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Artigo: O Segundo Sexo. Ainda? 70 anos depois…

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Pensar com Simone de Beauvoir (1908-1986) setenta anos após O Segundo Sexo (1949), aqui no Brasil, no Dia Internacional da Mulher, comemorado ontem (8), poderia parecer ultrapassado, mas não no nosso país, onde nem chegamos à básica teoria feminista de Beauvoir e infelizmente somos atrasados em tudo: legalização do aborto, equiparação salarial, desigualdade e violência doméstica, a par dos assédios e feminicídios, do machismo e da misoginia, e das divisões de classe e raça gritantes.

Segundo a escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política e feminista, ser mulher num mundo governado majoritariamente por homens, para homens e em função de seus próprios interesses, é ser antes de tudo, segundo sexo, um ser relativo, limitado e sem reciprocidade, como “Outro”, em relação ao “Um”, ancestral e absoluto, o indivíduo do sexo masculino. Da sua perspectiva feminista a mulher deve passar a ocupar não mais o lugar de simples objeto de investigação, mas deve ser sujeito autêntico e legítimo do conhecimento.

“Tornar-se mulher” implica que ser mulher não é destino, mas é antes ser mediada por uma construção complexa de poder enraizada na própria vida social que no mais das vezes restringe o campo de possibilidades específicas no qual a mulher deveria se constituir autonomamente como indivíduo livre, ativo e desejante.

O que os escritos de Beauvoir realçam é justamente essa dimensão paradoxal constituída pela experiência das mulheres em geral no contexto de uma ordem masculina e falocêntrica da cultura patriarcal ocidental.

A filósofa, além de romper com uma visão que cria uma inferioridade natural na mulher na história, coloca-a no centro do debate e realiza um estudo minucioso de sua situação, apontando para um projeto de emancipação.

Em seu percurso teórico ela demonstra que a mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem, através do olhar do homem. Olhar que a confina num papel de submissão e que comporta significações hierarquizadas. Ou seja, a situação da mulher lhe é infligida e assume um aspecto de opressão, de “um beco sem saída”, como um destino institucionalizado que petrifica sua existência num modelo de não liberdade.  A desnaturalização do gênero feita por Beauvoir foi ponto de partida para diversas pesquisadoras que se seguiram ao longo do séc. XX e XXI. Ao mostrar que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher” a filósofa rompe com a visão determinista binária e biológica, apontando que os valores e comportamentos femininos são construídos socialmente.

A menoridade e vitimização com que as mulheres, por exemplo, camuflam uma fragilidade totalmente fictícia se protegendo dos homens é muitas vezes uma estratégia para não perceberem sua própria armadilha, reproduzindo por sua vez o patriarcado por meio do que o sustenta.

A filósofa se distancia ainda imensamente de muitos estereótipos e visões equivocadas comumente associadas ao termo feminismo, como o de que as feministas são pouco femininas, são feias, não usam maquiagem nem pintam as unhas, não se depilam, odeiam homens, são lésbicas, além de serem chamadas de solteironas.

Independente do rótulo que as mulheres escolherem para adotar, é reconfortante a indicação de que, hoje, uma vasta maioria apoia a igualdade de gênero- e reconhece que ela ainda não foi atingida.

Podemos considerar que no conjunto da obra de Simone de Beauvoir, passando por sua vida pública, seu modo de se posicionar e agir no mundo, a filósofa é dedicada a desvelar e descrever a trama de dois tensores de existência: sua liberdade e sua facticidade, tal como está inserida no mundo dos fatos contingentes.

Esse nos parece ser um dos maiores legados dessa grande pensadora francesa a todos e todas que desejam e se empenham para que a vida se realize de modo mais igualitário e combativo à tão diversas formas de opressão – de classe, raça, gênero- incluindo os indivíduos mais conscientes de sua própria liberdade, pois: “Cada um de nós é responsável por tudo e por todos os seres humanos”.

 

Maria Flávia Armani Bueno é mestre em Teoria Literária-IEL-Unicamp

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