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A violência contra animais de grande porte

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Quando se fala em maus-tratos contra animais logo vem a nossa cabeça os cachorros e os gatos. Afinal de contas, eles são as vítimas que mais aparecem na sociedade. Porém, isso não significa que eles são as únicas vítimas de seres humanos que descarregam abandono e violência nas criações.

Animais de porte grande, como os cavalos, jumentos e burros, por exemplo, também são alvos de maus-tratos tanto na Zona Rural quanto na Zona Urbana. No entanto, o fato destas espécies serem fortes na aparência, principalmente os cavalos, não faz as pessoas olharem para eles como seres indefesos e que também precisam receber respeito, amor e proteção. Ou seja, mesmo sendo fortes e grandes estes animais se tornam, sim, indefesos nas mãos de seus tutores.

DADOS

Cidade registrou casos de extrema crueldade

Mais um ano se passou e muitos cavalos, burros, mulas e jumentos morreram vítimas da violência. Em Mogi Guaçu, a triste realidade também bateu à porta. De acordo com a bióloga e coordenadora do CCZ (Centro de Controle de Zoonoses), Silvana Munhoz Bueno, o ano de 2018 registrou 48 ocorrências, nas quais denúncias de animais maltratados foram feitas e casos de extrema crueldade foram constatados.

multi maus tratos animaisA bióloga confirmou que, infelizmente, os animais vítimas de violência são tidos como objetos e máquinas descartáveis, principalmente os animais de produção, como os bovinos e os de tração, como os equinos, muares e asininos. “Cavalos são muito sensíveis à dor e podem morrer por isso. Falta consciência, respeito, humanização. É muito egoísmo e vaidade inútil. O ser humano precisa aprender ou reaprender a ter um olhar mais humanizado, mais solidário e mais amoroso. Precisa aprender a olhar com os olhos do coração, e não com os olhos do cifrão”, expressou Silvana.

E para você quanto custa uma vida?  Todo ser humano tomado por consciência e amor sabe que uma vida não tem preço. Inclusive, dos animais. Diante dos verdadeiros valores da existência, a bióloga foi categórica ao afirmar que é preciso acabar com os pontos de barganha. “O comércio negro de compra e venda de cavalos tem que acabar. Isso porque, esse tipo de negócio só lida com animais doentes e idosos. Muitos deles com problemas crônicos de coluna, tendões e do aparelho locomotor em geral. São, principalmente, essas vítimas que são utilizadas por inescrupulosos que depois abandonam estes animais à própria sorte nas vias públicas ou mesmo em zonas rurais”, desabafa Silvana.  

Ela ainda recorda que em novembro do ano passado, uma ocorrência marcou o dia de tristeza e revolta, dois cavalos foram queimados vivos, no bairro rural Santa Felicidade. “Todos os casos são marcantes, mas os dois cavalos que foram queimados vivos me dói na alma até hoje”.

A baia onde os dois cavalos estavam foi incendiada, na madrugada do dia 28. O dono dos animais registrou um Boletim de Ocorrência e a protetora Sônia Módena da Associação Recanto das Patinhas acompanha o caso que segue sendo investigado. À época, todos os indícios deram conta de que o incêndio foi criminoso. Os cavalos morreram queimados vivos e ficaram com marcas de que ainda tentaram fugir da baia, mas não conseguiram.

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E antes mesmo de o ano acabar, no último dia 25, em pleno Natal, um caso triste encerrou 2018. Uma mula foi resgatada na Avenida Suécia depois de ter sido atropelada por um carro em alta velocidade que ignorou os avisos feitos por transeuntes de que havia animais na via. O condutor do veículo fugiu após o atropelamento. O animal teve fraturas expostas nos dois membros torácicos e hemorragia interna e morreu enquanto recebia socorro do Zoonoses e do Corpo de Bombeiros.

Diante de ocorrências como estas, Silvana ressaltou que a população não deve ficar omissa diante de maus-tratos nem ficar na dependência dos órgãos públicos e ONGs. “As pessoas podem e devem denunciar situações de maus-tratos a qualquer espécie de animal. Elas podem ligar na Polícia Militar, na Guarda Municipal, no CCZ, no Saama e ainda sem sair de casa, fazer a denúncia pela internet, na Delegacia Eletrônica”, finalizou a bióloga.

“SOBERANO”

Cavalo resgatado viveu história de dor e amor

 Nunca passou pela cabeça de Jhonatan e Gabriela Camillo que um dia eles fossem abrigar um cavalo vítima de maus-tratos. Porém, no dia 14 de dezembro, a vida do casal e a de um animal espancado de forma gratuita se cruzaram pelo Jardim Iguatemi, em Mogi Guaçu.

Jhonatan e Gabriela cuidaram de Soberano
Jhonatan e Gabriela cuidaram de Soberano

O casal contou que, naquela sexta-feira, saiu de casa logo pela manhã e no meio do caminho observou o cavalo branco amarrado em um pedaço de tronco, sem folhas e sem sombra. Apesar de lamentar o fato, Jhonatan e Gabriela seguiram caminho adiante acreditando que tudo estava bem.

No entanto, por volta das 16 horas, quando os dois estavam voltando para casa se depararam com uma cena muito triste. “Eu já fui descendo do carro desesperada. Ele estava no chão, todo machucado, um pouco mais à frente de onde tínhamos visto ele amarrado. Os vizinhos estavam jogando água nele e fazendo sombra com guarda-chuvas”, lembrou Gabriela.

A Guarda Civil Municipal foi chamada e compareceu ao local, mas o agressor do cavalo não foi localizado, nem identificado. Isso porque, ele fugiu assim que terminou de maltratar o animal. O Centro de Controle de Zoonoses, da Secretaria Municipal da Saúde também esteve presente na ocorrência e ajudou o casal a levar o cavalo embora para casa. “Oferecemos na hora para ficar com ele. Eu falei: Deixa que eu levo, eu cuido, eu me responsabilizo. Eu já tive cavalo e não poderia deixá-lo caído ali”, contou Jhonatan.

Já na casa nova, o cavalo, de aproximadamente 18 anos, ganhou um novo nome, mesmo debilitado e sem muitas forças, passou a se chamar ‘Soberano’, na esperança de que viveria mais dias para mostrar seu poder e sua beleza. No entanto, Soberano havia sido brutalmente agredido e o seu corpo forte e grande, com mais de 300 quilos, não suportou tamanha violência. O cavalo faleceu na madrugada do dia 19, quarta-feira.

“Lamentável uma humanidade tão desumana. É triste ver uma sociedade acostumada com a ilegalidade, com injustiças e sem se importar com o que acontece em sua volta. Convivemos com a dor, o descaso, a tristeza, indiferença e omissão. Seria bom que a população fiscalizasse e contribuísse com os animais vítimas de maus-tratos”, relatou Jhonatan, que antes de imaginar que Soberano não resistiria demonstrou alegria em poder se tornar de maneira regular e definitiva o novo tutor do cavalo, recebendo todos os documentos necessários que estavam sendo providenciados com a ajuda do Zoonoses.

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Os poucos dias em que Soberano viveu com a nova família foram de alegria, ainda que em meio às dores, o cavalo recebeu o melhor tratamento e muito amor. Gabriela estava cheia de esperanças de que o novo amigo iria ficar bem e viver mais uns bons anos e de maneira feliz. “Cada dia que passa era uma alegria, me sentia grata em ver ele bem. Meu marido deixou de trabalhar para cuidar dele e valeu muito a pena. Ele ficava feliz, fazia os medicamentos nele, ajudava ele a se levantar um pouco e a gente vê que ele (Soberano) era agradecido, ele sabia que estávamos cuidando dele”, relatou.

Foram cinco dias de muito carinho, mas, infelizmente, surpreendendo a todos, o animal não resistiu aos ferimentos e morreu. Muito triste, Jhonatan revelou o que sente com a perda de Soberano. “Hoje me sinto de luto, uma mistura de dor e revolta, me sinto impotente, tentamos de tudo, todos os recursos e cuidados foram dados: amor, atenção, carinho. Ele experimentou a melhor ração, o melhor ambiente, água fresca, sombra, medicamentos e, principalmente, a nossa gratidão a um trabalhador que não marcava ponto, não tinha pagamento e não tinha direitos trabalhistas e que, com certeza, contribuiu para a construção da história de labor de pessoas que o acompanharam ao longo dos anos. Infelizmente, usaram, abandonaram, exploraram e espancaram com crueldade, um ser indefeso que morreu sem realizar o sonho de muitos que lutaram e torceram para que esse guerreiro permanecesse em pé, meu sentimento também é de gratidão para com as pessoas que se sensibilizaram com essa história”, finalizou o jovem.

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AMPARO

Associação pede mais consciência aos donos de animais

A Kapa Kamael – Associação Protetora de Animais – também socorreu ao longo do ano cavalos e burros maltratados. De acordo com a vice-presidente da Associação, Valdirene de Souza Floriano, em média quatro denúncias foram recebidas por mês. “De todos, houve dois casos marcantes. Um no bairro Ypê Amarelo, onde um cavalo estava caído de exaustão devido os adolescentes terem montado a noite toda nele e outro caso no Jardim Santa Terezinha, onde o cavalo se encontrava caído e tão debilitado que não aguentou e foi a óbito logo após o socorro”, lamentou.

multi maus tratos animaisValdirene explicou que a Kapa constatou que, na maioria das vezes, os animais são vítimas pelo fato de seus proprietários serem adolescentes e de baixa renda. “Falta informação sobre como manter e cuidar de um animal de grande porte. Famílias de baixa renda não tem dinheiro para pagar veterinário quando o animal precisa e não conseguem oferecer um lugar adequado para abrigá-lo, tanto que todas as solicitações que recebemos foram de animais criados na zona urbana”, pontuou.

Diante desta realidade, a protetora explicou o porquê é fácil encontrar cavalos, jegues e burros amarrados em praças públicas, locais de preservação ambiental e em terrenos sem estrutura. Para 2019, Valdirene ressaltou que irá continuar ainda com mais afinco a função da Associação de conscientizar e até providenciar o resgate do animal, além de registrar o Boletim de Ocorrência por maus-tratos. “No entanto, esperamos mais consciência das pessoas que adotam ou compram animais”, pontuou.

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