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Artigo: A arapuca

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Dias atrás, com a paralisação dos caminhoneiros, ficamos reféns da falta de rumo que a administração do nosso país padece. Uma parada geral acompanhada de alguns golpes pesados naqueles que mais sofrem nessa nação abençoada por Deus e bonita por natureza!

“Pararam o país”, diziam os jornais; e o clima de insatisfação e insegurança crescia, os aventureiros e aproveitadores surfavam na onda da desgraça alheia transmitida ao vivo para o Brasil e o mundo. Mas algumas questões, a meu ver, ficaram sem respostas, pois só um desconto de centavos no preço do diesel não resolve a vida do país.

A tal “greve” deixou bastante clara a distinção entre sabedoria e esperteza. Visto que todos nós pagamos muito caro pelo litro dos combustíveis, pelo gás de cozinha e que os impostos são altíssimos e não geram benefícios sociais, uma gritaria geral deveria, sim, ecoar em todos os cantos de nossas cidades. Entretanto, toda essa manifestação demonstrou um golpe de esperteza porque o que vimos foi o desrespeito total e irrestrito para com os mais pobres, a começar pelos caminhoneiros que ganham muito pouco pelo imenso, insalubre e arriscado trabalho que realizam.

Donos de grandes transportadoras parecem lucrar com o desconto dado ao diesel; já o caminhoneiro, dono de seu caminhão… Os diversos governos do Brasil desde o fim da segunda guerra não tiveram como prioridade o transporte coletivo e não favoreceram meios de locomoção que atendessem ao povo e suas reais necessidades. A opção pelo asfalto e pelo pneu, não privilegiou o coletivo, mas pôs na estrada muitos veículos que poderiam correr por outras vias mais seguras e menos poluentes. Inclusive com um modelo frequente em países desenvolvidos, os caminhoneiros trabalham turnos menores e são muito melhor remunerados que os nossos valentes motoristas da nação.

Outro golpe nos mais pobres foi o aumento abusivo de preço dos gêneros necessários para as famílias que não fazem estoques em suas casas. De repente os preços subiram mais alto que a torre de babel, sacrificando os que ganham menos e sofrem mais. Aqui eu pergunto se o “bem” que tanto desejamos pode admitir “mal” para nossos semelhantes? Se admitirmos um “mal”, ou se a ação realizada tiver como intenção o benefício de um grupo ou uma parcela só da nação, não é “bem” e certamente não trará consequências boas. Se o “sol nasce sobre bons e maus”, não é aceitável que paralizações como essas não beneficiem o pobre, o idoso e o aposentado. Aliás, esses são lembrados em época de campanha eleitoral e esquecidos em seguida.

Preocupou-me o grupo que pedia “intervenção militar”! Acho que não têm noção do que isso significa. Eu e minha família sentimos na pele o terror daquela época, dos “anos de chumbo” e não desejo isso novamente para nossa Pátria amada.

O Brasil que eu espero, e creio que todo cristão deve esperar e se comprometer para que aconteça, é um país com mais fraternidade e responsabilidades assumidas; que os que governam abram mão de interesses egoístas e mesquinhos; que haja respeito aos educadores, aos trabalhadores; que a vida humana seja respeitada, esperada e celebrada desde a sua concepção até o seu fim natural. Esse é o meu sonho que, se sonharmos juntos poderemos vê-lo realizado.

 

João Paulo Ferreira Ielo é pároco na Igreja Matriz Imaculada Conceição

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