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Editorial: Vendedor de ilusão

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Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol? O assunto virou até tema de música do grupo Skank “É uma partida de futebol” e fez sucesso em todo o país. Não é difícil encontrar meninos ainda iniciando na adolescência que sonham em ser jogador. O que eles talvez não saibam é que esse mundo também reserva ilusões e decepções.

Em levantamento feito pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e divulgado pela Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais), existem 22.811 atletas com contratos registrados no país. Apenas 691 (3%) têm ganho mensais superiores a R$ 15.760. Já 11.711 (51%) recebem somente o salário mínimo. E o pior: boa parte desses mais de 11 mil atletas, na prática, ganham menos de um salário mínimo por mês, ao se fazer a média anual. A questão é que eles assinam contrato só por quatro ou cinco meses, tempo em que a maioria dos clubes permanece em competições durante o ano.

Além da dificuldade que alguns atletas precisam enfrentar para conseguir a tão sonhada vaga em algum time, os jovens são assediados por agenciadores como o já conhecido Jonas César de Oliveira. Pela terceira vez, o agenciador é assunto nesta Gazeta por fazer falsas promessas a jovens que sonham em ser jogador de futebol.

O método de trabalho de Jonas não mudou desde a sua primeira denúncia, em 2013. Ele traz jovens de todos os cantos do país, principalmente das regiões Norte e Nordeste com a promessa de dar treinamento e posteriormente conseguir uma vaga em algum time. Os pais pagam uma espécie de mensalidade, enquanto os filhos ficam aos cuidados do agenciador. Os jovens ganham moradia, são alimentados e realizam treinamentos. Ele usa como fachada o Independente Futebol Clube e para dar realidade a suas promessas alugou o antigo Clube da Chiarelli, na Vila Champion.

Apesar das promessas, o clube ao qual Jonas diz ser o presidente não está inscrito na Liga Paulista de Futebol. Portanto, mais uma vez, enganou os jovens que aqui estavam. Cerca de 20 deles eram maiores de idades e os menores estavam alojados em um sítio em Mogi Mirim. Mas em condições iguais: sem um local adequado para o alojamento, sem alimentação e sem o tão sonhado clube.

Em 2013, o caso foi denunciado ao Ministério Público e o órgão não respondeu a reportagem como está o andamento do processo, visto que Jonas foi novamente denunciado. O órgão que é público se nega a dar informação a um caso de extrema importância. Até quando famílias vão continuar sendo enganadas pelo agenciador?

É preciso que as autoridades do município assumam suas responsabilidades para que Mogi Guaçu não fique conhecida lá fora por ‘dar suporte’ ao agenciador que engana para ganhar dinheiro fácil.

Por que alguém sonha em ser jogador de futebol no Brasil? Desinformação. A ideia de virar um Neymar e enriquecer da noite para o dia, estatisticamente restrita a 0,8% dos jogadores brasileiros, faz com que insistam na ilusão do futebol.

Sonhar é permitido e os jovens têm o direito de correr atrás do objetivo. Mas o que precisa ser combatido são os Jonas que existem aos montes por aí. Sem eles, certamente, esses jovens terão uma desilusão a menos para lidar.

Mogi Guaçu poderia ser conhecida lá fora por causa do Mandi, que infelizmente sofre com o desmanche do que já foi um time, e não por um agenciador que faz o que quer por aqui. Está na hora de as autoridades- Ministério Público, Polícia Civil e Prefeitura- entrarem em campo.

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