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Artigo: O meu primeiro dia de aula

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O que a memória amou, dizia a Adélia Prado, fica eterno. De eterno do meu tempo de criança tenho aquela bendita cena: a professora, o giz, o livro, o caderno. Ora eu aprendia, ora eu me imaginava ensinando. O tempo passou e com ele se deu a realização de alguns sonhos. Sempre me custou a ideia de fazer planos. Arrisco dizer que se cheguei aonde cheguei hoje, foi porque o que planejei para a minha vida deu errado. Queria ser professor, mas não me imaginava no ofício, pois, ainda jovem, eu me adentrei nas fileiras da vida franciscana. O tempo passou e eu retornando para a minha cidade fui cursar Ciências Sociais. Ao concluir a faculdade, enfrentei os dramas de qualquer jovem professor que, impedido pelo sistema sucateado da educação paulista, não consegue tão fácil dar aulas.

Deixei mais uma vez o tempo se encarregar de ajeitar as coisas. E ao avançar para o horizonte, chegou o ano de 2018, mais precisamente o mês de junho, quando eu fui convidado para lecionar. As aulas não seriam ministradas nas escolas convencionais, pois, a vida e o tempo se encarregaram de me reservarem grandes surpresas, a minha escola seria a Fundação Casa. Talvez, aquelas grades que se intercalam com as paredes cinzas da Fundação serão as autênticas testemunhas da emoção que eu senti ao entrar, pela primeira vez, em uma cela, ou melhor, na sala de aula. Pois bem, sempre alimentei uma fé no ser humano. “O ser humano é bom e mesmo se ele errar ainda vale a pena”, diz uma canção que acredito. Há uma frase bonita que eu gosto muito: “o mundo só será melhor quando o menor acreditar no menor que padece”. É esse o sonho que sempre busquei alimentar. Eu ainda estou tentando articular a vida, as aulas, as realidades que encontrei na Fundação Casa, com o sonho, a utopia, as derrotas que a vida nos prega.

Lá, vejo todos os dias trevas e luzes numa sinistra combinação que rege toda a atmosfera de paredes, grades e cimento, como dizia o profeta Gentileza: “apagaram tudo, pintaram o muro de cinza”. Mas as histórias dos Pedros, Joãos e Paulos insistem em colorir, ainda que com tintas misturadas com sangue, aquele mundo que possui seus arquivos secretos. Na verdade, eu sempre me recordo do que dizia o papa bom João XXIII: “ao olhar cada jovem que ali está eu procuro ver o homem que pode ser”.  É isso, cada olhar de gente miúda, pequena, privada do amor, jamais se apagará da minha retina.

Bom, a faculdade me deu toda a base teórica. Aprendi, com Paulo Freire, que a educação deve ser “problematizadora”. Cada um deve ler a sua própria realidade, dizia o mestre. Com o Rubem Alves, eu entendi que o educador é sempre um semeador. Isso, Jesus também dizia: “devemos semear”. A sociologia me ensinou a triste realidade do Brasil, as diferenças sociais, e me revelou como funciona o mundo daqueles que estão no “andar de baixo”. É claro que toda essa teoria acadêmica ganhou carne na Fundação Casa, pois lá, a estrada é real e o destino também. Eu não vou conseguir traduzir a minha primeira experiência em sala de aula nessas linhas, pois, como afirmei acima somente a memória é capaz de guardar aquilo que o coração viveu e registrá-la para sempre. São tantos desafios, sobretudo nesse momento escuro que estamos passando em nosso país – no qual os discursos fascistas ganham corpo, voz e vez. Porém, sobrevivem os sonhos, a esperança sob as cinzas está lá pronta para ressurgir sempre. Estou convencido que o tempo presente me convida a plantar. “Coloca a semente na terra não será em vão, não se preocupa com a colheita planta para o irmão”, repete com insistência um canto das nossas comunidades cristãs. A tradição franciscana me ensinou algo muito valoroso: “Talvez, não mudaremos nada na Terra, quase nada mudaremos ao nosso redor, mas para que o mundo seja um dia mais justo, semearemos a semente do amor”. Bem, é isso. Como professor minha missão é de ser um jardineiro, semear, regar, podar, colocar estacas, para que um dia a flor que hoje é podada possa vingar. Sei que quando isso acontecer, eu não estarei mais por aqui para ver a beleza do jardim, mas de onde eu estiver, sentirei o perfume das flores que um dia eu plantei.

 

Leandro Roberto Longo é professor e comerciante em Mogi Guaçu

 

 

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