Home»Artigos»Artigo: Um caminho entre dois túmulos

Artigo: Um caminho entre dois túmulos

0
Shares
Pinterest WhatsApp

“Para isso fomos feitos: / Para lembrar e ser lembrados / Para chorar e fazer chorar / Para enterrar os nossos mortos – / Por isso temos braços longos para os adeuses / Mãos para colher o que foi dado / Dedos para cavar a terra.”. Assim se inicia o célebre Poema de Natal, escrito pelo nosso eterno “poetinha”, Vinicius de Moraes, em 1946. Vinicius, ao fazer uma evocação ao Natal, ou seja, ao nascimento por excelência, acabou discorrendo sobre a morte.

Segundo Acélio Trindade, do Portal G1, o hábito cristão de dedicar um dia para rezar pelos mortos remonta do século V, mas foi no século XIII que o dia dois de novembro passou a ser o Dia de Finados. Cada parte do mundo celebra esta data a seu modo. No México, por exemplo, existe a chamada “Festa dos Mortos”. Sobre essa festa, aliás, existe o filme Viva – A vida é uma festa (Disney/Pixar, 2017), sobre o qual até cheguei a falar num texto anterior.

O caso é que, por mais que o homem evolua, mesmo que, como diria Lulu Santos, “com passos de formiga / e sem vontade”, a morte ainda continua sendo um tabu em nosso meio. Não há muita preparação para esse momento que, talvez até mais certo que o próprio nascimento, inevitavelmente chegará. Não existe, pelo menos no Brasil, uma cultura que se ensine às crianças desde cedo sobre a brevidade da vida. Temos vivido para selfies e stories.

“Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos. / Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.”, diz Cecília Meireles à memória de sua avó, D. Jacintha Garcia Benevides, no belo poema Elegia. Segundo o site “Português”, “a elegia integra o gênero lírico, embora guarde semelhanças com o gênero épico. De origem grega, era associada à música — sendo cantada com o acompanhamento da flauta — até que posteriormente ficou destinada à recitação e à leitura. Ao contrário de outros tipos de poemas do gênero lírico, a elegia tem no conteúdo sua principal característica: aborda temas como a tristeza e a melancolia, sentimentos despertados pela morte […]”. Você já escreveu alguma elegia para alguém? Nas lápides, aquele escrito sobre as pedras tumulares, o epitáfio, nada mais é do que uma mera elegia para alguém que, como diria o velho Boldrin, “partiu antes do combinado”.

Partir. Eis um verbo que causa comoção, com o qual não lidamos bem. Sei que, em meio a esse mundo líquido, para citar uma definição do filósofo Zygmunt Bauman, nem todos se deixam levar pela força do adeus, da partida, do nunca mais que a morte acarreta. Afinal, é preciso se refazer logo, para voltar ao trabalho e cumprir a demanda que o serviço nos pede. E há tantos sem ele, um trabalho. Tantos que parecem ter morrido para o mercado. Liquidez?

“Caminhas entre mortos e com eles conversas / sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito.”, nos fala Carlos Drummond de Andrade no seu poema de 1938, Elegia. Reza a lenda que Drummond cultivava o hábito de passear com sua filha pelos cemitérios, a fim de perscrutar as vidas que já se foram. No dia do aniversário dele, completo há pouco, em 31 de outubro, celebrou-se mais um Dia Nacional da Poesia. Aos poetas mortos, todo o respeito.

“A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto. / Se escuto, eu te oiço a passada / Existir como eu existo.”, avisa o poeta português Fernando Pessoa, e eu acho que é isso mesmo. Há tantos que pensamos serem eternos ao nosso lado, mas, quando vemos, dobram uma esquina qualquer, e nunca mais vemos aquele amigo de fé, aquela amiga de infância, aquele parente distante que ficou para trás e, por isso mesmo, morreu. Que triste!

“Assim será a nossa vida: // Uma tarde sempre a esquecer / Uma estrela a se apagar na treva / Um caminho entre dois túmulos – […]”. A morte, para mim, Vinicius, tem um quê do dia da morte da minha avó materna, enterro ao qual não fui, além da lembrança do Cemitério Municipal de Aguaí, minha cidade natal. Natal. Olha ele aí de novo! Pois, para que se possa morrer, há de se ter nascido. Iremos renascer algum dia? Não sei, amigo. Hoje é dos mortos.

 

Olivaldo Júnior é poeta, escritor, músico, professor e trabalha como Oficial Administrativo Júnior na escola “Professor Cid Chiarelli” da Feg

Previous post

Situação de rua: Barraco é montado em calçada de bairro

Next post

Mogi Mirim investe em reforma do Centro Cultural