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Artigo: Minha namorada

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Se Vinicius de Moraes estivesse vivo e ainda atuante como exímio namorador que parecia ser, talvez cantasse assim: “Se você quer ser minha namorada / Ah, que linda namorada / Você poderia ser / Se quiser ser somente minha / Exatamente essa coisinha / Essa coisa toda minha / Que ninguém mais pode ser” … Chamado de “poeta da paixão”, foi ao lado de Carlos Lyra que o nobre “poetinha” compôs essa ‘pérola’ da MPB, “Minha namorada” …

Namorar. Pode haver coisa mais linda que um beijo de namorado, alguém que se espelhou nos olhos do outro e, lá no fundo, no fundinho das íris alheias, conseguiu ver seu reflexo no olhar amado? Até pode, mas esse estado de graça que um namoro provoca tem cheiro de pipoca de cinema, colônia nova, refrescante, e gosto de bala de hortelã nos lábios ainda secos, sequiosos de mais, só mais um beijo inesquecível. Você tem beijado muito?

Dizem que macarrão sem queijo é igual a namoro sem beijo, ou seja, é ruim. Portanto, esteja você na flor da idade, esteja você na idade em flor, não importa: namoro e beijo importam. Nem precisa haver beleza física. Adélia Prado, por exemplo, em seu livro Bagagem, nos diz: Eu quero amor feinho. / Amor feinho não olha um pro outro. /
Uma vez encontrado é igual fé, / não teóloga mais.”. Feio, bonito, ou só agradável, ama.

Amor. Tema batido, dizem alguns. Mas sempre em moda, sempre em voga, em busca de ser reconhecido como verdadeiramente importante. Nada mais amado que o amor. E, se o namoro é mesmo namoro, tem amor. Amor que, segundo Camões, é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente. Sentir. Aguçar os sentidos e fazer do seu corpo uma estreia contínua. Como diria Elisa Lucinda, “‘eu te amo’ e suas estreias” … Conhece esse poema?

Poema. Poemas. Livros inteiros de poesia, escrita, ou apenas sentida, imaginada. Poesia. Namorar propicia essa tentativa de sedução. Poesia. Deixar que as mãos se joguem no rio, no Rio Mogi Guaçu, por exemplo, repleto de histórias e, quem sabe, de lágrimas de muitos namorados que passaram por lá. Rio que leva o seu povo para as margens do amor, que é a própria vida. Se não for assim, não será vida, mas uma cópia (malfeita) da vida.

Vida. Muitas vezes, é do namoro que a vida humana ressurge. E nasce um bebê, que será criança, que será jovem, que será um jovem adulto e que, certamente, irá namorar. Namorar. Amar. Não morar. Onde?! Na mesma casa. Mas isso não é o que geralmente acontece. Há namoro em que a presença do outro se estabelece com grande urgência. E, em outros casos, o “morar juntos” se faz presente porque sim, é uma opção que se faz ver.

Na prática, namorar dá muito trabalho. Batalho, batalhas, batalhamos para ver se descolamos alguém para chamar de nosso, ossos do ofício. Ofício de namorar. Andar de mãos dadas, sem pensar em nada, como aquela cena do filme “O casamento do meu melhor amigo” em que a Julia Roberts e o Dermot Mulroney passeiam de barco ao som de “Just the way you look tonight” … Sabemos que o fim desse filme não favorece a mocinha, mas é tão lindo!

Lindeza. Namoro é quando se fica mais lindo, mesmo que ninguém perceba de fato o que houve. É chama invisível, que ninguém pode enxergar, mas sentir. Sente-se que a chama do amor se inflama quando se chega perto do amado, da amada. Amada, Vanessa da Mata diria assim: “Como pode ser gostar de alguém / E esse tal alguém não ser seu / Fico desejando nós, gastando o mar / Pôr do sol, postal, mais ninguém” … Pois é, Vanessa, quem nunca?

Quem nunca se sentiu Tiago Iorc e, tomado de inspiração, não disse assim para a namorada: “Linda do jeito que é / Da cabeça ao pé / Do jeitinho que for” … Pois, com a namorada, na morada do amor, cantando assim para ela, é dez. Dez da noite. Era esse o horário em que namorados tinham que estar com as moças ao pé da porta da pobre, justo quando a lua ficava mais quente, tão quente, que vertia mel. Amor, doçura, eterno néctar.

“Porém, se mais do que minha namorada / Você quer ser minha amada / Minha amada, mas amada pra valer / Aquela amada pelo amor predestinada / Sem a qual a vida é nada / Sem a qual se quer morrer” … Morte. Não, namoro não combina com morte. Namoro combina com vida, e muita vida! Vida que também pode ser feita de beijos, não apenas de pedras. “Tinha uma pedra no meio do caminho”, diria Drummond. Mas o amor a quebrou.

 

Olivaldo Júnior é poeta, escritor, músico, professor e trabalha como oficial administrativo júnior na escola “Professor Cid Chiarelli” da Feg

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