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Artigo: A retomada de um ciclo

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Inquestionavelmente um ciclo se iniciou no Brasil. É o ritmo da história em curso, em seu processo infinito enquanto dure. A mudança de rumos proposta por uma nova administração enseja expectativas de avanços. Porém, nem sempre mudanças significam melhorias no sentido prático da vida diária dos cidadãos comuns, que é o que afinal esperam.

O ciclo de mais de uma década de crescimento econômico, traduzidos em pleno emprego, aumento da massa salarial; grande redução da pobreza extrema, fim da fome endêmica; aumento da participação popular no consumo de bens e serviços; políticas públicas que impulsionaram a participação da maioria, não só no consumo, mas também na própria formulação dessas políticas, chegou ao fim na crista de uma crise do capitalismo mundial, que remontava o ano de 2008, combatida com sucesso em solo pátrio até meados de 2013, via desonerações de impostos em grandes ramos da atividade indústria, a exemplo de materiais de construção e veículos.

A necessidade de reestruturação do capital internacional está levando a fortes pressões sobre governos, no sentido de alívio da carga tributária e de encargos trabalhistas conquistados nas fases amenas da economia mundial. Por outro lado, a despeito da crescente busca da produção de energia renovável, o petróleo ainda constitui-se num ativo que desperta a cobiça de petrolíferas e de seus países de origem.

Nesse contexto a guerra híbrida, sem bombas, apenas se utilizando de manobras legislativas e jurídicas, abriu caminho para a conquista desse precioso ativo brasileiro pelas multinacionais petrolíferas. Sob Temer, com lei de José Serra, abriu-se mão do controle do pré-sal pelos brasileiros.

Esse desfalque não será desfeito pelo novo governo. Assim como a dita flexibilização dos direitos trabalhistas, com retirada de inúmeros direitos, não será revogada. O congelamento abominável de verbas para saúde e educação também não.

Qual a direção do “novo” ciclo? Facilitação da compra e posse de armas, verdadeira terceirização da obrigação do Estado de cuidar da segurança pública, com consequências que podem ser abomináveis. A questão crucial do desemprego “resolvida” com a extirpação do Ministério do Trabalho, possibilidade de fechamento da Justiça Trabalhista e a proposta da carteira de trabalho sem direitos. 

A conquista da escola pública de qualidade substituída pela discussão de uma escola sem ideias, que não forme a consciência cidadã dos estudantes. A saúde do trabalhador será atributo de uma assistência médica barata e paga, de terceira.

E quanto aos futuros idosos? O governo acena com a previdência privada, na qual cada cidadão contribui para sua própria aposentadoria com valores aplicados no incerto mercado de capitais e de retorno duvidoso, após muitos anos de contribuição, à exemplo do Chile que inaugurou esse sistema na ditadura de Pinochet e que está levando os chilenos idosos à miséria e ao suicídio. Quanto aos fins de privilégios das castas do alto funcionalismo, magistrados, políticos e militares, nada à vista. Cobrança de cerca de seiscentos milhões de reais anuais de sonegação contra a previdência, então, é assunto proibido…

O importante setor do agronegócio pronto a ser liberado para uso de agrotóxicos à vontade, com decorrência deletéria para a saúde da população e impasses futuros na exportação de alimentos. As relações internacionais a reboque dos EUA, com perda da pouca autonomia conquistada com a diversificação do comércio com nações latinas e africanas e a formação dos BRICS, impulsionada pelo Brasil que agora se apequenou na organização.

Sim, mas esse governo acabará com a corrupção! Em nome disso esse foi eleito. Eis que, com grande espanto, verificamos ao menos cinco ministros com alguma pendência na justiça. O do meio ambiente condenado. Por fim a bolsa de corrupção explode no colo de um filho do presidente, que a exemplo deste, sempre enalteceu as milícias bandidas do triste Rio de Janeiro: sete milhões inexplicáveis no patrimônio! Vinte e sete mil reais na conta da primeira dama… com direito a pedido de socorro à suprema corte, atitude antes condenada como recursos a privilégios vergonhosos…

Uma sucessão infindável de afirmações e desmentidos, um governo desastrado e inconsequente, sem aptidão para as tarefas de administração de um país. Um moralismo boquirroto inaceitável em nosso século. Uma ministra que nega as conquistas da ciência na compreensão do mundo e que mente quanto à sua pretensa vida acadêmica. Um ministro da educação estrangeiro que quer erradicar o povo das universidades…

Tristemente, o que temos é apenas o retorno do ciclo secular de apropriação do Estado pelas elites econômico-financeiras (a mão invisível do mercado, as “forças ocultas”). Nada indica que cessará sua secular apropriação dos recursos públicos e da corrupção dos agentes do Estado, através de suas atividades invisíveis.

Cada vez fica mais claro o afastamento dos setores populares na formulação de políticas que lhes interessem e a retomada do país à condição de mera colônia de exportação de bens primários, agora sob a tutela de um avesso do avesso do estadista que o Brasil merece e já conheceu.

 

Ailton Franco de Godoy é educador licenciado em Geografia

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