O médico, inclusive, conhece idosos dessa fase que dirigem seus carros a longas distâncias, frequentam a academia diariamente e tem vigor que outras gerações na mesma idade não tinham. Um exemplo desse vigor é o aposentado Mário Dias de Castro, de 80 anos, que há 13 anos joga vôlei adaptado.

Mário começou a praticar esportes aos 58 anos
Mário começou a praticar esportes aos 58 anos

Ele treina duas vezes na semana e com o auxílio da técnica Marli Rodrigues Brandão Alves, da Secretaria de Esportes e Turismo (SET), se prepara para um jogo no próximo dia 29, na cidade de Nova Odessa. Nesse ano, Mário e os amigos já conquistaram o 2º lugar no JORI (Jogos Regionais dos Idosos).

Ele conta que não imaginava chegar a essa idade e com uma vida de atleta. “Trabalhei 20 anos como rural, um serviço pesado, depois na cerâmica e na antiga Refinações o trabalho também era pesado. Não via essa possibilidade porque alguns amigos e até irmãos meus já morreram”.

Foi aos 58 anos, quando se aposentou, que pensou em fazer alguma atividade física e começou com ginástica e caminhada no Sesi. Foi lá que recebeu o incentivo da professora para começar a jogar vôlei e, desde então, não parou mais. Ao comparar sua disposição com seus avós e seus pais, Mário Castro diz que há muita diferença na forma de encarar a vida. “Eles não cuidavam bem do corpo, em ter uma boa aparência, ficavam com as roupinhas velhas, andavam arcadinhos e na minha idade alguns nem gostavam mais de tomar banho, usar creme no rosto, fazer a barba. Tem que ser mais ativo. Eu encontrei uma loção que não ‘preteja’ o cabelo e fica mais natural. Ter atividade física também é vida. Eu é que preciso do esporte e não ele de mim, faz bem para meu organismo funcionar melhor, ativa a circulação”, brinca o idoso atleta ao lembrar da vitamina que também toma.

Mário é casado há 60 anos, tem três filhos, 10 netos e um bisneto.

multi terceira idade esporte

OS PERIGOS

Como envelhecer bem?

Aquela pessoa que durante sua vida conseguiu planejar a velhice com uma previdência privada, por exemplo, consegue aproveitar mais. Por isso, a dica do médico geriatra Rafael Rondineli Ceregatti é se preparar, mas não só financeiramente.

Tem crescido o número de pessoas entre 40 a 45 anos já procurando os consultórios de geriatria. “A própria OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza vir mais cedo para o geriatra, para a prevenção. Haverá menos gasto para a sociedade e para a família”.

Segundo Ceregatti, é preciso desenvolver hábitos saudáveis para chegar aos 60, 70 sem doenças crônicas, sem remédio, para curtir a vida. O médico é especialista em fisiologia do exercício, medicina do sono e se aperfeiçoa na área de nutrologia. “Isso ajuda o paciente a dormir melhor, a ter uma atividade física e a comer melhor para envelhecer com saúde”.

Ceregatti, porém, faz um alerta. Mostra o lado negativo do idoso que nessa nova fase comparada a uma nova adolescência. “É o lado inconsequente. Os que vão despreparados em busca do sexo pago. Usam estimulante sexual. Porque tem aumentado o número de idosos com doenças como a sífilis e a AIDS. Hoje em dia, a gente tem que solicitar esse tipo de exame para idosos, o que não acontecia antes. Assim como os adolescentes são vigiados pelos pais, há idosos que precisam ser vigiados pelos filhos e netos”, pontua o geriatra.

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Sociedade em mudança

Séculos atrás só existia a infância, vida adulta e a velhice. Depois, o termo adolescência foi consolidado na década de 60 como transição para a vida adulta. Agora, com os idosos parecendo mais jovens, cresce a necessidade de se encontrar uma nova fase que antecede o envelhecimento.

Quem sempre percebeu que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde tem aproveitado. São as empresas financeiras de empréstimos consignados, as de previdência privada e o turismo focado na terceira idade.  Até mesmo o Governo está de olho no novo perfil etário – cada vez mais idosos e menos jovens. Mudanças como essas ocorreram na Europa há 10, 20 anos.

E isso se reflete na estrutura da sociedade brasileira, por exemplo. Cada vez mais idosos consumindo os recursos da Previdência e menos jovens e adultos pagando os recursos como mão de obra ativa. Não é tanto pela falta de emprego. Mas inclusive pela redução da natalidade no país. O idoso deixou de ser uma parcela pequena na estrutura do país. Com isso, os gastos com saúde aumentam, são mais recursos financeiros públicos a serem investidos, mais remédios, mais exames. A conta quem sempre pagou foi os mais jovens, só que a juventude brasileira vem diminuindo.

E para mostrar essa tendência, o Ministério do Trabalho divulgou, na última semana de junho, uma pesquisa que aponta o crescimento de idosos no mercado formal de trabalho. Isso significa com carteira assinada e demais direitos trabalhistas.

Em cinco anos, o número de pessoas entre 50 e 64 anos no mercado formal de trabalho cresceu quase 30% entre 2010 e 2015. Também houve aumento na faixa etária acima de 65 anos, um aumento de 58,8%. (KA)

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