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Artigo: A morte do jornalista e escritor Cony

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Em 5/1/2018, o Brasil perdeu um de seus maiores romancista: Carlos Heitor Cony, aos 91 anos. Não era político, mas teve um desempenho importante como crítico ao Golpe de 64. Escrevia seus artigos no Correio da Manhã, Rio. Eu assinava o extinto jornal só para ler seus artigos. Mais: eu mandei encadernar o jornal! No entanto, não era somente eu. O escritor Verissimo, em artigo ao ESTADÃO (11/1), recordou: “Já leu o Cony, hoje?” A frase, dita num tom conspiratório, se repetia cada vez que saía um dos artigos do Carlos Heitor Cony no Correio da Manhã. Funcionava como uma espécie de senha”.

Bernardo Mello Franco o definiu: “Cony, um escritor contra o golpe [de 64]”.  O escritor Ignácio de Loyola Brandão opinou: “Com o livro O Ato e o Fato, ele enfrentou a ditadura e tudo aquilo que esmagava a gente. Ele mostrou que era possível resistir escrevendo (sic)”. Foi neste livro, O Ato e o Fato, que a Civilização Brasileira reuniu os seus melhores textos sobre o golpe. Em um desses artigos, Cony escreveu: “Já que o Alto Comando Militar insiste em chamar isso que está aí de Revolução – sejamos generosos: aceitemos a classificação. Mas devemos completá-la: é uma Revolução, sim, mas de caranguejos. Revolução que anda para trás (sic)”. Ele era a voz de quem não tinha voz. E pagou caro por essa atitude. Bernardo Ajzenberg, em artigo especial para a FOLHA, revelou: “De 1964 a 1972, [Cony] sofrera 10 processos, sendo detido em seis oportunidades; na mais grave deles, ao final de 1968, com a decretação do Ato Institucional nº 5, chegou a ficar quase um mês na prisão”.

Cony escreveu vários livros. Eu prefiro os mais antigos: O Ventre, Tijolo de Segurança, Matéria de Memória, Antes, o Verão, A Verdade de Cada Dia e Balé Branco. No livro, Quase Memória, sobre o pai, ele fez essa dedicatória: “para Mila, a mais que amada”. Normalmente, os escritores dedicam seus livros aos amigos, a outros escritores, aos parentes. Cony inovou. Dedicou à sua querida cachorra: Mila, a mais que amada!

Cony escreveu um livro polêmico sobre o suicídio de Getúlio: ”Quem matou Vargas”. Apesar de polêmico é uma obra que deve ser lida! Outro livro polêmico: ”O Beijo da Morte”, escrito em parceria com a jornalista Anna Lee. O assunto principal é sobre a Operação Condor (assassinato de líderes Sul Americanos). Na orelha do livro, lê-se: “Não houve coincidência: as mortes de JK, Lacerda e Jango, ocorridas entre setembro de 76 e maio de 77, em pleno regime militar, foram assassinatos políticos. Esta é a tese do Repórter, o protagonista deste livro”.  Embora o livro não prove o assassinato dos três políticos brasileiros, fica a dúvida…

Cony também escreveu uma biografia de Juscelino dedicada aos jovens que desconhecem quem foi esse estadista brasileiro: “JK, como nasce uma estrela”. Na obra, ele aborda, em poucas linhas, a morte suspeita de Juscelino, em acidente automobilístico.

Cony era ainda membro da Academia Brasileira de Letras. Qual Carlos Heitor Cony ficará na História: aquele que criticou a Ditadura Militar (O Ato e o Fato), o escritor, o divulgador de Juscelino, o fiel à sua cachorra? Ou todos eles? Creio na última hipótese.  

 

Jasson de Oliveira Andrade é jornalista em Mogi Guaçu

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