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Cadeirante: o sonho da cidade sem barreiras

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O Censo 2010 apontou que Mogi Guaçu tem 28.154 pessoas com algum tipo de deficiência permanente. Ainda segundo a estimativa da população, 537 tem deficiência motora total. Outras 2.422 têm grande dificuldade motora e 4.863 enfrentam alguma dificuldade.

Levando em consideração as 7.285 pessoas com pequeno e grande grau de dificuldade de locomoção, podemos nos perguntar: onde elas estão?

Não vemos, por exemplo, cadeirantes circulando pelos bairros, pelas lojas ou em espaços de lazer. Isso acontece, em geral, devido à falta de acessibilidade das cidades.

Giovanna
Giovanna

E muitos de nós apenas nos damos conta quando passamos a ter a mesma percepção dessas pessoas com mobilidade reduzida. Foi assim com a comerciante Giovanna Figueiredo Loureiro, 32 anos, cadeirante há oito meses. “Antes eu não percebia, por exemplo, a necessidade de uma vaga de estacionamento. Hoje eu sou ‘a louca da vaga’. Já deixei vários cartões de advertência em carros estacionados. Há também aqueles que respeitam as vagas, mas estacionam ‘colado’ ao nosso veículo. Como vou parar a cadeira de rodas perto da porta para eu poder entrar? As vagas para cadeirantes deveriam ter uma metragem maior”, sugere Giovanna.

Ela conta que descobriu a doença degenerativa que afetou sua medula aos 23 anos, mas acreditava que nunca ficaria debilitada. Porém, a doença se agravou quando ela cursava Enfermagem. Aos poucos, Giovana foi percebendo a falta de força muscular nas mãos e nos braços e, por fim, teve de abandonar a faculdade.

Em casa, o quarto foi adaptado em um mini estúdio de fisioterapia. No entanto, Giovanna quer sair de casa, curtir a vida ao lado do marido Rafael e das amigas. “Eles são meu carro-chefe, me levam, mas a maioria dos comércios não têm entrada adaptada, só consigo ir ao Boulevard, ao shopping e ao cinema”, pontuou Giovana.

Quando quer alguma roupa de uma loja no Centro geralmente o marido é quem entra no estabelecimento, escolhe a peça de roupa e leva até ao carro para Giovana ver. “As guias das sarjetas não são rebaixadas, há degraus para entrar nas lojas e não há espaço nas calçadas para a cadeira passar”, reclamou.

“Nas casas noturnas, os camarotes não são acessíveis, não há rampas, apenas escadas. Nos demais estabelecimentos nem sempre os sanitários para cadeirantes são acessíveis. Meu marido precisa entrar comigo, mas como se o sanitário está dentro do banheiro feminino? Percebo que muitos comerciantes fazem adaptações por obrigação e, por isso, fazem de qualquer jeito”, disse ela.

O apelo de Giovanna é para que os estabelecimentos comerciais facilitem o acesso de uma população que também consome, inclusive com provadores adaptados. “Eu sou nova (cadeirante) e não vejo outros cadeirantes pelas ruas e com certeza queremos sair mais, porém não há esporte adaptado, lazer e cultura. Ficando em casa ficaremos deprimidos”, adverte.

multi acessibilidade giovanna

Um modelo de cidade, citado por Giovanna, é o município turístico de Socorro/SP. Por lá, até as atividades de lazer, como rapel, são acessíveis. Essa e outras viagens, com dicas para cadeirantes, podem ser acessadas no blog (euvousentada.blogspot.com.br) criado por ela para interagir com outras pessoas, no qual posta descobertas que ajudam a viver com mobilidade reduzida. Giovana também administra o site da sua loja virtual. “Queria mais infraestrutura. Temos de sair para a rua, nos mostrarmos e posso garantir que tem muita gente solícita, disposta a nos ajudar com a cadeira”, concluiu.

multi acessibilidade giovanna

Zona Azul

Em nota enviada à Gazeta, a Tec Park informou que o número de vagas destinadas para Idoso (5%) e Portador de Deficiência (2%) é de acordo com a legislação. A setorização feita à época da demarcação levou em conta o total de 480 vagas, sendo que atualmente são 423. O critério usado para atender melhor essa população, é de vagas próximas a farmácias, bancos, para facilitar a acessibilidade.

 

PODER IR E VIR

 “A cidade tem que se adaptar”, diz Mariana

 Bacharel em Direito, Mariana Meneghel Ribeiro, 29 anos, afirma que embora tenha se adaptado a falta de acessibilidade de Mogi Guaçu, é a cidade que tem a obrigação de se adaptar às necessidades da população.

Mariana nasceu com um tumor na coluna vertebral. Nas primeiras 24 horas de vida ela passou por uma cirurgia e como sequela perdeu o movimento das pernas. “Nunca deixei as pessoas fazerem bulliyng comigo nem mesmo me usar para obter vantagens como passar na frente (em filas) só por estar comigo”.

Mariana
Mariana

Curtir a vida é possível com a ajuda da mãe Célia e dos amigos que desde a escola disputavam quem empurrava a cadeira até ao portão. Os amigos também a acompanham para ir a uma sorveteria, ao show de rock e até a um cruzeiro (que foi a viagem mais recente). “Com uma pessoa para me ajudar, eu vou. Uso ônibus para ir ao Centro. Não são todos adaptados, às vezes, tenho de esperar no ponto. Outras vezes vou com minha cadeira motorizada e em casa noturna os seguranças me sobem com a cadeira até ao camarote, mas eu gosto mesmo é de ficar na pista”, conta animada Mariana.

Foi com base nessas experiências que decidiu criar um blog (incluiremoda.wordpress.com) e escrever matérias que apontavam a falta de acessibilidade. “Queria incentivar mulheres cadeirantes e depois do blog vi ‘nascerem’ várias mulheres de Mogi Guaçu e de outros Estados”. Mariana conta que o blog contribuiu para muitas deixarem de lado o sentimento de vergonha de sair de casa, medo de enfrentar olhares e a lutar por uma cidade mais acessível.

Mas ela ainda gostaria que todos os ônibus que trafegam pelo município fossem adaptados para cadeirante. “Porque tem muito mais gente além de mim”.

Para ir até a padaria e a academia, que ficam no bairro onde mora, ela não consegue ir pela calçada porque há degraus e as guias não são rebaixadas. Por isso, Mariana divide a rua com os carros. Há ainda outro empecilho – os buracos no asfalto. Nem mesmo a Praça Monteiro Lobato, perto de sua residência, é acessível. Em seu entorno não há rampas de acesso e, mesmo se houvesse, o piso de concreto está desnivelado.

multi acessibilidade mariana

Foi com o blog que nasceu a amizade entre Mariana e Giovanna. Com seus textos sobre direito e acessibilidade, ela também foi convidada para participar de um comercial televisivo sobre arquitetura adaptada. Ela também conheceu a estilista Andreia Zibordi, que faz Moda Inclusiva. Mariana, inclusive, já desfilou em São Paulo e colabora com Andreia dando ideias de modelos de roupas. “Ela não é cadeirante. Eu ajudo dizendo se ficou bom, são roupas que visto sentada”.

 

Outro lado

A Viação Santa Cruz, responsável pelo transporte público, informou que a frota da linha urbana é composta por 30 veículos e 24 deles têm elevadores. Além disso, os oito ônibus que fazem a linha intermunicipal (Mogi Mirim/ Estiva) são adaptados. Desde 2014, os veículos já saem da fábrica com elevadores e a frota da Viação é renovada a cada cinco anos. O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, Luís Henrique Bueno Cardoso, reconheceu que o maior problema é a falta de acessibilidade nas calçadas. Para ele, falta lei especifica que regulamente as normas de construção e calçadas na cidade. Ele revelou que trabalha num projeto que prevê acessibilidade na região central, como o alargamento de calçadas, por exemplo.

POLEM
A busca pela independência

 Há praticamente 10 anos surgiu a Polem (Associação de Apoio às Pessoas com Lesão Medular) devido à falta de clínicas especializadas para ajudar pacientes a treinarem a mobilidade. Nesse período, 115 pessoas foram ajudadas a ser independentes, embora apenas 10% delas tenham conseguido deixar a cadeira de rodas.

Muitos sequer saíam de casa por causa da falta de acessibilidade física, sem contar que não tinham motivação da família ou quem os acompanhasse.  Para o neurocirurgião e presidente da Polem, José Eduardo de Andrade Lopes, o primeiro passo é o cadeirante se conscientizar que ele pode ser independente, começando a girar a roda da própria cadeira. “Ele precisa entender que tem condições de realmente ser independente. Hoje, há pacientes que conseguem sair sozinhos da cama e se transferir para a cadeira de rodas, tomar banho, fazer um café e dirigir até aqui sem o auxílio de outra pessoa”, explicou o médico.

José Eduardo e Talita
José Eduardo e Talita

O segundo passo, de acordo com a responsável pela equipe técnica da Polem Talita Schneider de Camargo Bertazini, é a pessoa cadeirante reivindicar seus direitos por uma cidade mais acessível. Ela cita que se um lugar não permite o acesso de todas as pessoas, esse lugar é deficiente. “É preciso que eles peçam mais investimentos por meio da imprensa, por meio de blogs e também não deixarem de sair. Vejo em muitos pacientes que eles tentam, mesmo não sabendo se os locais são acessíveis, o que já é um grande passo, mesmo que individualmente. Alguns, inclusive, frequentam academias e conseguiram adaptar os exercícios”, diz Talita.

José Eduardo também compreende que a região central de Mogi Guaçu foi projetada há muitos anos e não havia tantos cadeirantes, mas a cidade cresceu e precisa ser repensada para essa nova situação. “Quantos locais, bares, lojas e restaurantes possuem acessibilidade de fato?”, questiona.

O presidente da Polem ressalta como terceiro passo a busca pela acessibilidade institucional ao lembrar que há direitos que os cadeirantes ou pessoas com mobilidade reduzida possuem, mas são pouco divulgados ou dificultados pela burocracia. “Só mesmo os obstinados conseguem e a coisa só funciona quando eles se propõem a pedir pelos seus direitos”, pontua.

A assistente social Caroline Machado exemplifica citando episódios nos quais as mães desistem de matricular os filhos na escola. “Somente de dez anos para cá crianças cadeirantes passaram a frequentar a escola, mas isso ainda é burocrático”, lamentou.

Caroline diz que também faltam leis e fiscalização no Estado de São Paulo e em Mogi Guaçu que garantam, por exemplo, o direito de que o acompanhante do cadeirante tenha direito a entrada livre em eventos e espetáculos culturais, como existe em outros Estados.

polem dr jose eduardo

Para o neurocirurgião, os órgãos não podem ser passivos, porque há um desgaste enorme em reivindicar pelo que é de direito.

A Polem atende apenas aos pacientes com lesão medular espinhal (coluna). A entidade possui dez funcionários entre fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, assistente social, nutricionista, psicóloga e terapeuta ocupacional. Atualmente e de modo gratuito, a Polem atende 37 pessoas com lesão medular (paraplégicos e tetraplégicos). Há também 30 voluntários que atuam na entidade ou em eventos e na arrecadação de fundos. Financeiramente, a Polem se mantém com doações, repasse das Prefeituras e da Feag (Federação das Entidades Assistenciais Guaçuanas) e por meio de campanhas e eventos beneficentes.

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