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Artigo: Opiniões velozes e furiosas x ponderadas e justas

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Quer se queira ou não, a mídia impressa acaba sendo um guia de leitura e de aprofundamento contextualizado de notícias enquanto que as redes sociais são um canal sumamente veloz como, em certo sentido, vazio para levar novidades até as pessoas. Coisa bem diferente, portanto. Jornal ou revista à mão, o leitor assíduo das mídias físicas, tradicionais, parece aportar um quê, um ar propenso à reflexão.

Quase não presenciamos mais a cena deste com mídia impressa ao braço, acabando de ser comprada na banca de jornais, onde uma prosa com o proprietário era sempre salutar. O programa televisivo “A Praça é Nossa” traz um flash daquela realidade de outrora com o apresentador sentado no banco, jornal à mão e as conversas, comédias que se desenrolam.

Ou aquela outra cena, sempre pitoresca, de um espião, detetive ou fofoqueiro que finge ler o jornal com um furo, mas interessado em “clicar” certa situação, talvez sendo este um precursor-arauto das fakenews.

O perigo de transmissão das “fakes” naquelas mídias é praticamente zero, vez que as manchetes estampadas é a fonte própria para elucidação de qualquer dúvida.

“Mas você está dizendo que os jornais não mentem nunca?”, alguém poderia objetar. O que digo é que as matérias em si, os fatos concretos que os meios de comunicação divulgam são verdadeiros, sendo quase impossível uma mentira deslavada, pois em risco está a credibilidade deste jornalismo e a existência mesmo da empresa jornalística. E que na condução de assuntos que exigem um pouco mais de elevação, os políticos, os polêmicos pode haver sim uma indução a acreditar num princípio não condizente à realidade daquela relação política, daquele princípio moral envolvido. Aí sim, de certa forma, jornalismo tendencioso ou abertamente mentiroso.

O leitor tradicional, como dizia, transmite uma ideia de alguém mais afeito à reflexão, vez que ele vai pegar aquele meio impresso e terá todo tempo do mundo para ler e reler as matérias, isolado em sua concentração, sem ter um conjunto de amigos, como é no Facebook, por exemplo, que estejam emitindo suas opiniões de forma veloz, furiosa e precipitada, sem ao menos ler a notícia inteira. E esta velocidade vem tolhendo o pensamento maturado, na qual a tendência é a emissão precipitada de juízo de valor sobre determinado assunto, queimando as etapas de averiguação e os benefícios da dúvida.

Ou seja, muitas vezes, cometemos, ipso facto, injustiça. E a injustiça contra quem seja, amigo ou inimigo político, será sempre injustiça. Não há outro nome para isso. Não podemos ser favoráveis à regra do vale tudo amoral para derrubar o adversário.

Tanto não creio, assim, de pronto, nas “provas” do The Intercept, como não creio, por exemplo, em áudio que começa a circular de um prisioneiro assistindo a um determinado jornal televisivo, falando ao telefone, furioso com outra pessoa, cuja voz não está gravada, sobre um ex-companheiro/ministro, dizendo que teriam que tê-lo assassinado etc, pois muitos comediantes o imitam à perfeição, mas deixam escapar um sotaque ou regionalismos…

Essas questões de interceptação, aliás, remontam longe. Na Segunda Grande Guerra, por exemplo, os alemães tinham uma máquina chamada “Enigma”, mas a coalizão anti-Hitler criou outra, a criptanalítica “Bomba”, que decodificava aquelas mensagens carregadas de planos diabólicos! Isso no plano internacional de suma importância, claro! Entretanto, no plano caseiro vivíamos também o problema da interceptação.

Lembro-me de que em casa de meus avôs havia um telefone de cor preta, de ferro, material pesado, que ficava em um móvel com um assento ao lado, próximo a uma porta que dava à área externa da casa. De maneira que, se você quisesse ter uma conversa reservada ou sem interferência de barulhos rotineiros, você atendia ao telefone e com um tanto de cabo levava o aparelho para fora e conversava mais à vontade.

Com o tempo, inventaram um fio, uma extensão encaracolada. Comprou-se, então, uns trinta metros daquilo, podendo levar o aparelho até mesmo para o andar de cima da casa. Ou seja, privacidade garantida!? Qual nada! Colocou-se também um outro ponto lá nos fundos, de maneira que os dois telefones tocavam ao mesmo tempo.

E um podia ouvir a conversa do outro, ocorrendo assim a interceptação! Coisa feia! Mas criança… E o código para denunciar este fenômeno era: “tem boi na linha” (expressão, aliás, que entrou em completo desuso). E o assunto reservado era tratado em outras circunstâncias.

Hoje, o “boi” foi substituído pelo hacker, a “Enigma” pelo The Intercept e a “Bomba” pela perícia legal. E o juízo definitivo, seguido da severa crítica, dever ser emitido após não restar mais nenhuma dúvida sobre a veracidade real dos fatos, de forma ponderada e justa.

 

Munir Simão Mahfoud, advogado civilista e professor de francês- munirmahfoud@adv.oabsp.org.br

 

 

 

 

 

 

 

 

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