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Abelhas: o alerta de quem lida com o perigo

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Muitas vezes, a ação da natureza assusta. O enxameamento de abelhas, comum nessa época do ano, tem se tornado frequente. Há uma semana, guardas civis interditaram uma rua no Jardim Itacolomy para poder fazer a remoção de um enxame de abelhas europeias. Ações como essas têm se tornado rotina para alguns apicultores.

Semanalmente, o aposentado Antônio Eduardo de Almeida, 72 anos, recebe chamados desesperados para retirar abelhas de padrões de energia, árvores ou garagens. A experiência de lidar com abelhas, há mais de 50 anos, é o que garante a remoção sem que haja vítimas.

“Trabalhando na roça lá em Nova Louzã a gente se deparava com enxames e aprendi tudo com os mais velhos e também lendo livros de apicultura”, conta o aposentado.

Entre um chamado e outro, Almeida divide o tempo com o hobby de ser apicultor. Junto com amigos, ele retira o mel dos caixões com colmeias, que têm espalhados em propriedades na Zona Rural.

Antônio
Antônio

Antônio Almeida conta que há todo um paramento para o trabalho de remoção das abelhas. Primeiro ele visita o local, observa onde as abelhas estão se é no ar ou se já se instalaram em alguma parte. Ele, então, retorna no fim da tarde, já no anoitecer, vestido com traje especial para evitar picadas. Almeida usa um fole para fazer fumaça, a fim de acalmar as abelhas. Ele queima sabugo, cascas de laranja, erva cidreira e serragem.

A próxima etapa é atraí-las até o caixão que foi armado. Mas o serviço não termina aí. Em alguns casos, a retirada não pode ser feita no dia. É preciso deixar o caixão ali por uns dez dias, porque as abelhas estão acostumadas naquele local. “Se eu levá-las para outro lugar, elas vão fugir”, conta Almeida.

A transferência também requer cuidados. O apicultor ensaca o caixão e amarra a boca para que, se no trajeto de carro até o sítio houver algum incidente, elas não escapem. Ele se lembra de uma ocorrência que aconteceu com um apicultor de outra região em que o transporte foi feito de dia. Na rodovia, o carro no qual as abelhas estavam se envolveu em um acidente. O enxame em alvoroço atacou algumas pessoas e duas morreram em decorrência das picadas, e não do acidente.

Aliás, sobre as picadas, Almeida ri quando questionado se já foi vítima de um ataque. “Ferroada a gente toma, mas acidente não. É na hora de tirar a roupa especial, naquele calor, a gente esquece que tem uma ou outra voando e toma uma ferroada”. E quando picado, ele procura não se debater para não atrair outras abelhas e procura logo tirar o ferrão e raspar o veneno do local.

apicultura sr antonio

ENXAMEAÇÕES

O perigo e os cuidados necessários

O capitão Alexandre Riquena Costa, comandante do Subgrupamento do Corpo de Bombeiros da região, reforça que as enxameações são para formar nova colônia, e não para atacar. Mesmo assim, compreende que para a população a ‘nuvem’ de abelhas assusta. “Elas estão em trânsito e não tem perigo e elas param em uma parede, no poste, em algum lugar para descansar”.

Riquena frisa que elas só atacam quando algum fator externo apresenta perigo, aí partem para o ataque. Ele cita o exemplo do incêndio na Fazenda Campininha, onde 1 mil hectares foram destruídos e, com a destruição do habitat, os animais acabam migrando para a cidade. “Imagine o que foi destruído só ali”, reflete.

multi apiculturaO bombeiro estudou as abelhas como tese de Mestrado. Segundo ele, à época, a instituição não tinha um procedimento padrão para remoção ou como atuar em casos de ataques. “Cada guarnição capturava de uma forma diferente, em outros locais matavam as abelhas. E matar abelhas é crime ambiental. Elas são importantes, porque 40% dos alimentos que consumimos dependem da polinização das abelhas”.

Ele lembra que um protocolo da ONU (Organização das Nações Unidas) incentiva a criação de abelhas e, em Paris, a criação tem sido feita no topo dos edifícios. “Para que não haja diminuição na produção de alimentos”, pontua.

 

O que fazer?

Riquena explica que o Corpo de Bombeiros não é um órgão que tem como atribuição fazer o manejo de abelhas, mas atende as emergências como no caso de ataques quando estão agressivas. Ele cita o exemplo da remoção quando a colônia oferece risco em potencial, quando estão próximo a uma escola, porque sabem que elas podem se incomodar com o barulho e a agitação das crianças.

Segundo dados gerais da corporação, só no Estado de São Paulo são cerca de 13 mil ocorrências por ano envolvendo insetos e 100 mortes por ano registradas no país.

capitao riquena corpo bombeiros

 

Caso o pedido de remoção seja feito pelo Disque 193, o bombeiro vai ao local avaliar a situação e orientar o que deve ser feito. Por isso, o capitão do Corpo de Bombeiros quer integrar os trabalhos com o Centro de Controle de Zoonoses, que faz esse trabalho, e com apicultores, muitas vezes acionados pela população para a remoção. “Porque são raras as ligações em caso de ataques, o mais comum é devido ao enxameamento e porque a pessoa não sabe o que fazer”.

Mas devido ao aumento dos chamados, principalmente em razão do aparecimento maior delas na área urbana, o comandante dos Bombeiros já determinou a compra de ‘caixas ninho’ para a remoção. O objetivo é também treinar os bombeiros para a captura dos insetos.

Atualmente, além de Riquena, o subtenente Ferreira dá orientações quando há emergências. Ele foi instrutor na Escola de Bombeiros em matéria de ocorrências relacionadas aos insetos e também é um apicultor. O tenente Dainese, já aposentado e residindo em Espírito Santo do Pinhal, também ajuda os colegas de farda quando necessário. Ele também se tornou apicultor.

apicultura

PURO MEL

Almeida também produz mel 

Entre um socorro e outro, Antônio recebeu a Gazeta para um bate papo na sede da Associação dos Aposentados Papeleiros, onde atua como diretor financeiro. Ele conta que nossa região é rica em flores silvestres e o que atrai as abelhas também são as plantações de eucaliptos e laranjas. “Mas grandes produtores de laranja estão pulverizando o pomar com avião e com produto forte e isso está acabando com as abelhas e até a produção do mel de laranjeira está difícil. Se não houver fiscalização rígida, vão acabar”, lamenta Antônio.

apiculturaCom a produção das abelhas que resgata e leva para os caixões na área rural, Antônio consegue vários tipos de mel, de acordo com o tipo de florada, como o mel de eucalipto e mel silvestre.

Antigamente, ele lembra que só existia a abelha europeia. “São maiores e mais mansas e hoje estão mais mestiçadas com as africanas. São menores e produzem mais mel. Tem também a abelha sem ferrão. São poucas, porque produzem menos mel. Algumas pessoas, em algumas cidades já tem caixão próprio para elas até nas áreas das casas”. Almeida conta que um enxame adulto tem de 5 a 6 litros de abelhas.

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