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A carreira e a crise dos 30 anos

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Certa vez, ouvi falar que os primeiros dez anos da carreira são os mais difíceis. Então, quando se chega aos 30 anos, no meio do caminho, é normal que muitos entrem em crise e se pergunte: será que escolhi a profissão certa?

Nara Ribeiro, psicóloga, Master Coach de Carreira e professora universitária, concorda que nessa fase inicial da vida profissional há muitos questionamentos internos. “Passamos pelo estágio que chamamos da “fundamentação”, no qual a preocupação sobre o futuro nos obriga a determinar quais serão as melhores atitudes e escolhas para iniciar a vida profissional. Com isto, inicia-se uma grande fase de ansiedade e de incertezas sobre a escolha profissional”.

O ingresso no mercado de trabalho faz com que exista na prática um momento de exploração, “no qual implica vivenciar uma variedade de papéis, atividades e situações”, explica Nara.

Aí vem aquela ansiedade de querer rapidamente estar ativo no mercado e a insegurança sobre estar ou não fazendo as melhores escolhas. E isso independe da idade. Esses momentos ocorrem, principalmente, em um momento de crise quando há a sensação de que algo pode estar sendo “ameaçado” ou “debilitado”, seja na vida pessoal ou profissional.

Imagem - BOX - Começar de NovoMas Nara conta que nessa fase, na casa dos 30 anos, homens e mulheres tendem a ter mais obrigações que vão além da esfera profissional, como, por exemplo, se irão ter filhos, conciliar a sua ascensão profissional com a família. Enfim, são várias escolhas a serem feitas, o que para as mulheres acabam tendo um peso maior.

Até mesmo as mudanças nas leis trabalhistas e o contexto moderno do mercado de trabalho vêm alertando os profissionais para novas posturas e atitudes que devem ser tomadas. “É inevitável o sentimento de insegurança, levando a vários questionamentos. Porém, cada vez mais a tendência do perfil profissional é de se adaptar a estas mudanças, compreendendo a necessidade de gerir a própria carreira, independentemente de ser autônomo ou estar empregado em uma empresa”, orienta Nara.

 

ESTÁGIOS DA VIDA

Pressão da sociedade pode contribuir para crises internas

Nara
Nara

“Falamos da existência da crise dos 30 anos, porque existem certas experiências que são comuns durante o momento de autodesenvolvimento de todo o ser humano. Embora saibamos que todos nós somos seres únicos. Reconhecer as vivências comuns pode nos ajudar a defrontar com algumas questões que temos ao longo da nossa vida. Geralmente, aos 30 anos, para algumas pessoas é o momento de pensar seriamente sobre a carreira e refletir se estamos no lugar certo, de acordo com as experiências já passadas e o conhecimento de suas habilidades neste tempo”, conclui a Coach de Carreira.

Mas há uma explicação para isso que vai além do que acontece no mercado de trabalho. Nara conta que se for seguido a Teoria dos Setênios (estudo dos ciclos da vida), aos 30 anos estamos passando do 4º setênio (21 a 28 anos). Esta fase é marcada pela instabilidade emocional. Temos muito conhecimento teórico e pouca prática e tenta-se fazer várias coisas solicitando feedbacks constantes.

Já no próximo ciclo, que caracteriza os 30 anos (5º setênio), passa-se por um momento mais racional, no qual existem crises existenciais por causa dos questionamentos sobre o que é justo, correto e digno, também pergunta-se se é mais importante “ter ou ser” e, com isto, mostram-se atitudes mais  ponderadas e pensadas antes de agir.

“Portanto, aos 30 anos, marca-se simbolicamente o fim da juventude e da euforia, quando grandes decisões devem ser tomadas em vários aspectos da vida, não apenas na carreira. O fato é que, muitas vezes, existe uma pressão de que já se deve ter tudo bem definido, levando as pessoas a se questionarem e refletirem melhor sobre o momento que estão vivendo. Quando as suas percepções sobre si não coincidem com as percepções do que o mundo exige, começam as crises internas”, explica Nara.

mercado de trabalhoVALE A PENA?

Largar tudo e começar de novo

 Será que vale a pena jogar tudo para o alto e buscar uma nova profissão? “A mudança da carreira pode ocorrer em qualquer momento da vida, até mesmo porque com o amadurecimento é possível compreender o que nos satisfaz e o que não mais nos satisfaz. Só que, muitas vezes, o impasse está nos medos e nas crenças que envolvem qualquer tipo de mudança na vida, o que torna este momento angustiante num verdadeiro caos de conflitos internos”, comparou Nara.

A dificuldade está associada ao regresso ou fracasso ou pela pressão da sociedade que estabelece um padrão de sucesso. “Pois bem, o sucesso, assim como a felicidade são relativos e únicos para cada pessoa. A forma mais ajustada de ser encarada é se dar conta de que algo deve ser mudado. Para isso é necessário passar por um momento de análise e reflexão pessoal e entender que é possível redirecionar a rota que estava seguindo, agora de  forma muito mais amadurecida e coerente com a vida integral da pessoa”, diz a Master Coach.

Nara ainda acrescenta que se deve compreender que a carreira faz parte de uma esfera de nossa vida e não o todo dela, e quando ela é colocada no lugar exato, tem-se uma sincronia perfeita para o tão desejado sucesso que se busca. “As pessoas com autoconhecimento e planejamento procuram dar melhores repostas à crise, pois dificilmente irão desistir de seus propósitos, porque sabem que, embora tenham obstáculos a serem superados, ainda é possível buscarem a autorrealização profissional. Haverá sempre escolhas a serem feitas. Uns podem paralisar ou continuar insatisfeitos em sua zona de conforto, sendo tomados pelo medo. Porém, outros profissionais podem reagir com motivação o suficiente para buscarem o seu próprio sucesso. A pergunta é: qual está sendo a sua escolha diante da crise que está enfrentando?”.

MUDANÇA

Algo mais que a rotina

multi crise profissional antonio marcos
Antônio Marcos

Antônio Marcos de Lima decidiu dar um novo rumo profissional à sua vida quando aos 31 anos se viu cansado da rotina do serviço público. Aquele serviço diário, anos após anos, já não contentava. “Aos 18 anos queria ser advogado, mas não tive condições. Depois quis ser administrador e não tive condições. Fiquei quieto. Foi quando comecei a participar dos movimentos da assistência social, dos conselhos municipais, e comecei a gostar e a tomar pé que minha área profissional poderia ser essa. E comecei a me engajar e fui cursar Serviço Social. E estava cansado também e queria partir para outra e fui fazer o que meu coração pediu”.

Lima continua o trabalho como servidor municipal há mais de 29 anos e também atua como coordenador técnico do PAS (Projeto Adolescente Sim!), da Associação Assistencial  ‘Jesus Chama-te no Caminho para a Luz’. Lima também é tutor social na Unopar.

 

PRÓS E CONTRAS
Existe a carreira ideal?

Nara diz que não é errado idealizarmos uma carreira perfeita. O erro é quando enxergamos de forma parcial aquela profissão. “Como em toda profissão existem vários fatores que não estão no nosso controle, por exemplo: as culturas das empresas onde iremos trabalhar, o nicho de mercado, os tipos de relações de subordinados ou de chefias que serão enfrentadas… A decepção ocorre quando a percepção parcial da profissão perfeita mostra alguns lados que não foram considerados”, observa.

Para ilustrar, a psicóloga diz que é como estarmos apaixonados. “O outro é muito perfeito e é impossível vermos algum defeito nele. Tudo se encaixa e não temos dúvidas. Passada a fase da paixão, aí vemos as pessoas como são de fato, porque é quando damos conta se aceitamos ou não as condições desfavoráveis, ‘que fazem parte do pacote’. E quando temos a certeza de que mesmo considerando a realidade também é possível enfrentar os obstáculos. Aí podemos entender que existe um relacionamento verdadeiro acontecendo”.

Por isso, Nara orienta que as carreiras sejam construídas considerando todos os prós e contras, alinhando ao grau de interesse e afinidades pessoais. “Levando estes pontos em consideração é possível traçar planos e estratégias para alcançar a carreira desejada e tão sonhada”.

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